Quem manda não ter biografia?

Carlos Chagas

Mais do que os diálogos gravados da família Sarney, acima e  além das ameaças feitas pelo presidente Lula ao Ministério Público –  a semana vai terminando com a farsa da queda dos juros, de 9.25% para 8.75% ao ano.  A gente fica pensando se os detentores do  poder   não se envergonham de encenar farsas como essas  ainda há pouco verificadas.

Se alguém duvidava, não duvida mais de que a família Sarney tinha o Senado como  propriedade particular,  administrado de acordo com seus interesses e seus caprichos. Depois de exonerado um neto do ex-presidente, certamente para galgar outros patamares, foi nomeado o namorado de outra neta, secretamente, para o  quadro de funcionários.   Fora  muitas  outras iniciativas de nepotismo explícito.

Em matéria de inusitados, o presidente Lula não ficou atrás, na  ânsia de defender José Sarney e, de tabela, assegurar o apoio do PMDB para a candidatura Dilma Rousseff. Na posse do novo Procurador-Geral da República, alertou para o fato de que o Congresso poderá mudar a Constituição e  retirar atribuições do Ministério Público,  caso os promotores e procuradores não  levem em consideração a biografia dos investigados e denunciados. Quer dizer, quem tem biografia deve integrar a lista dos privilegiados. Quem não tem, que se dane.

Pior, no entanto, fez o Banco Central, com a conivência do governo inteiro,  ao anunciar mais uma redução na taxa de juros.  Nas aparências, bela iniciativa, capaz de injetar otimismo  na economia, com  meio ponto a menos nos juros. Só que com um detalhe: sem a menor interferência na vida do cidadão comum  ou, muito menos, nenhum  arranhão na farra dos bancos. Porque quem utiliza o cartão de crédito não pagará 8.75% de juros, mas o indecente percentual de 263% ao ano. Um pouquinho menos para os que entram no cheque especial.

Traduzindo: a queda nos juros continua beneficiando apenas  os poderosos, aqueles que celebram altos contratos e lançam-se em  mega-operações duvidosas. O coitado que precisou pagar a operação de um filho ou enfrentar a alta nas mensalidades escolares permanecerá submetido a um dos mais abomináveis assaltos do sistema financeiro. Também, coitado, não tem biografia nem parentes empregados no Senado…

Cuidado com os turcos

Em 1453,  dividia-se a população de Constantinopla, capital do Império Bizantino. Metade sustentava que Deus havia criado primeiro o ovo. A outra metade era partidária da galinha. Para complicar, outra questão transcendental jogava irmãos contra irmãos, em disputas não raro terminadas com sangue: qual seria o sexo dos anjos? Masculino? Feminino? Ou, com todo o respeito, os anjos não tinham  sexo?

Enquanto isso os turcos otomanos,  que há muito sitiavam a cidade,  conseguiram abrir uma brecha nas muralhas e  invadiram.  Milhares de bizantinos  foram passados pela espada. Os que sobraram obrigaram-se a adorar  Alá em vez do Padre Eterno.  Até a Igreja de Santa Sofia virou a mesquita principal, coisa que permanece até hoje.

Por que se conta o  episódio? Porque o Senado transformou-se numa mini-Constantinopla. Discutem os senadores que permaneceram em Brasília durante as férias se o recesso deve ser interrompido ou não, para forçar o afastamento do presidente José Sarney. Enquanto isso, aproxima-se o período de retorno aos trabalhos, previsto para a próxima semana.

Os turcos estão derrubando as muralhas, entenda quem entender…

Só Chavez protesta?

O singular presidente Hugo Chavez prepara nova investida retórica contra a Colômbia, pelo fato daquele país haver permitido aos Estados Unidos implantarem em seu território mais quatro bases militares. Serão “marines” e paraquedistas aos montes, mais mísseis, tanques e toda a parafernália bélica da maior força armada do planeta. Sem falar na recém-criada Quarta Frota Naval patrulhando as costas da América do Sul, pouco inclinada a chegar perto do litoral africano.

Terá o presidente da Venezuela motivos para ficar temeroso, mas a pergunta que se faz é: “e  nós?” Nós somos chefiados pelo “cara”, o presidente mais admirado por Barack Obama, alguém, tão confiável para os gringos  a ponto de servir de exemplo para o resto do mundo.

Só que a Colômbia não faz fronteira apenas com a Venezuela.  Está colada no Brasil em milhares de quilômetros de selva desabitada. E sem esquecer que a Quarta Frota poderá desestimular aventuras pouco claras do coronel Chavez, mas, também, navegar por cima das mais fabulosas reservas de petróleo descobertas no nosso  pré-sal.  Um pouco de atenção não faria mal ao ministro Nelson Jobim, até porque os submarinos a ser construídos na França levarão dez anos para cruzar o Atlântico, enquanto os caças franceses que vamos comprar  não terão autonomia para voar de Paris até a Amazônia…

Desta vez, vai?

Quantas vezes, ao longo deste ano,  Aécio Neves anunciou que começaria a percorrer o país, com ênfase para o Nordeste e o Norte,  detalhando seus planos para  o período   seguinte ao governo Lula?  No mínimo uma dúzia.  Como a caravana ainda não se movimentou, fica a dúvida se, desta vez, o governador mineiro vai  mesmo. Afinal, se as prévias tucanas vierem a realizar-se, o candidato precisará tornar-se conhecido, já que no quesito conhecimento, perde de longe para José Serra.

Sempre haverá um jeito de demonstrar não estar em campanha, mas, apenas, diplomando-se na universidade da cidadania, conhecendo regiões e problemas. A lei eleitoral não parece tão rígida a ponto de impedir o périplo de Aécio. Ou a ministra Dilma Rousseff não percorre todo o território nacional, a pretexto de visitar obras do PAC? O que se torna necessário, para os partidários do neto do dr. Tancredo, é começar já.

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