Profissão repórter, risco permanente, um passo às vezes é fatal

Pedro do Coutto

O risco da profissão de repórter, especialmente dos fotógrafos e cinegrafistas, é enorme. Muito mais alto do que supõem os que conhecem o jornalismo somente através das páginas, da voz e das telas dos jornais e emissoras de rádio e televisão. Difícil calcular, na verdade, para os que se encontram à distância do exercício profissional que não envolve apenas a técnica, mas sobretudo a emoção. Porque sem emoção não se faz jornalismo.
Um repórter, recebe de dentro de si o impulso de ser testemunha dos fatos que correm para levá-los a milhões e milhões de pessoas das quais não
sabem os nomes. Nem precisam: a missão de informar e opinar tem um apelo fortíssimo para os vocacionados. Sempre digo aos jovens que se formam em Comunicação Social que, se não tiverem apelo para se apresentar ao trabalho, devem escolher outra profissão.

O cinegrafista Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, tinha esta vocação e foi fiel a ela e a si mesmo até a manhã de domingo passado. No exercício de sua tarefa, uma bala (de fuzil) o atingiu no peito. Vi, pelo Fantástico da Globo, que conseguiu heroicamente se levantar e caminhar. Mas não encontrou
atendimento rápido em seu esforço. Como todos sabem, morreu ao dar entrada numa unidade da rede estadual.. Por contradição, uma Unidade de Pronto Atendimento.

A operação policial, desencadeada pelo Bope e pelo Batalhão de Choque da PM, voltava-se contra traficantes localizados numa favela do bairro de Santa Cruz. A guerra do Rio continua, ao contrário do que a Secretaria de Segurança costuma acentuar. Tanto continua que os traficantes de Antares (nome da favela) portavam fuzis e metralhadoras. Em certo momento, -o filme da Globo mostrou – a situação ficou difícil até para os policiais.

Primorosa reportagem de O Globo, segunda-feira 7, revelou todos os detalhes da escalada que culminou com a morte de Gelson Domingos. Profissão repórter, cinegrafista, morreu antes do tempo. Os autores da matéria são Elenice Botari, Érica Magni, Leonardo Cozes, Pablo Rebelo, Rafael Caldo, Ronaldo Braga e Waleska Borges. As imagens de Fernando Quevedo, extraídas de fotogramas da TV Globo. Um documento de
tragédia carioca que fica para sempre na história do jornalismo e da repressão ao crime, seja ele organizado ou não.

Esta classificação importa pouco, já que os bandidos portam fuzis de guerra e metralhadoras também. Perigosíssimos. Isso já se sabe. Mas é que o governo Sérgio Cabral destaca a presença no panorama das Unidades de Polícia Pacificadora, que produzem, é inegável, efeitos pontuais positivos. Porém estão longe de significar pelo menos um armistício entre a ordem e a desordem, entre o plano legal e o espaço ilegal ocupado pelo crime e criminosos. Tanto assim que chegam às mãos destes armas peculiares às
forças armadas. Não somente às forças armadas brasileira, mas às forças armadas de diversos países. São importadas e ingressam no Brasil através de contrabando.

Isso de um lado. De outro, entretanto, como conseguem chegar ao topo e becos das favelas? Depois de tantos anos de confronto, os armamentos e as munições da morte já deveriam ter se esgotado. Mas não se esgotam. Só pode haver uma explicação: o restabelecimento que tem sua origem na vista grossa, na corrupção, na conivência, todos estes fatores do interesse direto dos fabricantes e revendedores de assassinatos.

Enquanto um cerco efetivo às peças de reposição não for montado, fixado e
blindado, os confrontos vão permanecer. A guerra urbana está longe de terminar. E sua sequência macabra vai deixando vítimas em seu rastro.

Gelson Domingos, repórter e cinegrafista, tornou-se um símbolo da falllllta de solução que, como um monstro, devora a cidade.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *