Quem tem medo de Virgínia Wolf, de Miriam Leitão, e da verdade?

Pedro do Coutto

O título, evidente, é inspirado na peça famosa de Edward Albee e o texto busca refletir sobre o programa apresentado na noite de quinta-feira passada pela Globo News, que a jornalista Miriam Leitão tornou histórica, a partir de cada vez menos misteriosa se torna a morte do deputado Rubens Paiva nos porões da repressão.

A matéria é monumental, reproduzida no dia seguinte, 2 de março, em reportagem de duas páginas de O Globo, assinada pela mesma Miriam Leitão e por Cláudio Renato. Vai se incorporar à memória nacional pelo impacto que imediatamente causou e pelas consequências que, indiretamente, poderá causar.

Sob este aspecto, principalmente em decorrência das declarações do general Luiz Eduardo Rocha Paiva, na reserva, mas que se opõe à Comissão da Verdade, francamente não sei por quê. O general afirma-se contra a iniciativa que julga unilateralmente maniqueísta, na medida em que não visa focalizar os crimes das guerrilhas e dos guerrilheiros, focando apenas nos militares. Não é fato.

Na Comissão da Verdade, todos poderão falar livremente, defenderem-se e acusarem. Não existe a restrição levantada pelo general. Inclusive, em caso contrário, a Comissão deixaria de ser da Verdade e passaria a se basear somente no relato dos que sofreram torturas. E, como torturados, testemunharam a morte de outras vítimas da prática mais hedionda que existe na face da terra. A luta é uma coisa. A tortura é outra.

Causar dor extrema a quem já se encontra subjugado é de uma covardia mórbida. Sem paralelo, Sobretudo como acontecia em São Paulo – e o filme recente exibido na TV Brasil comprovou – quando empresários contribuíam financeiramente para a degradação de seres humanos ao ponto máximo. Não estou sustentando que os presos fossem inocentes.

O Brasil não pode esquecer nunca quem por intermédio do jornalista Austregésilo de Ataíde, então presidente da ABL, teve a missão de redigir em 1948 a Declaração Universal de Direitos Humanos aprovada pela ONU. A tortura é condenada como a violação das violações. A coisa mais hedionda que há na terra, afirmei. Não sou o autor da frase, embora concorde plenamente com ela.

A frase foi dita por Nelson Rodrigues, em entrevista a Villas-Bôas Correa e Antônio Carbone, logo após a segunda prisão de seu filho também Nelson,(Nelsinho) conhecido hoje por suas longas barbas. Nas Confissões que publicava no Globo, pouco depois da conquista da Copa do Mundo de 70, o genial autor procurava desfocar o tema da tortura nas páginas que escrevia. Colocava nuvens nas teclas.

Mas decidiu sair da sombra quando lhe chegou a notícia que Nelsinho, solto a primeira vez por ordem direta do presidente Médici, voltara a ser capturado. Não foi só autor de Vestido de Noiva o intelectual que sofreu ameaça latente de tortura sobre um filho seu. Aconteceu com outros também. Mas esta é outra questão.

Sob o ângulo político, o essencial é que o general Rocha Paiva colocou em dúvida o fato de a presidente Dilma Rousseff ter sido torturada, como ela própria já revelou publicamente por mais de uma vez. O que está tentando fazer o general? Na entrevista a Mirim Leitão, cabe deslocar o rumo do diálogo. Mas ela não foi nessa. Ficou na verdade. Ninguém deve temê-la: nem a verdade, nem Miriam Leitão, tampouco a peça de Albee que, no cinema, teve Richard Burton e Elizabeth Taylor como intérpretes principais.

Qual o motivo de se pensar de forma diversa? A Lei de Anistia, assinada em 79 por João Figueiredo, produz o esquecimento jurídico dos crimes praticados. Mas para que isso ocorra é preciso que os autores se incluam nesse perfil. Não é legítimo fugir à realidade. A Comissão da Verdade não propõe punir ninguém. Tem como objetivo ético e moral entregar à história o julgamento de seus personagens.

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