Presunção ou sacrilégio?

Carlos Chagas

No dia de sua posse como ministra da Cultura, Marta Suplicy ficou entre a presunção e o sacrilégio. Comparou a cúpula do governo que agora integra com a Santíssima Trindade: “Lula é Deus; Dilma é bem avaliada e eu, Marta, tenho o apelo de quem fez”. Sem tirar nem pôr, Pai, Filho e Espírito Santo…

Para a cristandade, trata-se de um mistério a existência de um Deus em três Pessoas, coisa que, com todo o respeito, para aceitar, só deixando a fé atropelar a razão.

Dona Marta extrapolou menos ao comparar o Lula ao Padre Eterno e Dilma a Jesus. Exagerou mais ao apresentar-se como o Espírito Santo. Arrogância igual raras vezes se vê. Bem como desrespeito amplo, geral e irrestrito para com a religião.

Resta aguardar a performance da nova ministra, que programa não apresentou ao ser investida na pasta da Cultura. Sem a menor dúvida, o setor clama por um Espírito Santo capaz de alçar nossa arte, música, pintura, poesia, literatura e história aos patamares a que tem direito, pois cultura o país possui, faltando apenas o governo atender suas necessidades.

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ONDE FOI QUE ERRARAM?

Agora que Fernando Haddad passou José Serra, a pergunta que os tucanos fazem é: onde foi que nós erramos? O ex-governador e ex-prefeito começou ocupando a pole-position, favorito disparado na conquista da prefeitura de São Paulo. Hesitou em aceitar candidatar-se por entender direito seu a candidatura à presidência da República, em 2014. Cedeu, numa espécie de concessão aos tucanos sem outro plano de vôo para a capital estadual. Mas sem abandonar a meta maior, de chegar ao palácio do Planalto. A prefeitura funcionaria como trampolim para a ascensão maior.

Agora, diante da hipótese de não passar para o segundo turno, Serra amarga cruel presságio: derrotado em outubro, perderá as condições de disputar a chefia do Executivo Federal. Terá, senão encerrado sua vida pública, ao menos que recomeçar. Eleger-se deputado federal, já que a vaga solitária de senador pertence, até prova em contrário, a Eduardo Suplicy.

Onde Serra e os tucanos erraram? Salvo engano, ao desconsiderarem o eleitorado paulistano. Ao não lembrarem que o cidadão exige novos postulados e novos programas, mesmo se apresentados por velhos personagens. Como a campanha do ex-ministro limitou-se e ainda se limita à enunciação de promessas desgastadas, sem maiores referências ao grande problema da segurança pública, aí está o resultado…

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AO SABOR DAS ONDAS

Naquela que terá sido a última sessão do Senado antes do longo recesso a encerrar-se apenas no fim de outubro, coube a Roberto Requião o melhor diagnóstico da situação nacional.

Prenunciou o ex-governador do Paraná que as inegáveis conquistas dos governos Lula e Dilma se dissolverão com a rapidez com que o açúcar se dissolve na água caso não seja imediatamente elaborado um programa estratégico de desenvolvimento para o país. Porque, para ele, nos dois mandatos do governo tucano havia um plano nacional. Era pérfido, mas era um plano, envolvendo a doação de patrimônio público, a entrega de nossa economia ao capital estrangeiro, a exportação de matérias primas e a importação dos manufaturados que nossa indústria poderia produzir, a redução de benefícios fiscais e a renúncia do estado brasileiro às suas atribuições.

Requião lembrou o que acontece na Grécia, onde o modelo imposto pela Europa rica só falta ressuscitar a escravidão. O governo Lula, para ele, realizou importantes metas, invejáveis avanços sociais, mas delas ficará pouca coisa caso o Brasil não mude a política econômica, criando um plano nacional de desenvolvimento. Passadas as eleições, seria hora de o Congresso tomar à frente essa tarefa.

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SALVAR A HONRA DO CONGRESSO

Outro orador ocupou a tribuna nessa mesma derradeira sessão do Senado, ontem, quando o tempo já se esgotava e os senadores tomavam o rumo do aeroporto para um amplo recesso remunerado. Foi Pedro Simon, para quem a honra do Congresso precisava ser salva. Referiu-se ao engavetamento dos trabalhos da CPI do Cachoeira, que por acordo entre as lideranças dos principais partidos, foi interrompida sem investigar um episódio a mais do que Polícia Federal já havia investigado.

O senador gaúcho invocou o Código de Ética Parlamentar para criticar as mesas diretoras e as lideranças partidárias como envolvidas numa conspiração vergonhosa para evitar a elucidação de um dos maiores escândalos da vida nacional.

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