Quem não quer a reforma política

 Carlos Chagas

Pesquisa do Ibope revela que 85% dos entrevistados querem a reforma política valendo para as eleições do ano que vem. Só que 513 deputados e 82 senadores, com raras exceções, não querem. Ou querem pela metade, isto é, dispõem-se a votar aquilo que, além de não prejudicá-los, possa beneficiá-los.

Exemplo melhor não haverá do que a aprovação, na Câmara, do chamado orçamento impositivo. Traduzindo: Suas Excelências não precisarão mais comparecer de chapéu na mão ao palácio do Planalto a fim de  conseguir a liberação de verbas para suas emendas individuais. A imposição, se o Senado também aprovar o projeto, obrigará o Executivo a simplesmente soltar a grana para satisfazer os desejos parlamentares, seja para obras seja para ajuda na prestação de serviços em seus municípios. Ou também para jogadas eleitorais.

O problema é que hoje, como amanhã, dinheiro não  sobra nos cofres do governo. Pelo contrário,   falta. Evidência disso é a demora com que a presidente Dilma atende os pedidos de deputados e senadores, ainda que nos últimos dias tenha disponibilizado 6 bilhões de reais para as emendas individuais. Fazer o que, se a proposta do orçamento impositivo virar lei, como parece que acontecerá? Tirar recursos de outras destinações. Não faz muito as forças armadas foram garfadas coincidentemente em 6 bilhões de seu orçamento. Sempre será possível cortar gastos com educação, saúde, transportes e combate à violência…

Em termos de reforma política, o Congresso anda a passos de tartaruga, já tendo decidido que nenhuma proposta de vulto valerá para as eleições de 2014. Além disso, questões polêmicas ficarão para nunca. Não se tem notícia dos trabalhos da tal Comissão Especial que funciona na Câmara. No Senado, algumas sugestões foram aprovadas, mas dormem nas gavetas dos deputados, até fazendo supor a existência de coisa combinada: “confiamos em que a Câmara cumprirá o seu dever”, dirão os senadores.

Quanto à pesquisa acima referida, é bom ressaltar: as perguntas aos consultados foram induzidas. Em vez de indagar quais as maiores preocupações do eleitor, ou de procurar saber suas prioridades, perguntaram se o cidadão era contra ou a favor da reforma política. É o mesmo que consultá-lo se acha que o Brasil vencerá ou não a Copa do Mundo do ano que vem…

ÉTICA E MORAL

Recuou o senador Lobão Filho na decisão de não utilizar a palavra  ética no preâmbulo do novo Regimento Interno do Senado, que obrigaria seus companheiros a uma espécie de juramento em favor do óbvio. O jovem representante do Maranhão havia argumentado ser a  ética um predicado individual, podendo existir diversas versões e interpretações a respeito, ou seja, diversas éticas. 

 Enganou-se o senador, felizmente corrigindo a tempo sua escorregadela. Porque a ética é una, indivisível e universal. Podem acontecer novas situações éticas que o tempo vai criando. Até pouco inexistia a ética dos computadores porque não havia computadores. Agora há.

O que varia no tempo e no espaço é a moral, periférica e estabelecida ao sabor dos séculos e da geografia. A moral ocidental, ao menos na teoria, estabelece ser o casal composto de dois indivíduos, de preferência um homem e uma mulher, apesar da legalização do casamento entre homossexuais. Mas se tomarmos um avião, descendo em Riad, na Arábia Saudita, veremos que um árabe poderá estar casado com quantas mulheres possa sustentar, até um máximo de oito.

DESESPERO OU ESTRATÉGIA?

Dividem-se as opiniões a respeito do comentário de José Serra, em Salvador, de que seria bom se Joaquim Barbosa fosse candidato à presidência da República. Estaria o ex-governador de São Paulo pendurando as chuteiras, desistindo de suas pretensões ao palácio do Planalto  e procurando criar problemas para Aécio Neves? Ou olhou mais longe no horizonte, percebendo coisa de que muita gente começa a desconfiar, no caso, a candidatura do presidente do Supremo Tribunal Federal?

EXCRESCÊNCIA

O Senado corrigiu aquilo que o senador Pedro Taques chamou de excrescência, a punição de juízes apenas com a aposentadoria compulsória, quando flagrados e condenados por crimes diversos. A partir de agora, quando sentenciados, os membros do

Judiciário  e do Ministério Público não poderão valer-se da prerrogativa de ir para casa com vencimentos proporcionais ao seu tempo de serviço.   

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6 thoughts on “Quem não quer a reforma política

  1. Ética na política.O Senador, nesta, tem razão. A ética não é atributo que se possa exigir de políticos.
    .
    Sugiro que se leia um livrinho de bolso oferecido em bancas de Jornais e gôndolas de supermercado, de Max Weber, que contém um célebre texto: “A política como vocação”.
    Oferece para pensar coisas assim:

    “:..qualquer atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diferentes e irredutivelmente opostas . A orientação pode ser segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção”;

    “Nenhuma ética pode dizer-nos em que momento e em que medida um objetivo moralmente bom justifica os meios e as consequências moralmente perigosos…A violência é o meio decisivo da política”

  2. Sr. Chagas, analise perfeita, temos a mania de citar a tartaruga com seus passos lentos,como “machistas”, a muito tempo, cito o “cágado”, que se tirar o acento, diz tudo da “politicagem nacional” e dos passos do judiciário!!.
    RUI BARBOSA, atualíssimo,queira DEUS que nosso povo desperte para suas responsabilidades, em 2014, pelo voto semi-democrático (por ser obrigatório.
    É bom lembrar Luther King, …o que preocupa é o silêncio dos bons,acrescento”OMISSÃO”. Nossa geração foi OMISSA, e o resultado aí está: para onde se virar, a corrupção está presente, inclusive em nós, pela omissão!!.

  3. Jornalista Carlos Chagas:

    A sua forma de expressar quem quer e quem não quer a reforma política é um desserviço a informação aos leitores. Na Câmara e no Senados, os que querem e os que não querem tem nome, pois se não nominá-los o público leitor acaba incluindo todos no mesmo. A generalização é uma forma de useira e vezeira da mídia conservadora que quer o parlamento desmoralizado. É necessário honestidade nas informações, principalmente de um jornalista sério como sempre lhe considerei.

    8.8.2013

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