Quem se atreveria no Brasil a ser Bernie Sanders?

Sanders agita os EUA com propostas arrojadas

Sandra Starling
O Tempo

O título, roubei-o de um artigo nos Cadernos ou Boletim da Unisinos. Só que lá o autor faz o repto diretamente ao PT, e eu resolvi estendê-lo a tantos quantos se autodenominam partidos socialistas no Brasil. O postulante à indicação dos democratas nos Estados Unidos, disputando com Hillary Clinton, vem causando frisson entre os jovens no país e até entre alguns velhos. Ele senta a pua no sistema financeiro, propõe educação e atendimento à saúde gratuitos, a adoção de salário mínimo e mais taxação sobre os ricos, além de respeito total ao meio ambiente saudável.

Conheço bem aquele país desde que lá morei, em 1965. Acompanho há muito suas grandezas e sua imensa fraqueza como senhor do mundo em que vivemos. Quase não acredito que alguém se diga disposto a levar a cabo tantas mudanças. Alguém que mora naquele país e que também acompanha a escolha dos candidatos dos dois principais partidos se mostra em dúvida quanto à viabilidade de aplicação dessas iniciativas.

Sanders – um carpinteiro de profissão, atualmente senador por Vermont – segue em frente. Tomara que paguem para vê-lo atuar! E o mais emocionante é que seu oponente mais visível pelo Partido Republicano é um conservador de cepa: Donald Trump, reacionário mesmo, com plataforma mais atrasada que um Jair Bolsonaro. Isso é que é, verdadeiramente, um confronto de ideais antagônicos, e não a farsa Dilma X Aécio.

E NO BRASIL…

Enquanto isso, aqui não se lê nem se vê outra coisa senão os estragos do zika vírus e das sucessivas operações da Polícia Federal, as mais recentes orbitando em torno de Lula – a ponto de insuflar análises que beiram a esquizofrenia. Seriam aquelas que atribuem as investigações a uma perseguição política. Com efeito: nunca se viu tanta coisa enrolada a respeito de alguém em suas ações, repudiadas num dia e reconhecidas como verdadeiras no outro.

Até um ex-ministro tem a cara de pau de dizer que é perfeitamente normal que empreiteiras contribuam com essa ou aquela pessoa. Só se for na casa dele, porque aqui, à minha volta, ainda não vi nenhuma empreiteira contribuir espontaneamente para melhorar a vida de pessoa alguma. Por que, se isso for verdade, elas não trabalham de graça para o “Minha Casa, Minha Vida”?

8 thoughts on “Quem se atreveria no Brasil a ser Bernie Sanders?

  1. ” O SOCIALMENTE DESEJÁVEL ESTÁ CONDICIONADO AO ECONOMICAMENTE POSSÍVEL” , e isso é inapelável. Bernie Sanders, eu não me atreveria a ser, até porque nem mesmo o meu inglês seria igual ao dele. Mas, em 2014, me atrevi a ser o Loriaga Leão, original, um hispano-tupiniquim que se atreveu a elaborar e desenvolver um Projeto Novo e Alternativo de Política e de Nação para o Brasil e o mundo, que, a nosso ver, está ano-luz adiante do Sanders e até mesmo do EUA e da própria Europa-mãe, com nome próprio (RPL-PNBC-DD-ME), endereço certo, começo, meio e fim, entendendo que capitalistas e socialistas têm razão de reclamarem um do outro porque cada um de per si já se revelaram como tragédias perante o mundo, em termos de praticidade, funcionalidade e resultados. Daí, em 2014, face à renúncia desprendida do Senador Randolfe como então candidato a presidente pelo PSOL, abrindo assim caminho à possível novidade, coloquei tudo na bagagem e fui bater na porta do PSOL, em Sampa, em duas das reuniões do PSOL sob o comando do nosso eterno deputado da família, Ivan Valente. Mas no PSOL, infelizmente, fui praticamente ignorado pela direção do partido, que me concedeu apenas dois minutos para me expressar, e daí já era tarde para procurar a outra opção mais próxima que era o PSTU ( que hoje, corajosamente, expressa no nosso slogan: ” QUE SE VAYAN TODO$”. Á época o PSOL, infelizmente, estava totalmente dominado pelo grupo de Luciana Genro que acabou optando pelo papel de linha auxiliar do PT, e assim acabamos todos reféns da polarização PTMDB-agregados versus PSDEMB-agregados por mais 4 anos, que deu no que deu, infelizmente, com a maioria dos eleitores optando não pelas mentiras e meias verdades da Dilma, mas, isto sim, contra as mentiras e meias verdades do Aécio, e, sobretudo, contra o retrocesso, até porque a aversão à volta do demotucanismo consegue ser pior do que a aversão social ao continuísmo da mesmice do ptmdbismo. Todavia, no âmbito do modello podre, com prazo de validade vencido há muito tempo, não basta ser um Loriaga Leão e ter um Projeto Novo e Alternativo de Política e de Nação, vc precisa ter tb uma sigla partidária para submeter o Projeto ao conhecimento, apreciação e votação da população, face ao monopólio partidário-eleitoral sobre as eleições, tornando a democracia partidária restrita ao comando dos partidos, que, ao seu bel prazer, vontade, interesses e vaidades pessoais excluem a iniciativa social independente dos mesmo$. O fulcro da questão reside na “Galinha dos Ovos de Ouro”, que é o contribuinte, que tem que ser tratado a pandelo pelo Estado, e não como escravo do partidarismo-eleitoral e do golpismo-ditatorial, velhaco$, levado à exaustão, dos quais, no Brasil, somos todos vítimas e reféns há 126 anos, dos quais urge nos libertarmos. Neste sentido, o Leão ruge e o tempo urge.

  2. Muito bom o texto da Sandra. Às vezes Pindorama cansa como tema.

    Ela toca em alguns pontos importantes , como por exemplo a feroz e imbecil campanha petista contra a cobertura midiática da Lava-Jato e as investigações sobre o Lula. Eu gostaria de saber em qual lugar do mundo a mídia não publica notícias?

    Quanto as primárias americanas, que tenho acompanhado de perto – tem gosto para tudo! – eu discordo um pouco da articulista no sentido de avaliar que a galera americana está pronta para encarar de frente um de dois novos paradigmas radicais. Podemos estar no limiar de um sistema político ainda não imaginado e pós-neoliberalista. Tea Party ou Occupy Wall Street? Nenhum dos dois. A coisa é pessoal. Name’s Donald ou Bernie.

    Ambos os candidatos têm trabalhado a frustração dos cidadãos, imobilizados por cada vez menos renda , nos degraus do meio e de baixo da escada econômica.Ambos rejeitam os acordos de livre comércio das últimas décadas, incluso o pendente transpacífico, o maior acordo comercial em uma geração.Ambos rejeitam os atuais mecanismos limitativos dos gastos com a Segurança Social e o Medicare e cada um deles tem a sua própria versão de cuidados de saúde para todos, embora a de Trump eu não consiga abstrair.

    Ambos rejeitam o uso dos tais super PACs para arrecadar fundos de campanha e estão convencidos de que os políticos em Washington têm se vendido aos interesses dos poderosos que contribuem com enormes somas para as campanhas políticas.

    Todas essas similitudes ficaram óbvias , dia destes, na Carolina do Sul , quando o anfitrião da MSNBC, pediu a Trump para identificar o candidato que se encaixava na seguinte descrição:
    Abre aspas:

    – é considerado um político estranho por todos os especialistas.

    – está mexendo com a raiva e a frustração reprimidas dos eleitores

    – passa uma mensagem populista.

    – acredita que todos no país devem ter cuidados de saúde.

    Esse candidato, continuou o apresentador:

    – defende que os gestores dos fundos hedge devem pagar impostos mais elevados.

    – está atraindo milhares de pessoas aos seus comícios

    – está trazendo uma grande quantidade de novos eleitores para o processo político

    – não tem o rabo preso a qualquer super-PAC.

