Prosperidade, religiosidade e apego aos bens

Percival Puggina

O leitor certamente já ouviu dizer que “os países protestantes, nos quais a religião estimula a riqueza, são mais prósperos do que os católicos, onde se exalta o mérito da pobreza”. Duas falácias numa única tese.

Não é verdadeiro que os países católicos sejam mais pobres do que os protestantes, nem que o catolicismo induza à penúria. Se contemplarmos as principais economias mundiais, veremos que os católicos são majoritários, por exemplo, na Itália, França, Canadá, Bélgica, Áustria e Holanda. Veremos, também, que os católicos compõem cerca de 35% da população de países como os EUA e a Alemanha, onde os protestantes formam a maioria.

Veremos, ainda, que na franja asiática – onde há prósperos e miseráveis -, quase não existem católicos ou protestantes e que é absoluto o predomínio muçulmano entre os povos árabes, opulentos ou famintos. Indago, por fim, como se mantém a tese, velha e enganosa, perante contradições tão evidentes, às quais se soma a notória pobreza de países como a Namíbia, a Jamaica e a Nova Guiné, que são protestantes?

Não existe, portanto, simetria entre religiosidade e renda per capita. Mas isso não afeta o irretocável ensinamento – mais moral do que religioso – de que o apego aos bens, com sentido egoísta e isento de responsabilidade, é um equívoco a ser evitado pelas pessoas justas de qualquer crença religiosa.

3 thoughts on “Prosperidade, religiosidade e apego aos bens

  1. Bom artigo. A Espanha andou em crise, li recentemente que está começando a sair da crise. A maioria é católica. Questiono a Holanda, onde a presença dos reformados (presbiterianos) é forte e a Áustria com os luteranos.

    Os Tigres Asiáticos são de maioria budista… sei que tem uma crise por lá …

    Recomendo a leitura de “A Ética Budista e o Espírito Econômico do Japão”, Mario Ricardo Gonçalves, prof. aposentado da USP e monge budista…

  2. Essa falácia serve apenas para consolar indolentes e criar uma cultura que por vias oblíquas execra o catolicismo no âmbito pragmático (ao proclamar censura aos bens materiais), enquanto o enaltece no âmbito sonhático (ao garantir o passe eterno aos despossuídos), criando um paradoxo mimético deletério à sobrevivência física e moral de quem oscila entre seus pólos, sem um rumo definido, calcado na lógica do homem de boa vontade, o varão de Plutarco. Evidentemente, se a natureza humana é feita de terra, ar, fogo e água num arranjo biológico sustentado nos mesmos elementos, que se transformam e retransformam, animada pelo sopro espiritual originário do Pai Eterno, fica apodítico concluir ser a parte material dessa natureza, incindível de seu halo espiritual, compondo o ser humano. Assim, temos a conclusão desse breve silogismo na necessidade de aquisição e conservação de aparato material capaz de suportar as necessidades físicas do organismo humano, com projeção ao futuro (segurança e riqueza suficientes), amparando o sossego psíquico na perspectiva de um devir planejado, para que nesse meio possa desenvolver-se o espírito, o avatar em processo evolutivo, ora preso na gaiola objetiva. Em face disso, o poeta Dante concluiu: “nenhuma felicidade na miséria” (Divina…). Assim, a Santa Madre Igreja não condena quem com trabalho e boa vontade procura cercar-se da necessária segurança material para evoluir e permitir aos seus fazê-lo igualmente, não desdenhando da caridade possível, como fator de progresso espiritual, ao tom dos ensinos do Divino Mestre. Dessarte, nem a honesta aquisição da riqueza necessária desmerece o Homem nem a sucumbência à pobreza o eleva,
    Abraços fraternos.

  3. Edir Macedo construiu a sua superficial e inferior multinacional da fé.

    Qualquer pessoa com um pouco de experiencia sabe que nao existe bençao ou maldiçao neste mundo.

    Educaçao financeira, estrategia e resistencia sao receitas obvias e nao religiosas para a prosperidade na simplicidade.

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