Procurador diz que a Lava Jato só resiste por causa da pressão das redes sociais

São Paulo (SP), 29/03//2016, Rodrigo Chemim - Seminário com o Juiz da Lava Jato Sergio Moro.Na foto, promotor Rodrigo Chemim, Foto Edilson Dantas / Agencia O Globo ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***

Na Itália, a corrupção sobreviveu, diz Chemim

Mario Cesar Carvalho
Folha

A Operação Lava Jato é um espelho da Mãos Limpas, investigação realizada na Itália há 25 anos, segundo o procurador Rodrigo Chemim, autor de um livro que compara as duas apurações. Em entrevista, ele diz que a Lava Jato corre riscos, com os projetos de anistia e as discussões no Supremo sobre rever acordos de delação, mas há um elemento em cena que não existia na Itália no passado: redes sociais.*

Por que comparar a Lava Jato com operação italiana que é tida como um fracasso?
O que me atraiu no estudo da Mãos Limpas foi tentar compreender porque ela é considerada um fracasso. Depois de aprofundar a análise, posso dizer que essa pecha não é justa. A operação foi um sucesso em termos de investigação, desvelando e desestruturando um amplo sistema de corrupção e desvio de verbas para os políticos e seus partidos, das mais diferentes colorações ideológicas, alcançando 4.500 pessoas. Descontadas as prescrições e as leis que aboliram crimes, o resultado foi de apenas 5% de absolvição no mérito.

De onde vem então essa noção de fracasso?
Das inúmeras leis posteriores à operação que descriminalizaram condutas, reduziram penas e prazos prescricionais e até anistiaram crimes. Os efeitos da investigação foram neutralizados pela ampla intervenção negativa do Poder Legislativo. Vem daí a sensação de fracasso, pois os políticos entenderam que, mesmo surpreendidos em situações criminosas escandalosas, sempre é possível apagar o risco de efetiva condenação. Isso tudo, somado à falta de investimentos em educação para a cidadania, fazem com que a Itália hoje seja tão corrupta quanto era há 25 anos.

Quais são os pontos em comum entre as investigações?
As semelhanças são surpreendentes e perturbadoras. O dinheiro público desviado na Itália vinha, em parte, da petrolífera estatal italiana, assim como aqui vinha da Petrobras, e em parte das obras superfaturadas com as maiores empreiteiras do país. Lá, como aqui, o dinheiro foi desviado tanto para custear os partidos políticos, lavados em “caixa dois”, quanto para encher os bolsos de parlamentares. As reações dos políticos italianos foram as mesmas dos brasileiros. Os sucessivos primeiros-ministros Bettino Craxi, Silvio Berlusconi e Massimo D’Alema alegaram que eram perseguidos e vítimas de um golpe, argumentando que tudo não passava de criminalização da política. Tacharam os investigadores de estarem agindo motivados por ideologia política contrária.

Há risco de a Lava Jato fracassar como a Mãos Limpas?
O risco é concreto e pode vir tanto pelo Parlamento, quanto pela “liberdade” interpretativa do Judiciário. Já se vê iniciativas que visam minar a atuação de investigadores e do Judiciário, a exemplo da lei de abuso de autoridade. Somam-se a isso iniciativas de aprovar leis de anistia na calada da noite. As recentes manifestações do ministro Gilmar Mendes de rever os termos do acordo de colaboração da JBS, já homologado pelo ministro Edson Fachin, ou de rever a posição do Supremo quanto ao início de execução da pena, também preocupam.

É possível evitar no Brasil as intervenções políticas que fizeram as Mãos Limpas acabar em impunidade?
A vantagem do Brasil em relação à Itália de 25 anos atrás é que hoje temos as redes sociais permitindo uma ampla e rápida mobilização popular de controle social e de reação. O risco maior se dará quando a atenção da mídia diminuir. Na Itália os políticos se aproveitaram dessa lacuna de atenção para promover as mudanças legislativas que os beneficiaram. É preciso estar vigilante ao Congresso, notadamente na reforma do novo Código de Processo Penal que está em curso e que muito pouca atenção é dada pela mídia.

7 thoughts on “Procurador diz que a Lava Jato só resiste por causa da pressão das redes sociais

  1. Bom dia,
    a depender da maioria da população a Operação Lava Jato vai até onde precisa ir.
    A Mãos Limpas se deu em outro contexto. Nunca a população acompanhou tão de perto a política nacional. Muitos políticos conservadores ainda não aceitam que suas ações estão sendo monitoradas. Algumas decisões parecem sair de personagens do início do século passado. Os três poderes exemplificam isso. Gilmar mendes exemplifica isso! Não dá mais para enganar o povo!
    Justificativas inconsistentes como do senador Álvaro Dias exemplificam isso:
    https://www.youtube.com/watch?v=9zmr9QX8Uw8

  2. A Operação Lava-Jato pode demorar mas não é para sempre. Já a política e a corrupção existirão prá sempre. Portanto, o combate à corrupção precisa ser aprimorado, pois o desvio de verba pública sempre vai ocorrer quando houver oportunidade. Essa é uma atitude do Estado que deve ser sempre apoiada pela sociedade. Jamais deve haver arrefecimento no combate à corrupção nem complacência para quem a comete. Quem pagará por isso sempre será a maioria esmagadora da população quando precisar de serviços públicos como educação, segurança e saúde que estão cada dia pior.

  3. Não há qualquer comparação entre “mãos limpas” e “lava jato”.
    La na Itália eram organizações criminosas de muito tempo, com raízes profundas.
    Também naquela época não existia a internet, que é uma ferramenta fundamental para a comunicação
    e que o povo possa acompanhar os acontecimentos.
    Agora aqui são quadrilheiros “bunda mole”, ladrões exclusivamente de dinheiro público e praticamente desorganizados, porque ao menor sinal de perigo, logo abrem o bico.
    A não ser uns mercenários mal acabados do PT que andam quebrando vidraças, outras violências não tem acontecido, ao contrário da Itália, onde até estradas explodiram para matar juízes.
    A nossa bandidagem, embora o volume roubado seja grande, comparado a máfia, é considerada chinelagem, são descuidistas, só roubam o que esta dando sopa.

  4. “É preciso estar vigilante ao Congresso, notadamente na reforma do novo Código de Processo Penal que está em curso e que muito pouca atenção é dada pela mídia.”

    01-Os ladrões sempre governaram com a “midia”.
    02-Esses mesmos ladrões são donos de boa parte da “midia” brasileira.
    03-Se não fosse pela internet, jamais saberiamos dos atuais assaltos aos cofres publicos e jamais as tais “midias” publicariam alguma carta que estivesse em desacordo com a administração desses mesmos bandidos.

  5. 01-Os ladrões sempre governaram com a “midia”.

    Bingo, acertou na mosca , é só ver o que acontece com a Mídia Tucanesca do Efeága-Tucanistão..

  6. Para limpar todo esse lamaçal de corrupção, roubalheira e afins dos Partidecos politicos vai demorar muito
    Calculo mais ou menos um Século de Lava-Jato para começar a melhorar….
    Por falar nisso, na Lava-Jato.
    Um dos desdobramentos da Lava-Jato tem o nome da Operação De Volta aso Trilhos……
    O Ditador-Democrático Bashar al-Ckimin deve tá com os cabelos de pé.
    Aguardamos que a Operação da Polícia Federal bata á porta de um dos maiores assaltantes dos Cofres Públicos do estado de São Paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *