Prêmio dado ao escritor Chico Buarque tem dimensão política, mas vai muito além dela

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Chico Buarque comemora o maior prêmio da língua portuguesa

Sérgio Rodrigues
Folha

Página infeliz da nossa história (“Vai Passar”), os debates culturais que travamos em nossas redes sociais têm, de cultural, bem pouco. Soa natural falar do maior prêmio literário da língua dado a Chico Buarque pelo lado político.

Tremenda derrota simbólica para tanta mentira, tanta força bruta (“Cálice”), isto é, o reacionarismo político, cultural e civilizacional que chegou ao poder no Brasil? É evidente que sim —o que, aliás, estava com certeza nos planos do júri.

MARXISMO CULTURAL – Exemplo do “marxismo cultural” que domina os meios artísticos, sem o qual esse representante decadente da esquerda caviar já teria caído no esquecimento que merece, levando com ele o disco do Pixinguinha (“Trocando em Miúdos”)? Nesse caso, só rindo.

É claro que o Camões de Chico não poderia deixar de ser politicamente controverso num momento de polarização em que, além do mais, os óculos de grau errado do bolsonarismo só permitem enxergar no artista carioca o inimigo a ser destruído.

Mesmo assim, vou defender a ideia impopular de que a dimensão política de Chico, embora importante, é secundária. Reconhecer isso não significa subestimar a história de quem foi o maior nome da “canção de protesto” e um defensor inflexível de Lula e do PT —mesmo quando ficou patente o envolvimento de ambos em tenebrosas transações (“Vai Passar”).

OBRA DA INDIGNAÇÃO – Também não deve ser entendido como uma tentativa de, por meio de certo esteticismo bocó, atenuar a virulência de uma obra que arde de indignação com nossa realidade social perversa.

Ocorre que, como todo grande artista de esquerda ou de direita, Chico tem uma obra maior que a soma de suas convicções de cidadão. Longe de atenuar qualquer coisa, isso a torna mais poderosa.

Um aspecto curioso da arte, qualquer arte, é que aquilo que faz dela uma aparente frescura a ser contingenciada nas lides pragmáticas do presente é a mesma coisa que a leva a vencer de goleada no final.

COERÊNCIA – A obra fala —canta, no caso— por si. E tudo indica que continuará a fazer isso quando o Rio for alguma cidade submersa (“Futuros Amantes”) e só restarem, da guerra política de hoje, letras nos livros de história.

Essa transcendência é cósmica. Está enraizada numa intimidade excepcional do artista com a língua que o pariu e que ele reconfigura e atualiza, impregnando a cultura, moldando a memória afetiva de gerações. “Luz, quero luz!/ Sei que além das cortinas/ São palcos azuis/ E infinitas cortinas/ Com palcos atrás” (“Vida”).

É isso que garante a derrota esmagadora de qualquer militante que, por antipatia político-partidária, entenda de se voltar contra algo tão maior que ele. Melhor faria se enfrentasse “os batalhões, os alemães e seus canhões” (“João e Maria”), armado apenas de um bodoque da Taurus.

“NÃO SONHO MAIS” – Isso posto, que canções políticas fortes tem o cara! “Vinha nego humilhado/ Vinha morto-vivo/ Vinha flagelado/ De tudo que é lado/ Vinha um bom motivo/ Pra te esfolar.”

Lançada por Elba Ramalho em 1979 —primeiro ano do governo do general Figueiredo, reta final da ditadura–, “Não Sonho Mais” ocupa uma posição especial na obra de Chico.

Mal disfarçada de desabafo passional e tornada palatável pelo humor, a mais violenta de suas canções contra a opressão parece talhada para a selvageria da retórica política atual: “Te rasgamo a carcaça/ Descemo a ripa/ Viramo as tripa/ Comemo os ovo/ Ai, aquele povo/ Pôs-se a cantar”.

50 thoughts on “Prêmio dado ao escritor Chico Buarque tem dimensão política, mas vai muito além dela

  1. “os óculos de grau errado do bolsonarismo só permitem enxergar no artista carioca o inimigo a ser destruído”

    o grau errado do bolsonarismo é desejar que o chico seja coerente … mas chico, como todos sabem, é stalinista, é inútil esperar coerência desse tipo de gente.

