Pseudo-torcedores de futebol: assassinos em potencial à solta

Milton Corrêa da Costa

Extremamente absurdo, covarde e lamentável, o episódio que envolveu ontem, na capital paulista, a agressão de pseudo-torcedores (bandidos, na melhor expressão da palavra) na porta da sede do Palmeiras, no Parque Antártica, ao jogador João Vitor. Um grupo de cerca de 15 vândalos ensandecidos chegaram a lhe chutar o rosto, sofrendo lesão na boca a ponto de ser hospitalizado. Quando chegou ao local, a polícia encontrou pedaços de madeira usados na agressão e nenhum dos bandidos. Os covardes se evadiram após a brutal ação criminosa.

Esta é a ameaça real e concreta que profissionais do futebol e torcedores pacíficos correm o risco, dentro e fora dos estádios, todos à mercê de tais assassinos, que se aproveitam do anonimato proporcionado pelo grupo, para extravasar requintes de sadismo e perversidade.

Normalmente integram as chamadas “torcidas organizadas”. Algumas mais se parecem com facções criminosas. São da mesma estirpe e índole dos que vivem a agredir e discriminar homofóbicos no Brasil. Fora dos estádios, mais  parecem grupos de desordeiros selvagens do que seres civilizados.

Nesta terça-feira, 11/10, foi preso, em Belo Horizonte, um torcedor do Atlético Mineiro,, acusado pela morte de um torcedor cruzeirense em novembro do ano passado. Otávio Fernandes, de 19 anos, foi espancado (pasmem com a brutalidade) até a morte e câmeras de segurança gravaram a agressão em uma avenida da capital mineira. Macalé, como é conhecido o acusado, se entregou e foi encaminhado a um presídio. No total, 12 integrantes da torcida organizada do Atlético foram denunciados pelo crime. Cinco estão presos e seis estão com o mandado de prisão em aberto. Um homem que também responde pelo crime já está preso, por envolvimento em outros delitos.

Em Niterói, Região Metropolitana do Rio, na manhã de domingo, 1º de maio, na localidade do Barreto, antes que a partida decisiva pela Taça Rio, entre Flamengo e Vasco tivesse sequer começado, um conflito entre duas facções dos tradicionais clubes resultou em 10 feridos e 101 presos. Uma das vítimas foi internada em estado grave, com tiro no abdomem. Segundo testemunhas, dois torcedores do Flamengo, em uma motocicleta, se aproximaram de torcedores do Vasco, numa praça, já fazendo disparos de arma de fogo. No mesmo dia, em Barra Mansa, município do sul do Estado do Rio, já nas comemorações da torcida rubro-negra pela conquista do título, um torcedor do Flamengo foi vítima de lesão por arma de fogo. O tiro teria partido de um veículo onde se encontravam dois ocupantes, supostamente vascaínos.

Note-se que não estamos falando de confronto armado entre traficantes, nem entre traficantes e a polícia. Tal fato comprova, portanto, que a arruaça, o vandalismo, a selvageria, o extravasamento gratuito de atos de violência, o banditismo e o desrespeito a qualquer preceito da ordem pública são os grandes propósitos de alguns pseudo-torcedores de futebol, não a paixão e o incentivo sadio ao clube do coração.

A finalidade precípua é a desordem, não torcer com fervor na disputa entre os dois clubes em campo. O que é pior: constata-se que há embates corporais até entre facções de torcidas de um mesmo clube, o que demonstra a insensatez e a idiotice de tais jovens. Muitos deles agem sob o efeito de álcool e drogas.

Absurdo com todas as letras. Comportam-se como verdadeiros valentões e machões – muitos são musculosos e “bombados”- até o instante em que são identificados, presos e processados, em nome da lei e da ordem. Ao serem fotografados ou filmados pela imprensa, de cabeça baixa, mais parecem que acabaram de sair de um culto religioso. Ali acaba toda a valentia.

Trata-se de uma minoria que não representa efetivamente clube nenhum, que se aproveita do anonimato que envolve todo o grupo para enfrentar e agredir violentamente até integrantes da forças policiais (normalmente inferiorizados numericamente) e destruir tudo o que encontram pela frente (vide as lamentáveis cenas do Estádio Couto Pereira, no final do Campeonato Brasileiro de 2009 quando o Coritiba foi rebaixado).

Quando morrem ou são lesionados por ocasião dos conflitos, as acusações são de que tais ‘inocentes anjinhos’ foram vítimas da violência policial. Resta saber se os pais têm conhecimento da atitude indisciplinada e irresponsável de seus filhos da porta pra fora. Depois não adianta dizer que foram surpreendidos.

A realidade é que o mundo presencia, de camarote, a violência no futebol brasileiro, não só entre pseudo-torcedores mas também entre alguns atletas dentro de campo, técnicos e dirigentes que invariavelmente dão mau exemplo de conduta esportiva (vide as cenas de agressão no final da partida entre o Botafogo e o Avaí pela Copa do Brasil este ano). Vergonha com todas as letras. Devemos lembrar que o mundo está com um pé atrás ante a realização da Copa de 2014 com plena segurança no Brasil, ainda que, em princípio, trate-se de um evento internacional e certamente com um público mais diversificado e ordeiro. 

No entanto, precisamos estar suficientemente preparados para que não ocorram desagradáveis surpresas fora e dentro dos estádios. A horda (bando) de assassinos desordeiros por enquanto permance à solta. Neste caso, a cadeia e o rigor da lei são os reais mecanismos de defesa da sociedade.

(Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio)

 
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