Portinari, por ti a Mocidade Independente canta

Pedro do Coutto

Foi uma bela homenagem à arte, através de um lindo desfile da Mocidade Independente, a que foi prestada a Cândido Portinari, 50 anos após sua morte. Na voz da escola de samba de Padre Miguel, em um dos versos, um achado poético:”Por ti a Mocidade canta.”

Me tocou a homenagem ao grande artista, personagem na entrada da ONU em Nona Iorque com o mural Guerra e Paz. Consagradíssimo no mundo, autor do Baile na Roça, monumento à pintura e ao artista.Frequentava muito a redação do Correio da Manhã, onde o conheci.

Simples, quase pedindo licença para entrar e estar. Aos amigos Antônio Callado, Luiz Alberto Bahia, Antonio Houaiss, presenteava com obras suas. Estão por aí. Ingressaram como ele na eternidade. A arte, como sempre acontece, sobrevive aos seus autores.

Por ti (Portinari) a Mocidade Canta. O verso me ficou na cabeça, noite de domingo. Na segunda-feira, leio no Globo primorosa reportagem de Isabela Bastos, foto de Mônica Imbuzeiro, sobre uma iniciativa que, finalmente, se realiza: a reforma do Palácio da Cultura, no centro do Rio, que leva o nome de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Cultura de Vargas. Início da década de 40, quando as duas pastas eram uma só.

Traço original da obra, do arquiteto suíço Edouard Le Corbisier, que tanto inspirou Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, executores do prédio na Avenida Graça Aranha. Chefe de gabinete de Capanema, Carlos Drumond de Andrade. Azulejos externos de Portinari, por dentro painel seu, Café. Poesia de Drumond sobre os azulejos: azul, azul, concha e cavalo marinho, 22 vezes no espaço-tempo, que, 15 anos depois, em 56, inspiraria os poetas concretos Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo e José Lino Grunewald. E também o neo concretista Ferreira Gullar. Mas esta é outra questão.

O fato essencial e calamitoso, um atentado à arte e à cultura, é que o Palácio Gustavo Capanema ficou abandonado após a mudança da capital do país. Anos depois, já trabalhando no Globo, fui ao Gustavo Capanema fazer matéria da qual não me lembro agora. No segundo andar, reparei no atentado terrível. Como, apesar de Niemeyer e Lúcio Costa, a ventilação do edifício não é boa, alguém mandou instalar aparelhos de ar refrigerado. A construção se divide em blocos e sublocos separados por corredores. O que fizeram então? Colocaram aparelhos em corredores. Mas havia (e há) salas de fundo.Num dos salões de fundo, o famoso mural Café, focalizando os trabalhadores na lavoura.

Não consegui até hoje saber o nome do gênio que simplesmente mandou furar a parede para, no salão, instalar saídas de ar. Ele (ou ela) não teve dúvida: mandou furar o mural, no alto, violentando a obra de arte. Quando no governo Itamar Franco, Antonio Houaiss assumiu a Cultura fui procurá-lo no Gustavo Capanema. Falei com ele. Achou impossível, Mas contra fatos não há argumentos. Ficou espantado.

Mas, acredito eu, o estrago tornou-se irreversível. Pode ser que não. Vamos ver o que a ministra Ana de Holanda pode fazer. Aliás, Portinari enfrentou vários problemas e dificuldades por ser adepto – hoje não seria mais – da doutrina marxista.  A Igreja da Pampulha estava nesse rol. Construida por JK, quando prefeito de Belo Horizonte, o mural de Portinari foi considerado sacrílego. Apenas porque num deles um cão assistia à missa. A capela viveu anos fechada. Reaberta por José Aparecido, também no governo Itamar Franco.

A vida é assim. Os incompetentes poluem o pensamento livre. A resposta, 2012, entretanto foi dada pelo samba: Portinari, por ti a Mocidade Independente canta. Respondeu. O Brasil também, através da Rede Globo e dos comentários do grande Haroldo Costa.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *