Pressão das redes sociais atrapalha o estudo da cloroquina, diz o chefe da pesquisa nacional

Declarações em redes sociais atrapalham, diz médico do Einstein ...

Dr. Rizzo coordena a pesquisa em 70 hospitais, com 1360 pacientes

Henrique Gomes Batista
O Globo

O maior ensaio médico já feito no país sofre pressão das redes sociais. Essa é a visão do médico Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Hospital Albert Einstein, que coordena a coalizão Covid Brasil, com 70 hospitais e 1.360 pacientes, que estuda o uso da cloroquina e da hidroxicloraquina como meio de combate ao novo coronavírus. Rizzo teme, no entanto, que a fama da substância gere decepção desnecessária se os resultados forem negativos. Ao mesmo tempo, afirma o pesquisador, o grupo está esperançosos de que uma solução possa surgir de pesquisas que estão “fora dos holofotes”.

Podemos ter esperanças com a cloroquina?
Precisamos ver do ponto de vista científico e social. Do ponto de vista científico, a gente não tem nenhum dado claro que aponte para a utilidade da cloroquina no combate ao coronavírus, a gente tem boas indicações. E boas indicações, no momento, é algo bom, pois não existe nenhum tratamento específico. Boa indicação é melhor que nenhuma indicação. Esperamos ter o resultado em breve desta pesquisa que começamos juntos com outros hospitais, em uma irmandade nunca antes vista no Brasil, até de hospitais considerados concorrentes.

E do ponto de vista social? Temos um fenômeno incrível, que é essa história das redes sociais, e isso atrapalha imensamente a ciência. Hoje, por exemplo, eu não conseguiria fazer um estudo ideal, em que eu teria um grupo de pacientes que não tomasse cloroquina, pois nenhum paciente ou parente de paciente vai assinar um documento autorizando que não se use cloroquina, pois criou-se uma fama da cloroquina. Fazer ciência na era das redes sociais, em especial na área de Saúde, dificulta o lado científico. A gente fala que não tem dados, mas daí a pessoa vê milhares de mensagens dizendo que alguém tomou cloroquina e melhorou… E a verdade só vai sair com a pesquisa científica.

Qual é amplitude do trabalho?
A pesquisa testará 630 pacientes com nível moderado da doença, 440 casos graves e 290 de extrema gravidade, somando 1.360 pessoas em 70 hospitais… Essa é a beleza desta situação. Embora ela seja terrível do ponto de vista humanitário, a união dos médicos e pesquisadores é incrível. Há o pessoal de biblioteca, enfermeiras, estatística, gerenciamento. Temos um ensaio único no Brasil, a gente está muito engajado, tenho a confiança de que vamos ter as respostas no tempo certo.

O que podemos esperar desta pesquisa?
Não se pode se ater se a pessoa se curou ou não se curou. Há uma variável que é muito importante: o grande problema que vemos com esta doença é a sobrecarga dos hospitais. Se você consegue mostrar que a droga diminuiu o tempo de internação, isso tem um efeito incrível. Dá espaçamento e permite que o sistema de Saúde responda melhor.

Na sociedade há a expectativa que a cloroquina seja a panaceia, a cura da doença…
As pessoas precisam ter em mente que a hidroxicloroquina não é a única coisa que está sendo pesquisada, temos dezenas de outras frentes que estão até sendo beneficiadas pelo silêncio, por não estarem no holofote. Tenho tentado combater muito essa sensação de que a única coisa que existe é a hidroxicloroquina. Se não der certo, se não for tão bom quanto as pessoas esperam, vai haver uma crise emocional muito grande e isso é desnecessário. Há outras ações que podem ser melhores. A hidroxicloroquina não é a única solução possível.

As pesquisas “sem holofotes” serão melhores?
A pesquisa vai ser melhor se feita com a tranquilidade que o cientista tiver para executá-la. Você fazer pesquisa com um objetivo específico é sempre mais difícil, pois há uma pressão pelo resultado. O importante não é que seja mais fácil, se vai ajudar. Eu tenho certeza que alguma destas coisas vão funcionar, ou funcionarão em colaboração, não me resta dúvida que haverá uma solução para isso.

Há troca de informações entre as pesquisas pelo mundo?
Tem duas maneiras como isso é feito. A primeira é na ligação direta e estamos em ligação direta com diversos pesquisadores do mundo. Poderia citar 50 instituições com as quais a gente está trocando dados. Existe uma outra forma que é a liberação imediata dos dados, e quase todo mundo está fazendo isso. Na hora que você tem dados você deixa disponíveis para todo mundo olhar, antes mesmo de publicar. Os cientistas sérios de todo o mundo estão nessa.

Agora é diferente do que se viu com HIV, Zika, Ebola?
A impressão que eu tenho é que o coronavírus já está sendo mais pesquisado que estes outros vírus, como o HIV, que a velocidade da pesquisa é muito maior, mas também há uma pressão maior pois os números são pandêmicos. Os outros casos, mesmo sendo epidemias importantes e graves, não tinham o mesmo tipo de transmissão e tanta gente envolvida.

13 thoughts on “Pressão das redes sociais atrapalha o estudo da cloroquina, diz o chefe da pesquisa nacional

  1. A Johnson & Johnson e a Barda comprometeram-se com mais de US$ 1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento de vacina contra o coronavírus. A empresa espera começar os estudos clínicos da fase 1 com humanos da possível vacina até setembro de 2020
    – Johnson & Johnson estabelecerá nova capacidade de fabricação de vacinas nos EUA e capacidade adicional fora dos EUA para iniciar a produção em risco e ajudar a garantir o fornecimento global de vacinas

    A Johnson & Johnson anunciou hoje a seleção de uma possível principal vacina contra a COVID-19 a partir de construções nas quais vem trabalhando desde janeiro de 2020: a ampliação significativa da parceria existente entre as empresas farmacêuticas Janssen da Johnson & Johnson e a Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado (BARDA) e a rápida expansão da capacidade de fabricação da empresa, com o objetivo de fornecer suprimento global de mais de um bilhão de doses de vacina.

    A empresa espera começar os estudos clínicos em humanos de sua principal possível vacina, o mais tardar em setembro de 2020, e prevê que os primeiros lotes da vacina contra o COVID-19 possam estar disponíveis para autorização de uso emergencial no início de 2021, um período significativamente acelerado em comparação com o típico processo de desenvolvimento de vacinas.

    Por meio de uma nova parceria histórica, a BARDA, que faz parte do Gabinete do Secretário Assistente de Preparação e Resposta (ASPR) do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, e a Johnson & Johnson juntas se comprometeram com investimentos de mais de US$ 1 bilhão para financiarem a pesquisa da vacina, o desenvolvimento e os estudos clínicos. A Johnson & Johnson usará sua plataforma validada de vacinas e está alocando recursos globalmente, inclusive de pessoal e infraestrutura, conforme necessário, para se concentrar nesses esforços. Separadamente, a BARDA e a empresa disponibilizaram financiamento adicional que permitirá a expansão de seu trabalho em andamento para identificar possíveis tratamentos antivirais contra o novo coronavírus.

    Como parte de seu compromisso, a Johnson & Johnson também está expandindo sua capacidade global de fabricação, inclusive por meio do estabelecimento de nova capacidade de fabricação de vacinas nos EUA e do aumento da capacidade em outros países. A capacidade adicional ajudará na produção rápida e permitirá o fornecimento de mais de um bilhão de doses de vacina segura e eficaz no mundo todo. A empresa planeja iniciar a produção em risco imediatamente e está comprometida em levar ao público uma vacina acessível, sem fins lucrativos, para uso emergencial decorrente da pandemia.

    Alex Gorsky, presidente e diretor executivo da Johnson & Johnson, disse: “O mundo está enfrentando uma crise de saúde pública urgente, e estamos comprometidos em fazer a nossa parte para disponibilizar globalmente a vacina contra o vírus da COVID-19 de forma acessível o mais rápido possível. Por sermos a maior empresa de assistência médica do mundo, sentimos profunda responsabilidade de melhorar a saúde das pessoas no mundo todo diariamente. A Johnson & Johnson está bem posicionada por meio da nossa combinação de conhecimento científico, escala operacional e força financeira para unir nossos recursos em colaboração com outras pessoas para acelerar a luta contra essa pandemia”.

    • “…Fazer ciência na era das redes sociais, em especial na área de Saúde, dificulta o lado científico. A gente fala que não tem dados, mas daí a pessoa vê milhares de mensagens dizendo que alguém tomou cloroquina e melhorou… E a verdade só vai sair com a pesquisa científica.”

      Esse é o grande problema, as pessoas, principalmente em sites abertos aos comentários, começam a encher o espaco com entrevistas onde os entrevistados, em sua maioria médicos, colocam a cloroquina como a salvação.

      Tem que se ter cuidado justamente pelo que falou o doutor. Isso atrapalha.

      No meu modo de ver, falta ética àqueles que dizem que a solução é cloroquina, já que não se tem a comprovação efetiva de sua utilização.

  2. A velha e corrupta imprensa sempre procurando acabar com as redes, que na verdade fazem o mesmo que ela, velha imprensa sempre fez, mas que desta vez, o povo tem a liberdade de se defender.

  3. Tenho a impressão de que muito dificilmente um doente, ou familiar de doente, assinaria um documento recusando deliberadamente algum tipo de medicamento, seja qualquer for. Pessoas doentes querem ser tratadas e curadas, e não servir de cobaias. A natureza humana é assim, embora isso muitas vezes seja esquecido.

  4. Este estudo parece sério e provavelmente trará mais clareza sobre estes medicamentos.
    Porém ele, como cientista, não pode se ater ao mimimi das mídias. Já existem várias pesquisas sobre os uso. Uma delas recente é da Nature, que está neste link:
    https://www.nature.com/articles/s41421-020-0156-0
    Outras duas são do cientista francês Didier Raoult e de cientistas chineses. Nenhuma delas tem o rigor científico que existe para aprovação dentro de todos os protocolos médicos. Isso é extremamente complexo.
    Em maio devem pipocar pelo mundo alguns estudos mais claros.
    Infelizmente, se o resultado for positivo, os negativistas fanáticos do quanto pior melhor vão continuar procurando frases para sabotar.
    Paciência. A comlurb encontra lixo,novo todo dia. E recolhe. Assim é a vida.

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