Qual a proposta para o Brasil: recolonização ou projeto próprio?

10Leonardo Boff
O Tempo

Há uma indagação que se realiza no Brasil, mas também no exterior, expressa por esta pergunta: qual o destino da sétima economia mundial e qual o futuro de sua incomensurável riqueza de bens naturais? Analistas dos cenários mundiais do talante de Noam Chomsky ou de Jacques Attali nos advertem: a potência imperial norte-americana segue este lema, elaborado nos salões dos estrategistas do Pentágono: “Um só mundo e um só império”. Não se toleram países, em qualquer parte do planeta, que possam pôr em xeque seus interesses globais e sua hegemonia universal. Curiosamente, o papa Francisco propõe: “Um só mundo e um só projeto coletivo”.

No Brasil, esse debate se dá principalmente no campo da macroeconomia: o país se alinhará às estratégias político-social-econômico-ideológicas impostas pelos EUA e, com isso, terá vantagens significativas em todos os campos, mas aceitando ser sócio menor e agregado; ou o Brasil procurará um caminho próprio, consciente de suas vantagens ecológicas, do peso de seu mercado interno com uma população de mais de 200 milhões de pessoas e da criatividade de seu povo.

RECOLONIZAR

Há um propósito dos países centrais, que dispõem de várias formas de poder, especialmente o militar, de recolonizar toda a América Latina para ser uma reserva de bens e serviços naturais. Ela deve servir principalmente aos países ricos, já que em seus territórios quase se esgotaram tais bondades da natureza.

Estimamos que, em um futuro não muito distante, a economia mundial será de base ecológica. Não nos alimentamos de computadores e máquinas, mas de água, grãos e tudo o que a vida humana e a comunidade de vida demandam. Daí a importância de manter a América Latina, especialmente o Brasil, no estágio mais natural possível.

Seu lugar deve ser aquele que foi pensado desde o início da colonização: uma grande empresa colonial que sustenta o projeto dos povos opulentos do Norte para continuarem sua dominação, que vem desde o século XVI.

VALOR ECONÔMICO

Em razão dessa estratégia global, as políticas ambientais dominantes reduzem o sentido da biodiversidade e da natureza a um valor econômico. A tão propalada “economia verde” serve a esse propósito econômico e menos à preservação e ao resgate de áreas devastadas. Mesmo quando isso ocorre, se destina à macroeconomia de acumulação, e não à busca de outro tipo de relação para com a natureza.

O que cabe constatar é o fato de que o Brasil não está só. As experiências recentes dos movimentos populares socioambientais se recusam a assumir simplesmente a dominação da razão econômica, instrumental e utilitarista, que tudo uniformiza. Por todas as partes estão irrompendo outras modalidades de habitar a Terra com base em identidades culturais diferentes.

NOVA CONSCIÊNCIA

Os conhecimentos tradicionais, oprimidos e marginalizados pelo pensamento único técnico-científico, estão ganhando força na medida em que mostram que podemos nos relacionar com a natureza e cuidar do planeta de uma forma mais benevolente e atenciosa.

Exemplo disso é o “bien vivier y convivir” dos andinos, paradigma de um modo de produção de vida em harmonia com o todo, em que funciona a racionalidade cordial e sensível, que enriquece e, ao mesmo tempo, impõe limites à voracidade da fria razão instrumental-analítica.

Trata-se de uma nova compreensão do mundo e da missão do ser humano nele, como seu guardador e cuidador. Oxalá esse seja o caminho a ser trilhado pela humanidade e pelo Brasil.

16 thoughts on “Qual a proposta para o Brasil: recolonização ou projeto próprio?

  1. Esse papo de que a China, a Rússia, a Europa e os EUA não têm mais recursos naturais, só o Brasil que tem, etc., não cola mais. Eles estão é com excesso de produção, falta é comprador. Aqui, nós estamos em recessão, e o que é pior, sem infraestrutura para sair dela. E o agronegócio, que paradoxalmente nos salva, em grande parte é iniciativa deles. Reflita melhor, Boff!