  2. Tanta mentira, tanta força bruta, reacionarismo político, cultural e civilizacional, induvidosamente essa carapuça serve aos desgovernos civis dos últimos 33 anos que arruinaram o Brasil e não ao novo governo federal que está no poder apenas 5 meses e alguns dias.

  3. A esquerdinha mundial antenada nas dificuldades que o tal passa aqui, por apoiar a ditadura cubana, invasões de terra e o governo corrupto do PT, uniu-se para levantar um pouco a moral do imoral.

  4. ““Não estamos a premiar o músico. Estamos a premiar o homem da literatura”, disse ao PÚBLICO Manuel Frias Martins, o português que presidiu à reunião do júri que esta terça-feira decidiu atribuir a Chico Buarque o Prémio Camões. “Quando falamos de Chico Buarque esquecemos muitas vezes que estamos perante um escritor de grande qualidade na poesia, um dramaturgo de grande qualidade e, sobretudo um romancista de grande qualidade”, continuou o professor da Faculdade de Letras de Lisboa, sublinhando a unanimidade do júri à volta do criador da Ópera do Malandro e de Circo Místico, o autor dos romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014), letrista e compositor com 49 discos gravados, argumentista e co-argumentista em cinco filmes. “A obra dele é transversal a vários géneros literários e reconhecida em todos os países de língua portuguesa por várias gerações”, sublinhou ainda Frias Martins, minutos depois do fim da reunião do júri na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro.

  5. É por isso que esse país está desse hoje, com “intelectuais” tipo chico, caetano, Boff….

    Já tivemos um Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Lima Barreto, Jorge Amado….. Agora é isso.

  6. Lamentável Ao que parece não temos produzido mais bons escritores. Assim, dá-se o prêmio pra qualquer um. Talvez por ser um apologista da corrupção como método de governo.

    Basta olharmos o nível dos outros ganhadores do prêmio. Que baixaria!

  7. Tem muito babaca com inveja do Chico, pois não sabem nem analisar a premiação, que foi pelo conjunto de sua obra, além de excelente compositor, Chico Buarque é muito bom dramaturgo.
    Os pseudojornalistas que não sabem nada de Literatura devem estar cabisbaixo, só lhes restam puxar o saco da Globo e do Bolsonada para sobreviverem dos seus textos imundos.

  8. Pois sempre escrevo sobre os males incalculáveis das ideologias, pois prescindem dos demais segmentos muito mais importantes que as correntes políticas.

    Não se pode negar a obra de Chico Buarque de Holanda, sob pena de se dar um atestado de imbecil, idiota, de néscio cultural!

    Que se discorde deste compositor, poeta, músico, escritor, politicamente vá lá, agora menosprezar a sua importância à cultura brasileira equivale dizer que a nossa bandeira não tem as cores azul, amarelo, verde e branco.

    Mais:
    Na época da ditadura – prefiro regime de exceção, e não por eufemismo -, Chico foi extraordinário, memorável, conquistando o Brasil com suas músicas inesquecíveis:
    A Banda, Carolina, Roda Viva, Pedro Pedreiro, Januária, Ela Desatinou … e por aí vai!

    Menosprezar a qualidade deste grande artista nacional é o mesmo que desconhecer que pensamos, logo, existimos, conforme disse um francês séculos atrás!

    Ora bolas, por ele ser defensor de Lula, do socialismo, de ser oponente de Bolsonaro, qual é o problema?
    Não estamos vivendo em democracia?
    Os radicais querem anular a importância da obra de Chico porque politicamente adversário, então que seja erradicado do contexto brasileiro atual?!
    E queremos reclamar do PT??!!
    Mas agimos pior que esta sigla de ladrões??!!

    Nessas alturas vou concordar com o meu amigo Lionço, que, em páginas anteriores, mais especificamente no artigo do dr.Béja sobre a Vale, postou:
    – Estou desistindo do Brasil!

    Bah, mas se o povo já é desprezado. mal tratado;
    se a miséria e a pobreza dominam aos poucos a população;
    se a educação é um fiasco em termos comparativos a outros países;
    se a violência ceifa a vida de milhares de pessoas a cada ano;
    se a saúde pública está deteriorada;
    se também vamos considerar a cultura como atrelada à política – Lionço, vou contigo!

    Chico é o cara!

