Querem a Aeronáutica como uma ‘Areonáutica’

Sebastião Nery

Logo que o general Castelo Branco tomou posse na presidência da República, depois do golpe de 64, o deputado Bilac Pinto, udenista mineiro papo amarelo, companheiro de conspiração e amigo íntimo de Castelo, apresentou projeto na Câmara mudando o nome do ministério da Aeronáutica para o da Aviação. Ninguém entendeu.

O Ministério da Aeronáutica foi criado por Getulio em janeiro de 41, em plena Guerra Mundial. O primeiro titular foi o gaúcho Salgado Filho, advogado, professor de literatura clássica no Rio, ministro do Trabalho de 32 a 34 (substituiu Lindolfo Collor, que, jornalista, rompeu com Vargas por causa do empastelamento do “Diário Carioca” em abril de 32) e, a partir de 38, ministro do Superior Tribunal Militar.

Por que mudar o nome? O brigadeiro Eduardo Gomes, símbolo da Aeronáutica e então ministro, vetou em silêncio, o projeto foi arquivado e ninguém mais falou no assunto. Mas contou a Prudente de Morais Neto.

Bilac Pinto, candidato “in pectore” de Castelo a seu sucessor, quis apenas fazer um favor fonoaudiológico ao general-presidente. Castelo, cearense de Mecejana, com problemas de dicção, não conseguia dizer Aeronáutica. Só “Areonáutica”. Bilac, amante do bem-dizer, quis ajudar a Aeronáutica em terra. Na boca.

No caso da concorrência dos novos caças, que se arrasta há 14 anos, continuam fazendo pouco da Aeronáutica, e agora dona Dilma resolveu colocar a Boeing de novo na parada.

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DEMISSÃO GERAL

Esta é uma história ainda mais antiga, de 1919, e de repente atual. O presidente Rodrigues Alves, eleito para um segundo mandato, morreu sem assumir, como Tancredo Neves. O vice Delfim Moreira ficou seis meses no governo, até novas eleições. Mas também estava doente. Meio doidinho. O governo fazia tudo para disfarçar sua crescente esquizofrenia.

Quem na verdade governava, como um primeiro-ministro da chamada “Regência Republicana”, que José Dirceu quis ser no começo do governo Lula, era o ministro da Viação e Obras Públicas, Afranio de Melo Franco, pai de Virgilio e Afonso Arinos de Melo Franco, seu contemporâneo de Minas, amigo e conselheiro de toda hora. Um dia, chamou Afrânio:

– Compadre, preciso demitir o prefeito do Rio. Tenho horror a ele.

– Está bem. Mas não deve demitir assim. Ficaria agressivo. Convoque uma reunião do ministério, como prefeito ele comparecerá, todos nós pediremos demissão e o senhor aceita a dele.

Na reunião, Delfim Moreira estava indócil. Não olhava para mais ninguém. Fixou os olhos no prefeito e não bateu pestana, duro, lá na cabeceira da mesa. Os ministros se levantavam um a um, diziam algumas palavras, pediam a demissão e se sentavam. Delfim Moreira não dizia nada, os olhos vidrados no prefeito. Quando o prefeito se levantou e disse “Senhor Presidente”, Delfim Moreira deu um salto na cadeira com o dedo estirado:

– Aceito! Aceito! Aceito!

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