Procurador que denunciou Trabuco explica como o Bradesco corrompia o Carf

Procurador Paiva assinala que Trabuco “não é ingênuo”

Gabriel Mascarenhas
Folha

O procurador Frederico Paiva, um dos responsáveis pela denúncia contra o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco,  e outros dirigentes do banco, afirmou que o executivo tinha pleno conhecimento de que seus subordinados negociavam pagamento de propina a uma organização criminosa e que Trabuco não é “ingênuo”. Paiva argumentou que, embora não haja provas de contatos diretos do presidente do banco com lobistas que atuavam junto ao Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) e à Receita Federal, os diretores do Bradesco não discutiriam processos envolvendo milhões sem a anuência do comandante da instituição.

“Para assumir a presidência do Bradesco, ingênuo Trabuco não é. Se não participava (das tratativas) o tempo todo, ele controlava o que estava acontecendo. A confiança entre presidente e diretores é outro forte indício de autoria”, listou, rechaçando a tese de que ele pode ser sido enganado por seus funcionários.

Outro procurador que assina a petição, Herbert Mesquita foi além: “As coisa se passaram na sua antessala, com seus diretores. Ele esteve presente em certos momentos das reuniões, foi mencionado diretamente pelos interlocutores, então a gente não tem a menor dúvida de que ele sabia”, concluiu

DEZ DENUNCIADOS – No total, dez pessoas foram denunciados, entre elas Trabuco e outro três altos funcionários do banco: Mario da Silveira Teixeira Junior, membro do Conselho de Administração, o diretor vice-presidente, Domingos Figueiredo de Abreu, e diretor-gerente de relações com investidores, Luiz Carlos Angelotti.

Para o Ministério Público e a Polícia Federal, Domingos Abreu, Mario Teixeira Junior e Luiz Carlos Angelotti eram os responsáveis por tratar os interesses do banco com os demais investigados. Eles são suspeitos de terem negociado pagamento de propina para livrar o Bradesco de dívidas ou recuperar créditos com a Receita Federal e o Carf, órgão vinculado ao Ministério da Fazenda.

Segundo os procuradores, a denúncia lista ao menos três frentes de negociação dos suspeitos, mas nenhuma delas chegou a ser concretizada, ou seja, não ocorreu o pagamento de vantagens indevidas. O procurador Herbert Mesquita esclareceu, porém, que a simples negociação de repasses ilícitos já configura crime.

CRIME CONFIGURADO – “O pagamento não é essencial para a configuração do crime, ele existe mesmo com a promessa de pagamento. Estão sendo processados porque prometeram pagar propina a agentes públicos”, afirmou Mesquita.

Ainda de acordo com os investigadores, os suspeitos interromperam todas as tratativas depois que a primeira etapa da Operação Zelotes foi deflagrada, no início do ano passado

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