    Politicamente é um bosta, e daí?!
    Os petistas não dizem o mesmo de quem apoia Bolsonaro?
    – Os bolsonions são uns bostas!

    No meio desta merdança que estamos nos caracterizando, Chico é diferente, assim como outros artistas de renome.

    E, para o bem do que ainda resta desta republiqueta, digo que seria muito interessante e salutar que não misturemos as estações, ainda mais a cultura ou do que temos como tal, nessas alturas tão pobre e miserável quanto à situação do povão!

    Chico tá imune dessas questões de somenos importância, dessa nossa política deletéria, desonesta e deplorável!

    • Caro amigo Bendl … sds.

      Desisti MESMO do Brasil … e não é porque meu filho tirou para mim … e virei português KKK kkk KKK também, né???

      Cansei de avisar que está para chegar o 3º castigo avisado por Mamãe de Guarda, Cimbres, Pesqueira, PE, em 1936 … e considero que será outro período Autoritário … e tive um trabalhão para mostrar na VERDADE que há todo um caminho constitucional que pode levar ao Autoritarismo Institucional … não é nada da minha cabeça – coloquei os links!!!

      Tudo por falta de RECONCILIAÇÃO … que está parada na Frente Ampla de Jango, JK e Lacerda … … … chegamais e demais antigos lacerdistas aceitamos a Frente Ampla – também os seguidores de JK a aceitam … … … o problema é que os antigos getulistas, janguistas e brizolistas não aceitam a decisão de Jango de ter assinado junto com JK e Lacerda.

        • A ofensa ao Rosário foi sim reparada … e avisei que sairão as reformas … … … e estão saindo, não???

          Acontece que as reformas não são nada parecidas com as Reformas de Base com que Jango queria mudar o Brasil.

        • E falta evitar o 3º Castigo … que só será evitado se houver RECONCILIAÇÃO … ou seja: se os antigos brizolistas aceitarem o perdão que Jango deu a Lacerda na Frente Ampla … … … sem perdão; virá o CASTIGO!!!

          Um aperto de mão.

          • Caro Marcos … se os brizolistas finalmente aceitarem o perdão que Jango (em nome dele e de Getúlio) deu a Lacerda … é claro que Lacerda também perdoou Getúlio e Jango (ao assinar a Frente Ampla) e perdoou também JK!!!

            Havendo este perdão seria bom a fusão do PTB com o PDT … e os militares também seriam levados a perdoar o Lacerda, que brigou com Castello por este ter apoiado a candidatura de seu afilhado de casamento Negrão de Lima contra Flecha Ribeiro.

          • A função de Satã é ACUSAR … e só o PERDÃO é que liberta!!!

            O Satã é o pai da mentira … e para se ficar na VERDADE tem que haver PERDÃO!!!

            Enquanto não houver perdão … estaremos sob o Poder de Satã – corrupção desenfreada … quase 100.000 mortes por ano … outras por falta de atendimento adequado nos hospitais … outras por acidente de trabalho e de trânsito … … … bom sinal de perdão seria o PDT se unir ao PTB!!!

          • É que Brizola e os brizolistas dizem que Ivete Vargas fez o jogo do Golbery … e a RECONCILIAÇÃO precisa começar entre os trabalhistas … para depois chegar nos militares (visto que Golbery era o GeoPolítico da Revolução) … … … e aí, se poderá apresentar Emenda Constitucional dando fim ao Período Revolucionário!!! !!! !!!

            Abração.

      • Em Portugal, saíram na frente.
        Na Universidade de Lisboa colocaram caixotes cheios de pedras com a placa:
        Para acertar nos ZUCAS…

        Comecou o apedrejamento de brasileiros….

    • JK … Jango … Lacerda … … … morreram!!!

      Tanto os seguidores de JK … quanto os de Lacerda ficaram sem liderança … visto que JK e os militares que o apoiavam foram logo logo cassados … já Lacerda e os seus militares seguidores foram cassados até o AI-5 … … … não sobrou nenhum herdeiro para JK e Lacerda, lembra???

      Já Getúlio e Jango … tiveram seu herdeiro Brizola cassado e exilado – e exilado em vários países!!! vale lembrar do exílio de Brizola em Nova Iorque (que tornou o grande líder americanizado – assim como Carmen Miranda kkk).