    E , finalizou perguntando:

    Quem eu estou descrevendo?

    De pronto , o Trump respondeu:

    Você está descrevendo Donald Trump.

    Na verdade, prosseguiu o âncora , eu estava descrevendo Bernie Sanders.
    Fecha aspas.

    A pegadinha bombou em todos os jornais e noticiários.

    Os dois candidatos não poderiam ser mais opostos pelos vértices ,é verdade.Nas personalidades políticas , na moralidade das soluções propostas ,nas explicações que dão para os EUA estarem onde estão e nos caminhos que apontam para as mudanças.Mas ambos são exatamente isso: MUDANÇA.

    O fato é que na última década formou-se uma maioria de americanos capaz de votar em um progressista com uma mensagem econômica populista e articulada em termos simples.

    Cuidar dos mais velhos , dos menos educados, dos de menor renda , dos nacionalistas é a mensagem de Trump, por quem eu tenho uma insuperável antipatia. Sanders , por sua vez , fala para amaciar os WASPs menos radicais, para os mais jovens, sonha com uma educação universitária gratuita, defende maiores salários para empregos americanos, é pró escolha, apoia a igualdade no casamento , diz a verdade sobre o poder de uma forma honesta – e é real.

    Ambos são eficazes porque tem muita gente revoltada com as elites dos partidos ,especialmente com os tais candidatos genéticos , os da old-breed , das ” famílias” democratas ou republicanas, como a Hillary e o Jeb – já suicidado na disputa – a esposa , e o filho e irmão de líderes do passado.

    Esta agitação anti- establishment vem sendo percebida de forma mais forte desde 2008, mas em 2012 , o Obama a soube administrar. Hoje ela é alimentada , em parte, pela resistente perda de renda das famílias e, em especial, pela revolução da tecnologia de informação.

    Nenhum dos candidatos- nem mesmo os favoritos dos partidos – está fazendo campanha em nome do seu partido. Estão fazendo suas próprias campanhas.O que se vê são as instituições partidárias lutando para sobreviver à internet.

    Embora existam, obviamente, diferenças marcantes entre os partidários de Trump e de Sanders,muitos comungam preocupações semelhantes e são atraídos , no momento , por candidatos com discursos anti-Washington, que não pedem desculpas por ser e pensar como fazem. Mais e mais americanos estão identificando-se menos com a festa americana para se posicionar em contra tudo isto que está aí. Este sentimento anti-político e anti-elite é profundo, tanto no eleitorado de Sanders quanto no de Trump.

    Na minha opinião, se e quando uma versão mais politicamente correta de Trump ou uma versão mais politicamente contundente de Sanders EMERGIR , ela abalará a política americana.

    Estou falando de um candidato com um quê do estilão europeu: tradicionalista – mas muitas vezes secular – nacionalista – mas em favor do aumento das despesas sociais.E quem retrucar que os EUA não são chegados a radicalismos e a reviravoltas , não conhece a história dos cara-pálidas.

  3. O Portão

    Roberto Carlos

    Eu cheguei em frente ao portão
    Meu cachorro me sorriu latindo
    Minhas malas coloquei no chão
    Eu voltei

    Tudo estava igual como era antes
    Quase nada se modificou
    Acho que só eu mesmo mudei
    E voltei

    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei

    Fui abrindo a porta devagar
    Mas deixei a luz entrar primeiro
    Todo o meu passado iluminei
    E entrei

    Meu retrato ainda na parede
    Meio amarelado pelo tempo
    Como a perguntar por onde andei
    E eu falei

    Onde andei não deu para ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei

    Sem saber depois de tanto tempo
    Se havia alguém à minha espera
    Passos indecisos caminhei
    E parei

    Quando vi que dois braços abertos
    Me abraçaram como antigamente
    Tanto quis dizer e não falei
    E chorei

    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei
    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei
    Eu parei em frente ao portão
    Meu cachorro me sorriu latindo

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