  2. A miopia do Boff é algo imensurável. Continua pensando como o comunista dos anos 60 que só servia para levar borracha, porque mais não era necessário. Quando os comunistas brasileiros vão entender que nós somos os responsáveis pelo Brasil de hoje? Se, tudo está ruim, de uma forma ou de outra, fizemos isto. Afinal, fomos nós que escolhemos o PT como governo e só nós temos e conhecemos os meios da mudança. E os boffs da vida que vão para Cuba bajular os Castros.

  3. Curioso, se na análise você trocar EUA por China faz sentido. Os chineses estão mantendo o Brasil como uma colonia deles, produtora de matérias primas, enquanto nos vendem os manufaturados, em especial as quinquilharias. E este caminho de servidão foi o escolhido por quem? Pelo PT e lula. Os grandes administradores, segundo Boff.

  4. Senhores,

    Estados Unidos… China… Rússia…

    Todos esses estão lutando para conseguir um lugar ao sol, de preferência no pódio mais alto no planeta. Até mesmo a Coréia do Norte e o Irã preferem correr o risco de ser destruídos para terem o direito à independência nuclear e, consequentemente, ao respeito internacional – status conseguido quando a soberania deixa de ser “relativa”, conforme já foi dito na ONU.
    -Cada qual defendendo os seus próprios interesses.
    -Cada qual investindo em tecnologia no próprio país.
    Ora, se os brasileiros estão esperando algum dos líderes desses países governar para essa Jabuticaba, é melhor tirar a presidente da chuva!

    Agora, que tal o Brasil parar de apontar o dedo para o gigolô, parar de acusá-lo pela situação sem-vergonha que escolher para viver, fechar as pernas e levantar da cama?

    -Ajuda externa para nos salvar, nos doar tecnologia e alimento na boquinha?
    Só se for dos ESTRATERRESTRES… Talvez eles consigam salvar um lugar apinhado de gente analfabeta, sem trens, sem rodovias, sem moradia, sem esgoto, sem escola, sem hospitais e, principalmente, SEM VERGONHA, onde as mulheres andam com cinco filhos na barra da saia e mais um no bucho, um lugar onde dá mais manchete fazer o “quadrado de oito” do que o “ensino médio sem embuchar” e traficante anda mais armado do que a polícia -e ainda é considerado “HERÓI GLOBAL”.

    Para salvar o Brasil, com a situação atual, só mesmo TECNOLOGIA EXTRATERRESTRE, pois aqui na terra ainda não foi inventado tal façanha.

  5. Não creio que os americanos pensam da forma como os analistas que Boff expõe nesse artigo em tela, de um mundo e um império somente.
    Se dividirem o planeta com russos e chineses – Oriente é “deles” e, o Ocidente, do Tio Sam, então vejo como crível esta hipótese.
    Digo mais:
    Não há interesse de as nações superpotentes extraírem as riquezas de suas “colônias” ou dos países que não teriam como enfrentá-los militarmente, permitindo que sejam mantidas em seus próprios territórios, porém controlados quanto à forma como aquela nação desperdiça as suas riquezas, conforme fazemos com as nossas, convenhamos, em termos de queimadas, florestas abatidas sem qualquer controle, poluição dos rios e lagos, imundícies nas grandes cidades, os lixões a céu aberto, mais de 80% das casas no Brasil sem esgoto, e não tivemos ainda qualquer intervenção externa por este comportamento criminoso que concedemos à Natureza, nós, e não os outros.
    Evidente que a alienação que nos caracteriza nesta questão do meio ambiente advém de uma educação falha, deprimente, sem qualquer ensino específico no Fundamental, Médio e Superior.
    Não temos uma consciência ecológica, a verdade é esta, então introduzir exemplos de outros povos e que são homogêneos e não miscigenados como somos, a diferença é enorme.
    Ninguém preserva a Natureza melhor que os índios que, no entanto, jamais iriam se desenvolver científica e tecnologicamente, pois usar as riquezas inerentes de uma nação desde que exploradas com seriedade e responsabilidade, teremos progresso e uma ecologia preservada.
    Agora, através ou da convivência íntima com a Natureza ou mediante uma educação que se atenha basicamente em mostrar às novas gerações o cuidado que deverão ter, caso contrário a terra será exaurida, rios secarão, florestas dizimadas e a poluição tomando conta, em cenários típicos de filmes futuristas e apocalípticos.
    Penso que muito antes de criticarmos os outros, deveríamos aprender a fazer a lição de casa, esquecida, abandonada, sem qualquer cobrança pelos “professores” e interesse por parte dos alunos.