      Estando Leonel nos EUA … e estando chegamais no GDP (Grupo de Dinamização Partidária do MDB-RJ) … telefonamos várias vezes para preparar a volta com a Lei da Anistia … … … acontece que paramos de telefonar porque Brizola já queria dar ordens para quem o estava querendo ajudar ao nos mandar falar com o Colagrossi.

      • Os brizolistas também não aceitaram o fato dele ter sido o último revolucionário ao apoiar a continuidade de Figueiredo na Presidência.

        Os brizolistas também não aceitaram o fato do PTB ter ficado com Ivete Vargas … e facilitaram as coisas para o PT; ao criarem o PDT – dividindo o Trabalhismo … … … acontece que Ivete Vargas era tão ou mais prestigiada no PTB quanto Brizola até 1964!!!

      • Os lacerdistas aceitaram a Frente Ampla … tanto que Sandra Cavalcante foi candidata a Governadora pelo PTB-RJ.

        E tem mais … os brizolistas não aceitaram o apoio de Brizola a Collor … e os 5.000 CIACS acabaram não sendo construídos!!! CIACS que na verdade eram como CIEPS!!! !!! !!!

        Sds.

    • Belo texto, até li.
      Não escuto suas músicas com frequência, mais percebo o esmero invejável em que trabalha, como ourives , a língua.
      Seus romances são definitivamente….espantosos.
      Invejo.

  9. “Chico é o cara” – tá certo Bendl. Atacar o Chico por causa de sua visão politica é tenham dó. Carlos Drummond escreveu uma crônica sobre A Banda “”O jeito no momento é ver a banda passar, cantando coisa de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.”

  10. Perfeito, minha querida Carmen Lins!

    Se começarmos com preconceitos em nome da política, definitivamente nos encaminhamos para o fim, e trágico!

    Abração, menina.
    Saúde.

  11. Só li um livro do Chico Buarque, “Budapeste”. Não achei ruim, mas tenho lá minhas dúvidas se seus livros seriam publicados, e tão bem acolhidos, se o autor não se tratasse de uma celebridade. O caso dele, como escritor, é um pouco similar ao do Jô Soares.
    Como compositor ele é talentoso, mas isso pode significar um elastecimento questionável do conceito de literatura, como o Nobel já fez ao premiar Bob Dylan e Winston Churchill.

  12. Seguem os brasileiros que já ganharam o prêmio. Vê-se que, ou estamos sem escritores de peso, ou mudaram-se os critérios.

    1990: João Cabral de Melo Neto (1920-1999) Autor de “Morte e vida severina” (1955), é considerado um dos maiores poetas brasileiros.
    1993: Rachel de Queiroz (1910-2003) A cearense se destacou com o romance “O quinze” (1927), sobre a luta contra a seca.
    1994: Jorge Amado (1911-2001) Famoso no mundo todo por seus romances regionalistas como “Gabriela” e “Tieta”, o baiano foi adaptado várias vezes para o cinema e a televisão.
    1998: Antonio Candido (1918-2017) Nome fundamental no desenvolvimento da USP, foi um dos maiores estudiosos da literatura brasileira.
    2000: Autran Dourado (1926-2012) A obra-prima do mineiro é “Ópera dos mortos” (1967), listado na Coleção de Obras Representativas da Unesco.
    2003: Rubem Fonseca (1925-) A partir de “Os prisioneiros” (1963), o mineiro criado no Rio inicia série de livros de contos que revolucionaram o gênero no Brasil, sendo um pioneiro ao narrar nossa violência urbana.
    2005: Lygia Fagundes Telles (1923-) Paulista autora de contos e romances, como “As meninas” (1973), que retratam a evolução do papel da mulher no Brasil contemporâneo.
    2008: João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) A grande obra do autor baiano é o romance maximalista “Viva o povo brasileiro”.
    2010: Ferreira Gullar (1930-2016) Poeta e crítico de arte maranhense, sua obra mais conhecida é o “Poema sujo” (1976), censurado pela ditadura.
    2012: Dalton Trevisan (1925-) Mestre dos contos sintéticos, o reservado autor ganhou apelido de um de seus livros: “O vampiro de Curitiba” (1964).
    2014: Alberto da Costa e Silva (1931-) Poeta e ensaísta premiado, teve destacada carreira como diplomata.

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