Quem está no poder, não compra, não vende, não aceita nada

Pedro do Coutto

O título deste artigo reproduz praticamente na íntegra uma frase do ex presidente Artur Bernardes, que governou o Brasil de 1923 a 1927, época do chapéu e da bengala, como dizia Nelson Rodrigues. Sua vida só terminou no final da década de 50, aos quase 90 anos. Me lembro da frase a propósito das matérias publicadas pelo O Estado de São Paulo de terça e da Folha de São Paulo de quarta-feira, sobre a hospedagem em Capri, Riviera italiana, que o advogado Roberto Podval revelou ter pago para o ministro José Dias Tofoli, do Supremo Tribunal Federal. Quanto à passagem, Podval não disse nada. Ele convidou Tofoli para o casamento da filha.

O casamento e a estada foram no Capri Palace Hotel, revelaram os dois jornais. Não faltaram críticas de professores de Direito e advogados, como também não faltou comentário favorável ao autor do convite e ao hóspede por parte do ministro Nelson Jobim.

As declarações de Jobim saíram na Folha de São Paulo de 26, no meio da entrevista ao repórter Fernando Rodrigues. Na qual, inclusive, disse ter votado em José Serra contra Dilma Roussef na sucessão de 2010. Escrevo o artigo na noite de quarta-feira. Pode ser que, quando sair, ele não seja mais ministro da Defesa. Pois na realidade ele partiu para o ataque. Mas esta é outra questão. Corro o risco.

Roberto Podval afirmou a O Estado de São Paulo e à Folha de São Paulo que convidou duzentos amigos e, como são seus amigos, pagou a hospedagem de todos eles. Perfeito. Tem direito a fazer isso. Dirigir às pessoas fraternas convites pagos. Aos amigos de verdade, claro, ele disse os ter. Não iria convidar, certamente, os amigos do depois, aqueles que a partir do instante em que “os amigos de infância” deixam o poder, deixam de enviar presentes, oferecer almoços, não atendem nem telefonemas. Que se pode fazer?

A vida é assim. A natureza humana, em múltiplos casos, é dessa maneira. Mas eu dizia que Podval tem o pleno direito de pagar a hospedagem, e talvez a passagem, para quem quer que seja. Não deve ter contraído dívidas para isso. Até aí tudo bem.

Mas, aceitar tal convite, é outra questão. O ministro José Dias Tofoli não deveria ter aceito. Não tem cabimento. Um homem investido do cargo da relevância de juiz da Corte Suprema não pode consentir em que sua hospedagem seja paga por um advogado de sucesso com atuação inclusive no STF. Poderia ter viajado para a deliciosa cidade italiana, participado da festa, talvez em estilo viscontiano (refiro-me aos ambientes elegantes que caracterizavam os belos filmes de Luchino Visconti), mas às sua próprias custas.

Porque quem exerce poder – me veio à mente a frase de Bernardes – não vende nada, não compra nada, não aceita nada. Eu ouvi dele, em sua casa na Tijuca, Rua Valparaiso, quando na varanda conversava com meu avô, o historiador Pedro do Coutto, que no seu governo e no de Washington Luis, fora diretor geral do Colégio Pedro II. No tradicional Pedro II, eram feitos os exames de cesso às universidades. Naquele tempo não existia o vestibular. O exame era unificado no colégio padrão da época.

Foi no final de 41 ou início de 42, eu tinha oito anos, e tinha acabado de assistir ao Grande Ditador, de Chaplin, no cinema carioca, Praça Saens Pena. Nunca esqueci nem a frase, nem o velho Pedro do Coutto. Principalmente porque Artur Bernardes disse era o comportamento de meu avô. Como diretor geral, devolvia os presentes que  lhe eram enviados por pessoas que com ele não tinham intimidade para isso. Não se compra nada, porque querem cobrar menos do que vale. Não se vende nada, porque querem pagar mais. Não se aceita nada por razões óbvias.

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