Quando se fala em “a morte e a morte de Bin Laden”, no estilo Jorge Amado, é porque o famoso terrorista pode mesmo ter morrido duas vezes. Em que circunstâncias? Ninguém sabe.

Carlos Newton

A internet é um mundo novo, surpreendente e abissal, onde as informações se depositam, de forma intermitente e disponíveis a quem se dedica a buscá-las. Mas há muita fraude, muita mistificação, é preciso ter cautela ao manusear determinadas informações ou até mesmo gravações, porque podem ter sido forjadas.

Ontem, mesmo, o blog recebeu um comentário de Guilherme Corrêa, sempre atento a todos os detalhes dos assuntos em debate, que indaga o seguinte: Perguntinha ingênua, inócua e inútil? Aonde o velho Bin Laden fazia hemodiálise? Dentro da tal mansão?”. Outro comentarista muito atuante, Paul Kotzenmann, fez a seguinte observação: “Pelas imagens o Bin estava bem fortinho. Devia estar fazendo bastante churrasco. O duro devia ser as hemodialises e seu fígado com hepatite C e essa comilança toda”.

Carlo Germani se manifestou pelo mesmo viés, ao afirmar: “Guilherme Corrêa questionou onde o velho Bin Laden fazia hemodiálise? Pois é, a vigarice de Obama é tamanha que nunca irão perpetuar essa mentira, porque Osama Bin Laden está morto desde dezembro de 2001, de causas naturais (câncer renal e patologias hepáticas)”.

Essa dúvida sobre a hemodiálise também tinha me passado pela cabeça, devido às informações anteriores sobre a gravidade da doença renal, mencionada em documentos da CIA. Onde estaria o aparelho de hemodiálise, essencial para a sobrevivência de Bin Laden? Nem a casa Branca, nem a CIA nem o Exército do Paquistão tocaram no assunto, o que significa que lá não havia aparelho de hemodiálise.

Logo em seguida, recebemos um comentário de José Guilherme Schossland, que mantém um dos maiores arquivos de gravações e documentos importantes existentes na internet. Schossland nos repassava uma entrevista da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, a 18 de dezembro de 2007, na qual ela teria afirmado não só que Osama Bin Laden já havia sido assassinado, como também citava o nome do matador: Omar Sheik.

Concedida após um brutal atentado no Paquistão que matou 158 pessoas, a entrevista traça um retrato impiedoso da política paquistanesa, um país submetido a um ditador militar com apoio da Suprema Corte, situação muito complicada, com atos de terrorismo o tempo solto, sem repressão ou punição.

A entrevista é muito importante, mas a parte que se refere a Osama Bin Laden parece ter sido submetida a uma trucagem, porque Benazir Bhutto fala sobre a morte do terrorista sem a menor ênfase, como se no Paquistão e no resto do mundo todos já soubessem que isso tivesse acontecido. Ela não disse: “Ninguém ainda sabe, mas quero anunciar que o homem mais perseguido do mundo está morto”. Nada disso, apenas mencionou o fato, sem o menor destaque, em meio a uma série de outras considerações sobre atentados e terrorismo.

Detalhe importantíssimo: o entrevistador norte-americano não a interrompeu, perplexo, e indagou: “Mas como? A Sra. está dizendo que Bin Laden foi assassinado?” Nada disso. Ele passou adiante na entrevista, como se Benazir Bhutto tivesse mencionado algo corriqueiro, que já fosse do conhecimento de todos, inclusive dele próprio.

Outro detalhe importantíssimo: nove dias depois dessa entrevista, Benazir Bhutto foi assassinada num atentado a bomba próximo à capital Islamabad, tão violento que matou outras 20 pessoas, pelo menos. E a autoria do atentado foi reivindicada pela Al-Qaeda.

Essa entrevista de Benazir Bhutto nos serve de lição, para encararmos com suspeita determinadas notícias que circulam na internet. Mas continua sem explicação o fato de não existir equipamento de hemodiálise na casa de Bin Laden. É um dado importante, que não pode ser descartado na análise do episódio. Quem sabe se Bin Laden é hoje como o célebre personagem de Jorge Amado, “Quincas Berro D’Água”, aquele que morreu duas vezes? É muito provável que sim. 

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