Querem destruir o Maracanã. De novo.

 Não há mais negros no Maracanã

Bernardo Mello Franco (Folha)

LONDRES – O maior arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, foi derrotado no concurso que escolheu o projeto do Maracanã. Ele dizia que a decisão foi justa: o desenho vencedor era mesmo imbatível.

O pai de Brasília reconhecia a perfeição do anel de concreto, da longa marquise sobre a torcida e da acústica do Mário Filho, que ecoava o grito da arquibancada para os ouvidos de cada jogador em campo.

Este templo, o mais sagrado do futebol, não existe mais. Foi destruído pelo governo do Rio, que ignorou a lei de tombamento e o demoliu com aval de burocratas do Iphan.

O novo estádio construído no lugar do Mário Filho é mais funcional, segundo quem já o visitou, mas perdeu as características que faziam seu antecessor ser diferente de todos os outros.

Faça uma busca por fotos do estádio olímpico de Kiev, reaberto em 2011. Transformaram o palco do milésimo gol de Pelé, dos dribles de Garrincha e dos 333 gols de Zico numa cópia de arena da Ucrânia.

IMITANDO OS UCRANIANOS

Agora, as empresas que venceram o leilão do estádio ameaçam destruir o Maracanã de novo. O presidente do consórcio que venceu a licitação do estádio, João Borba, anunciou que o torcedor não poderá mais torcer como antes. Terá que imitar, talvez, os ucranianos.

Bandeiras e tambores serão proibidos, e ninguém poderá assistir aos jogos em pé ou sem camisa, mesmo sob o sol de 40 graus. “Fui no final de semana às finais do tênis em Wimbledon e, no convite, estava escrito que não é recomendável ir com determinada roupa”, disse Borba, transbordando de deslumbramento numa entrevista ao jornal “O Globo”.

Eu também estava em Wimbledon, cobrindo a partida para a Folha. Posso afirmar que não há comparação possível entre o ambiente grã-fino da quadra central e a tradição democrática do Maracanã, onde ricos e pobres sempre tiveram espaço para apoiar seu time de coração.

Por sinal, os ingressos da final no aristocrático All England Lawn Tennis and Croquet custaram o equivalente a R$ 445 nas bilheterias oficiais. É isso que espera o torcedor carioca, que pagou com seus impostos a obra de mais de R$ 1 bilhão do novo estádio?

A CHARANGA DO ARY

Se gostassem de futebol, os administradores do Maracanã deveriam conhecer a história da Charanga do Flamengo, a primeira torcida organizada do Brasil, batizada por Ary Barroso e fundada em 1942. A banda resiste heroicamente até hoje, preservada por rubro-negros que testemunharam os primeiros jogos do estádio. Se o veto aos tambores for mantido, a Charanga vai virar pó como o velho Mário Filho.

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3 thoughts on “Querem destruir o Maracanã. De novo.

  1. Que a “doação” do Maracanã, pelo nosso(?) Governador do Rio de Janeiro foi absurda, ficou óbvio, e tem que ser revista. Que os novos “donos” do Maracanã estão exagerando, com preços de ingressos, refrigerantes, cerveja, etc, também é óbvio, mas, não posso discordar que assistir a um jogo com uma bandeira na sua frente ou com um bandeirão, que aberto ninguém enxerga nada, ou com um monte de gente assistindo o jogo inteiro de pé, obrigando-nos a também fazer o mesmo, além de uma “charanga” ou algumas pessoas tocando bumbo o tempo inteiro e na maioria das vezes sem ritmo, é chato.

  2. A moda agora será acompanhar a Segunda Divisão do Campeonato Fluminense, “Ex-carioca”!
    Sou torcedor do America e nunca me senti mais feliz em poder pegar um trem “funcionando” e ir torcer para o Mecão em qualquer campo do RJ. A animação é grande, em voltar ao alçapão da rua Bariri, ao simpático Madureira na Edgar Romero, a quentíssima Moça Bonita do querido alvi-rubro, Bangu. Uma sensação de liberdade me incentiva. Vamos poder batucar, gritar, torcer.
    Reencontrar aqueles americanos que ainda não morreram ou não desistiram, será ótimo. Mulatos, negros, brancos e juntos torcendo, bebendo uma cerva gelada de qualquer marca, comer aquele churrasquinho de gato, traçando uma cachaça da boa. Gritar até explodir: –Juiz ladrão!
    Aquela camisa vermelha bailando no gramado quase verde. Aquela que inspirou o nosso grito de sangue. Aquela tão perseguida politicamente pela sua cor, pura imbecilidade.
    Vou tirar de letra, qualquer obstáculo de percurso para chegar aos estádios. Vamos debochar do Sr. Joseph Goebbels Blater. Juntar as torcidas e gritar: – Aqui não! É liberdade na segunda divisão!!!
    Antes, vou passar no cemitério São João Batista, para ver se não venderam o mausoléu da família. Só faltava essa: — Meu pai lá enterrado, tinha orgulho em falar que foi seu tio (o prefeito) que construiu o Maraca, agora destruído, e eu em Botafogo, perguntando se alguém achou os ossos do velho… Espero que tenhamos décadas de passeatas! Américaaaaaaaaaa!!!!!

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