  6. Boff deve tomar banho de balde e andar descalço…. o caro deve estar na idade média ainda…. alguém avisa aí que já caímos para a nona economia mundial!

  7. Bendl, assino em baixo do que escrestes, não há retoques em sua lavra, os outros escribas(?), não vale a pena serem lidos, nem comentados. Só criticas gratuitas. Paro por aqui!

  8. Luiz Antônio, meu caro,
    Grato pelo elogio, mas os demais “escribas” não têm a minha paciência, de um velho com um pé na cova!
    Assim, aproveito o que me chega às mãos e olhos para ler com mais profundidade, e tentando compreender o pensamento do autor quando escreveu o texto, e de acordo com o tempo e espaço.
    Boff, com seu espírito mais avançado que os nossos, tem por tendência acreditar onde não vemos mais esperança, então escreve a respeito dessas imaginações que lhe povoam a mente, nem sempre práticas ou factíveis, mas um alento ou aviso sobre o momento atual que vivemos.
    Se os seus pensamentos contém ingredientes políticos perfeitamente detectáveis, que são pró-petistas, retiremos deles estes aspectos e ficamos com aquilo que é útil, que nos serve, advindo de alguém extremamente culto e inteligente, apesar da sua escolha pelo PT e acusar somente os americanos como o mal do mundo, um exagero, indiscutivelmente.
    Um abraço, Luiz Antônio.

  9. O Sr. Boff até parece o filho daquela senhora lavadeira que vendo filho marchando com o passo trocado enquanto que todo o resto do batalhão marchava do outro, disse que o seu filho estava certo e todo o restante, errado. Pois, é ! DÁ-LHE, BOFF !

  10. Caro Bendl, a tua cova, a nossa cova, não vira tão cedo. Tenha fé, acredite! Eu do mesmo modo que você, prefiro mastigar antes de engolir. Quanto a colonização, o grande mal praticado por esssas bandas foi a destruição do Paraguai pela Triplice Aliança, um crime, um genocídio a troco de nada. Na minha fraciscana opinião, a história da america latina teria sido outra.

  11. Luiz Antônio,
    Desde os nosso primórdios sempre fomos ou comandados ou “orientados”, conforme interesses e conveniências das grandes nações.
    À época da Guerra do Paraguai, a nação onde o sol nunca se punha era a Inglaterra, dona de meio mundo, da Índia, de colônias na África, Oriente Médio, Ásia Central … os ingleses dominavam o planeta, e jamais iriam admitir que Solano Lopes forjasse as suas próprias armas, os seus canhões, industrializasse a sua nação, que seria concorrente dos ingleses, algo impensável.
    Ao mesmo tempo, Solano invade o Uruguai, em razão de sua necessidade de expansão, e interessada que este conflito se ampliasse, a Inglaterra financiou a refrega e mandou armamentos para a tal Tríplice Aliança, formada pelo Brasil, Uruguai e Argentina.
    Portanto, de certa forma temos uma tendência a seguir os outros, de obedecer, menos de independência legítima, de buscar nossos interesses e conveniências, que se estenderam até o presente momento, pois continuamos à espera de um salvador da pátria, de um santo milagreiro, como se não acreditássemos em nós mesmos, em nossa capacidade e esforço para sozinhos vencermos as dificuldades que se colocam à nossa frente.
    Mais um abraço.

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