Projeto sempre em construção, só a cidadania eliminará os privilégios

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 Acílio Lara Resende

Como não tenho a garra de um Antônio Pinheiro, que celebrou 90 anos no último domingo, às vezes entro em desagradável crise de ceticismo e me canso do meu país. Afinal, não sou feito de aço.

Minha última crise se deu quando, recentemente, por telefone, recebi dura espinafração de um parente residente há anos nos Estados Unidos, animado com nossos protestos de rua, embora tardios, como frisou. Aos 50 anos (e com bem menos tempo de casa do que eu), me cobrou, mas, principalmente, da minha geração, a razão de não termos reagido, em tempo hábil, ao processo de aviltamento por que passa a política que se pratica no país faz tempo. Disse ele: “A política aí se tornou um negócio sujo, que atrai, contraditoriamente, na sua grande maioria, os inescrupulosos, mal-intencionados ou despreparados”. Ou seja: nossa política, hoje, é um convite ou um apelo àqueles que não têm compromisso com o país. Que só pensam nos seus próprios interesses.

Pus-me a refletir sobre minha responsabilidade (e da minha geração) quando me correu fazer ao parente, em contra-ataque, algumas perguntas, que podem ser respondidas por qualquer um de nós. Elas poderão, talvez, aplacar nossa ira ou diminuir nossa frustração.

COMPORTAMENTO

Ei-las: você, ao volante, respeita ou não a faixa de pedestre em cruzamentos que não têm semáforo? Ou você, tão logo o bonequinho do semáforo começa a piscar, imprime logo velocidade ao seu possante, ameaçando a vida de terceiros desprovidos de defesa? Você tem o hábito de jogar papel picado ou resto de comida ou qualquer outra coisa pela janela do automóvel? Ou você está entre aqueles que permitem que o cachorrinho urine nas áreas comuns do seu prédio? Você leva o seu estimado cachorrinho à rua ou à praia para que deixe lá os seus excrementos, podendo, inclusive, contaminar crianças indefesas, como disse outro dia o ministro do STF Luiz Roberto Barroso? Ou você se irrita quando um automóvel, à sua frente, dá sinal para virar à esquerda e, o que é pior, você aumenta a velocidade com o intuito de impedir a manobra? Você está entre aqueles que, rotineiramente, ocupam as vagas destinadas, nos estacionamentos dos shoppings, aos paraplégicos e idosos? Ou você, sempre que pode, e diferente do que fez outro dia o jornalista Willian Bonner, se gaba de furar qualquer fila e passar na frente dos outros? Você finge que está dormindo para não ceder o seu lugar, no ônibus, aos mais velhos ou às grávidas? Ou você fala sem parar ao celular enquanto dirige, pondo em risco a vida dos pedestres?

Alguém, que já viajou muito, leitor, poderá lhe dizer que já viu algo igual em países do Primeiro Mundo, mas como exceção, não como regra. As perguntas, intermináveis, podem lhe parecer idiotas ou sem propósito, mas a resposta a todas elas é uma só: somos um povo sem educação e, por isso, sem noção de cidadania. Para nós, tudo é permitido, desde que atenda o nosso interesse. O outro que vá para o inferno! Os grandes crimes não nasceriam desses pequenos malfeitos?

Finalmente, apesar das crises, e apesar de não ser de aço, minha esperança não morre. Agora, por exemplo, ganhou alento após afirmação do antropólogo norte-americano James Holston, em seu livro “Cidadania Insurgente: Disjunções da Democracia e da Modernidade no Brasil”. Segundo Holston, “a cidadania é sempre um projeto em construção, o que dá a cada geração a confiança de poder reconstruí-la”.

Só a cidadania acabará com os privilégios de poucos. Eis aí, caro leitor, nossa única chance! (transcrito de O Tempo)

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One thought on “Projeto sempre em construção, só a cidadania eliminará os privilégios

  1. Senhor Lara Rezende,
    Muito bem colocado quando fala em comportamento. Peguei ônibus duas vezes para à Barra. Tão logo entrei no ônibus levantaram cinco pessoas oferecendo seus lugares. Não quis tirar-lhes do conforto, portanto não aceitei a cortesia. Nota dez para os passageiros desta linha.
    Em matéria de nota, dou zero para o DETRAN de Niterói, e mil parta o do Rio.
    Os motociclistas ocupam a pista nas estradas e dizem que também pagam impostos. Atrapalhando os carros na hora de cortar. Mas nas cidades quando o farol fecha, eles vão cortando os carros. Seria o caso de ocupar a via no meio, parando atrás dos automóveis.

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