Que v e no volte…

Carlos Chagas

Faltasse uma evidncia a mais de que o presidente Lula errou ao nomear Mangabeira Unger para ministro de Assuntos Estratgicos, quase dois anos atrs, os ltimos dois dias serviram para essa demonstrao. O gringo com cidadania brasileira pediu demisso. Fosse por divergncias polticas, programticas ou partidrias, tudo bem. Ningum eterno em nenhum ministrio.

O diabo que Mangabeira Unger deixa o governo e o pas porque a Universidade de Harvard assim decidiu. O filsofo de dupla nacionalidade e sotaque americano fez sua opo. Volta para Nova York ofertando, com todo o respeito, imensa banana verde para o pas de seu av. Prefere completar o tempo de professor naquele centro de estudos e reafirmar sua certido de nascimento nos Estados Unidos do que permanecer servindo ao Brasil.

Outros motivos existiram, como o de ter batido de frente com diversos companheiros de ministrio e ter ocupado uma pasta indefinida e desnecessria, daquelas em que o titular opta entre ficar de braos cruzados ou dar bordoadas histrinicas a torto e a direito. Foi responsvel maior pela demisso da competente Marina Silva do ministrio do Meio Ambiente. Sabe-se l porque artes do capeta conseguiu convencer o presidente Lula de que deveria cuidar do programa de desenvolvimento da Amaznia-Sustentvel. Participou de um crime de lesa-ptria ao aceitar que a Funai barrasse a entrada, numa reserva indgena de Roraima, do general encarregado de zelar pela soberania nacional na regio. Simplesmente despediu-se e deu as costas ao militar, quando seu dever seria decretar a demisso e at a priso dos funcionrios responsveis por aquela prtica anti-nacional. Mais tarde, elaborou um plano para a Amaznia integrar-se ao Brasil sugerindo a Medida Provisria que acaba de ser sancionada, entregando vastas glebas da floresta a especuladores autorizados a vend-las em trs anos, para estrangeiros.

Mangabeira Unger tambm confrontou-se com o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, mas no ficou nisso. Intrometeu-se nos assuntos do ministro de Relaes Exteriores, Celso Amorim, imaginando-se um novo chanceler em incurses pelo exterior. Imps ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, um inexeqvel programa estratgico para as Foras Armadas, onde os menores cuidados foram dedicados ao reaparelhamento castrense. Em suma, vinha estilhaando no s valores fundamentais da nacionalidade, mas o pouco que o governo tem de racionalidade.

Agora, resolveu ir embora, atrado por uma aposentadoria em dlares, cuspindo no prato que comeu e no qual j havia cuspido uma primeira vez, ao escrever que o governo Lula era o mais corrupto em toda a nossa Histria e at pregando o impeachment do presidente.

Que v, desta vez, e no volte. No aprendeu nada das lies do av, Octvio Mangabeira, um dos mais legtimos construtores da democracia brasileira, que obrigado a exilar-se nos Estados Unidos aps a Revoluo de 1930, assistiu sua filha casar-se com um americano e gerar essa personalidade dbia, arrogante e sem ptria. Que se cuidem os americanos.

Por que apoio absoluto a Sarney?

L de Trpoli, na Lbia, o presidente Lula voltou a exigir do PT apoio absoluto a Jos Sarney, atual presidente do Senado. Nada a opor ao ex-presidente da Repblica, se conseguir livrar-se das denncias de nepotismo e coronelismo no exerccio de suas funes.

O problema que tem azeitona nessa empada. Fica claro que o Senado entrou em cone de sombra e l permanecer at que elucidadas mil e uma acusaes que o envolvem e, mais do que ele, a instituio a que pertence.

A gente fica pensando porque tanto empenho do Lula na preservao da imagem de um Senado desgastado e posto em frangalhos, a ponto de enquadrar seu prprio partido e conden-lo ao silncio e inao. H quem suponha que repousava na resistncia de boa parte dos senadores a grande barreira erigida diante de propostas e idias estranhas, como a do terceiro mandato ou da prorrogao de todos os mandatos por dois anos.

Um Senado enfraquecido e desfigurado no resistir a coisa nenhuma. Em especial com a bancada do PT acomodada a todos os ucasses do trono. Nada melhor do que dar todo o apoio a Jos Sarney…

Movimento direita ou esquerda?

O PPS, antigo Partido Comunista Brasileiro, aderiu com armas e bagagens candidatura Jos Serra presidncia da Repblica. A indagao se a esquerda fez um movimento direita ou se a direita avanou para a esquerda?

Dizem os cticos que nem uma coisa, nem outra As ideologias que entraram em parafuso, depois da queda do Muro de Berlim e da imploso do neoliberalismo com a recente crise econmica.

De qualquer forma, o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, tenta botar ordem na confuso dizendo que Jos Serra o esquerdista e o Lula, o direitista. Em suas palavras, o governador de So Paulo vai surpreender, se eleito presidente da Repblica, assim como surpreendeu os laboratrios internacionais ao impor a produo, no Brasil, de medicamentos genricos. Os setores elitistas esquecem-se de que Serra foi presidente da Unio Nacional dos Estudantes, exilou-se no Chile aps o golpe de 1964 e discordou, ainda que reservadamente, da poltica neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

No reverso da medalha, acrescenta Roberto Freire, o lder tido como esquerdista, Luiz Incio Lula da Silva, pratica at hoje uma poltica econmica que faz a alegria dos neoliberais e do alto empresariado.

Mesmo reciclados, os ex-comunistas buscam desbastar o cipoal ideolgico que nos confunde. No todos, porque o PC do B permanece atrelado ao governo e os socialistas, descendo de cima do muro, tambm apiam Dilma Rousseff…

Justia a quem merece

Na prxima semana o ex-presidente Itamar Franco ingressa no PPS. J deixou o PMDB e espera, a partir de um ncleo mineiro, contribuir para a abertura de um debate nacional a respeito dos rumos do pas. A poltica do presidente Lula no parece, para o antecessor, o caminho obrigatrio para o desenvolvimento do pas. Retirado em Juiz de Fora nos ltimos tempos, Itamar teve tempo para meditar a respeito do futuro. Reconhece terem ido para o ralo as propostas do seu sucessor, Fernando Henrique, do qual tornou-se frreo crtico. Mas no v sada nos caminhos adotados pelo presidente Lula, que acoplou o assistencialismo aos postulados neoliberais. Do que o Brasil precisa de um projeto nacional, de um programa capaz de seguir na trajetria aberta por Getlio Vargas e seguida por Juscelino Kubitschek. Espera-se com curiosidade o pronunciamento que far o ex-presidente, que apesar de rejeitado pelas elites, deixou o governo com mais de 70 por cento de ndices de aceitao.

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