Propaganda de cerveja a anttese do esporte

Pedro do Coutto

Extremamente negativa, para a juventude em particular, e para toda populao, de modo geral, a propaganda do consumo de cerveja vinculado ao esporte que, no seu contedo, reflete uma contradio essencial: no tem o menor cabimento vincular-se o consumo de lcool s atividades esportivas, sobretudo porque os atletas, que fazem os anncios, entre eles o tcnico Dunga, evidentemente no podem beber uma gota sequer de cerveja, usque ou aguardente ao longo dos treinamentos e, pior, durante as competies. Nem mesmo vinho, uma bebida de muito menor teor alcolico.

Focalizo o tema, dos mais importantes para a sociedade, motivado por reportagem da jornalista Karina Toledo, publicada na edio de 26 de maio de O Estado de So Paulo. Porm, Elena, minha mulher, antes desse texto, j havia me feito a observao de que negativa e totalmente despropositada a iniciativa de unir-se a imagem do esporte e do xito ao ato de consumir cerveja. Isso porque a cerveja, na realidade, sintetiza o anti-esporte. Para confirmar isso basta se confrontar as competies esportivas com a prtica de beber na porta dos bares e botequins. So situaes absolutamente opostas.

Karina Toledo, que prestou um servio importante escrevendo a reportagem, baseou-se tambm em dados colhidos por pesquisadores da Universidade Federal de So Paulo, UNIFESP. Eles analisaram 420 horas de programao das quatro maiores redes do pas (na frente de todas a Globo, disparado) e encontraram nada menos que 7.359 peas publicitrias. Unidas ao esporte, ao sexo, ao xito, elas contribuem para algo profundamente nocivo que o aumento do consumo. Aumento que parte de uma iluso e que, pelo seu poder de seduo, termina instituindo um hbito. Totalmente negativa esta propaganda.

A psiquiatra Ilana Pinsky, vice-presidente da Associao Brasileira de Estudo do lcool e Outras Drogas, ouvida pela reprter, ressaltou que, logicamente, quanto maior foi a publicidade, maior ser a exposio de jovens ao consumo da cerveja. So necessrias restries a este tipo de publicidade, como a que est em vigor h alguns anos contra o fumo.

No caso do contrato entre a AmBev que detm, creio, 70 por cento do mercado brasileiro e a CBF, que representa a Seleo Brasileira, ainda mais absurda a participao do treinador Dunga apresentando um paralelismo entre a garra e a Brahma. Mas como? Desde quando a Brahma pode ser vinculada ao herosmo e vontade de vencer que envolve e impulsiona o futebol? Desde quando a Brahma representa o escrete de ouro? S na cabea dos que se empenham em ganhar dinheiro sem se importar com as consequncias do que esto veiculando. Esto contribuindo, isso sim, para uma farsa.

Desde quando a forma pode se impor ao contedo? Este aspecto do problema criado pela CBF, e agravado pelo treinador da Seleo, foi igualmente observado por Elena, mesmo antes de mim. A contradio de Dunga, de Ricardo Teixeira, de Fernando Sarney, vice-presidente da CBF, e de craques que aceitaram fazer a publicidade do consumo de lcool, absoluta e total. Pelo caminho que decidiram trilhar, em busca do dinheiro e da exposio da imagem, de forma distante das consequncias nebulosas e danosas, a qualquer momento a AmBev resolve unir a cerveja quebra de recordes esportivos.

No se encontra inclusive longe disso. Pois se, como todos ns desejamos, a Seleo conquistar o hexa campeonato do mundo, estar estabelecido um recorde eterno talvez impossvel de ser ultrapassado. O hexa ser brindado em meio a uma enchente de bebidas douradas, cheias de espuma. O consumo crescer. Os nveis de sade cairo.

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