Quem vai implantar nova ditadura no Egito: os islamitas ou os militares? Façam suas apostas.

Carlos Newton

A eleição parlamentar mostra que, em termos eleitorais, quem vai mandar no Egito são os islamitas, com a Irmandade Muçulmana em primeiro plano e os radicais salafistas em segundo plano. Unidos, os dois grupos islâmicos têm maioria absoluta mais do que folgada.

Criada em 1920, a Irmandade foi banida em 1954, por seu objetivo de transformar o Egito em um Estado islâmico. Nos últimos anos, armou uma ardilosa estratégia: abandonou a violência e se afastou de movimentos jihadistas (guerra santa islâmica). A estimativa inicial era a de que eles conseguiriam cerca de 20% dos votos nas eleições, mas o Partido Justiça e Liberdade, braço político do movimento muçulmano, obteve quase o dobro, confirmando que o grupo é a maior força política do país.

A estratégia foi mantida nos momentos mais críticos da revolta na Praça Tahrir, pois a Irmandade não liderou passeatas nem impôs seu pensamento. Os protestos foram organizados por jovens de classe média, de jeans e tênis, “ocidentalizados” e moderados, e assim a Irmandade Muçulmana não assustou o Ocidente, que teme o radicalismo islâmico e a união dos povos árabes. Na Primavera Egípcia, a Irmandade se limitou a dar apoio logístico, contendo seus militantes mais radicais.

Com a queda de Hosni Mubarak, a Irmandade agora tem tudo para chegar ao poder, menos o que mais interessa – as armas. O problema é que, após obter a maioria nas eleições para o Parlamento, o movimento político-religioso agora tem de derrotar o regime militar, que, mesmo depois da queda de Hosni Mubarak, controla o processo de transição egípcio e dá sinais de que não sairá tão cedo do cenário político.

Os islamitas e os militares agora se digladiam nos bastidores e pela imprensa, trocando acusações. Um denuncia o outro por pretender impor uma nova ditadura, enquanto a nova Constituição é discutida. A Irmandade Muçulmana ameaça abandonar o grupo criado para debater a nova legislação, alegando que os militares querem impor uma Constituição que garantiria um Estado laico e sem apoio religioso. O texto inicial ainda reduziria o Parlamento a pouco mais que uma entidade de consulta, mantendo o real poder nas mãos do presidente.

Essa disputa vai acabar mal. Não é nem preciso consultar os oráculos. E quem imagina que o Egito vai se transformar numa democracia, podem crer, está incorrendo em grave erro. “Decifra-me ou te devoro” – dizia a Esfinge. E a resposta hoje é clara – ditadura religiosa ou ditadura militar.

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