Precisamos falar sobre Kevin

Jacques Gruman

Um fulano qualquer pega um canudo. Dentro dele, uma geringonça de uns 20 cm de comprimento e 2,5 cm de diâmetro. Aponta para uma pequena multidão e dispara. O míssil improvisado sai a 360 km por hora e destrói o crânio de um adolescente. O que se pode dizer de um boçal desses, “artilheiro” de arquibancada, protegido pela sua tchurma corintiana?

Adeus a Kevin

“Um acidente, uma fatalidade”, teve a desfaçatez de sentenciar o presidente do Corinthians, de olho gordo nos cifrões já arrecadados pela venda antecipada de ingressos para os próximos jogos do time na Libertadores. É a mesma retórica dos “efeitos colaterais” dos assassinatos extrajudiciais cometidos pelos drones, autorizados pela Casa Branca. Regret to inform que civis inocentes são chacinados para garantir a pax americana. Tudo vale a pena, se a ganância não é pequena.

Na distante Oruro, um adolescente boliviano foi massacrado por um bandido fantasiado de torcedor. Ao invés de tentar justificar o injustificável, dirigentes corintianos deveriam assumir seu quinhão de responsabilidade pelo crime e as torcidas organizadas, essa praga com figurino miliciano, banidas por prazo indeterminado. Só medidas radicais podem estancar a sangria dos desatinos que, há muito tempo, tornaram os estádios de futebol campos de guerra, frequentados pelos mais baixos instintos de gente violenta e desabituada ao convívio civilizado.

RELAÇÕES SOCIAIS

Como bem disse mestre Tostão, o que acontece em campo é reflexo das relações sociais gerais. A violência no futebol não é um raio em céu azul. Explode em espaços públicos, como prospera nos privados. A eleição de Renan Calheiros (com apoio de partidos “progressistas”), a devastação do crack, a canelada de um brucutu: variações em torno do mesmo tema. Quando o velho Maracanã ainda não era o projeto elitista que será seu destino próximo, clássicos reuniam 130 mil, às vezes 150 mil pessoas, sem grandes riscos de batalhas campais. Exceções existiam, claro, mas eram isso: exceções.

Será que alguém vai ser punido ? Duvido muito. Pelo meu gosto, não apenas o idiota que lançou o sinalizador naval, mas o Corinthians e suas torcidas organizadas, deveriam ser severamente punidos. Não custava muito seguir o exemplo de países europeus, que não refrescam nessas situações. Ocorre que estamos no Brasil.

Quem sabe o que é isso é Christiane Ferraz Magarinos. Ao ser parada numa blitz da Lei Seca, agrediu, xingou e tentou subornar policiais. Foi para a delegacia com um sorriso irônico nos lábios. “Neste país, só pobre ou favelado fica preso. Eu sou rica e influente”. Difícil encontrar melhor definição para uma sociedade de classes. E a luta entre elas favorece, nesta hora histórica, dona Christiane. Thor Batista manda lembranças.

Em meio a tanta sujeira, um espasmo de dignidade. O jogador Fábio Santos, do Corinthians, teve a coragem de dizer: “Se for necessário que o Corinthians seja expulso da Libertadores para que acabem com as mortes, sou totalmente a favor”. Houvesse seriedade, era o caso de parar todas as máquinas enquanto não se resolvesse, de uma vez por todas, a matança insinuada em cada partida de grande porte. Mas aí já seria pedir demais.

Está todo mundo deslumbrado com as piruetas esportivo-comerciais-capilares do Neymar, com a blogueira cubana que virou queridinha da direita brasileira (que já a lançou para a presidência de Cuba …), com o BBB bialista, e tantas outras cortinas de fumaça. Em dois dias, Kevin Douglas Beltrán Espada, o adolescente assassinado, desaparecerá do noticiário e sua morte terá sido em vão.

O tempora, o mores !

(artigo enviado por Mário Assis)

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