Programa de Dilma na TV passa emoo; o de Serra, frieza

Pedro do Coutto

Ao assistir na noite de quinta-feira os programas de Dilma Rousseff e Jos Serra no horrio eleitoral da TV, me veio a certeza de que o primeiro passa emoo aos telespectadores, portanto eleitores, enquanto o segundo transmite uma sensao de frieza e distncia entre o candidato e o povo. Este cotejo de qualidade e mensagem inevitvel, da mesma forma que, nas urnas, no se pode logicamente evitar a definio entre a ex-ministra e o ex-governador.

Mas no estou falando de voto, mas sim de qualidade de imagem, agilidade nas cenas, preciso nos cortes, colocao de fuses, seleo de planos. Tudo como no cinema. A elaborao do marqueteiro Joo Santana muitssimo melhor que a do marqueteiro Luiz Gonzales. Basta assistir aos filmetes para se concluir assim, penso eu. No quero ser o dono da verdade. Por isso peo aos leitores que vejam e comparem. Com iseno, independentemente da posio partidria.

O curta-metragem sobre Dilma Roussef com a personagem interpretada por ela prpria uma obra de comunicao importante. Comea pela infncia, passa dela adolescncia, sobrevoa em tomada rea o local onde esteve presa no tempo da ditadura militar, corta para o presente. Retorna ao passado, quando colhe um depoimento de seu ex-marido e focaliza a filha que tiveram. Projeta uma sequncia oblqua, e a cmera coloca Dilma em primeiro plano para sua mensagem poltica. Rousseff convence interpretando a si mesma. Aproxima-se do objetivo a que se prope: chegar ao voto, chegar ao povo.

Jos Serra no convence em sua interpretao. No que ela no esteja correta. Tampouco que no seja ele, um homem preparado, de cultura econmica e administrativa. Cultura tambm poltica. Mas no toca o emocional. Atua friamente, estabelecendo, sem o sentir, uma distncia entre si e os eleitores. Assim como se estivesse alguns degraus acima numa escada falando para os que se encontram abaixo.

Compreendi ento que Dilma est frente nas pesquisas no somente em funo do apoio de Lula, embora seja este o fator principal. Mas tambm em decorrncia da imagem que lhe proporcionou Joo Santana e a emoo que conseguiu mesclar com as sequncias da produo de TV. Angulou bem a personalidade da candidata, suavizando-a, mas sem descaracteriz-la. Este o ponto difcil para os diretores de cinema e da Rede Globo, cujo padro de qualidade visual inegvel.

A emoo essencial. Tema alis bem colocado por Stanley Kubrick, em “2001, Uma Odisseia No Espao”, com base no livro de Arthur Clark. Um defeito na programado na nave espacial coloca em confronto o piloto e o computador. O primeiro no consegue ultrapassar a barreira do segundo at o momento em que desloca a luta para a emoo. A o computador termina derrotado. Eis a diferena fundamental e total entre o ser humano que ama, detesta, sorri e chora, tem esperana, e o produto ciberntico que no possui nem emoo nem sexo. neutro, gelado, distante, inapelvel, incapaz de corrigir o rumo de si mesmo. Uma pea a servio do ser humano, e no o contrrio como supem muitos.

Falei na frieza de Serra. Pois . A reportagem de Jlia Duailibi e Paula Scinoca, O Estado de So Paulo de 20 de agosto, aborda exatamente esse tema ao entrevistar Roberto Jefferson, do PTB, que est se afastando do tucano exatamente por no conseguir sequer ser recebido por ele. Em So Paulo, onde Serra reside.

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