Querem sacrificar o patriarca

Carlos Chagas

Com todo o respeito, mas certas famílias, ou melhor, partes de certas famílias, deveriam ter vergonha de suas atitudes quando, para safar-se, exigem o sacrifício  de seu patriarca.   Falamos de uma ala da família Sarney que há dias freqüenta anonimamente  os jornais,  informando estar o senador no limite de sua resistência,  prestes a aceitar o conselho para licenciar-se ou renunciar. Na verdade, querem tirar José Sarney de cena para proteger-se, imaginando que seu afastamento fará cessar as investigações e as sucessivas denúncias de lambanças por eles praticadas. Falta-lhes pudor, importando-lhes menos ou nada o fato de que se afastar-se, o presidente do Senado estará comandando  seu enterro político.

Até ontem Sarney resistia, disposto a enfrentar as acusações jogadas sobre seus ombros. Importa menos saber se ele  orquestrava a transformação da coisa pública em propriedade privada, no Maranhão, ou se algum de seus filhos agia por conta própria, escorado no nome do pai. Tanto faz, porque o dever de todos seria respaldá-lo numa de suas piores horas. Jamais empurrá-lo para o cadafalso. Ou se o preço para saírem de cena for  vê-lo humilhado.  O drama faz lembrar, em parte, o Rei Lear, de Shakespeare, a que ainda esta semana referia-se   a ministra Marina Silva,  em artigo assinado.

É claro que a família sofre e  preocupa-se  com a imagem e até a  saúde de Sarney, mas usá-lo pretendendo livrar-se das primeiras páginas e das acusações será, no mínimo, crueldade. Covardia. Vale repetir, mesmo se for verdadeiro o envolvimento do ex-presidente da República em muitas  práticas que tem caracterizado a ação de clãs incrustados na vida política nacional.

Sobre a abominável nota do PMDB

Custa acreditar que o deputado Michel Temer tenha assinado a recente nota do PMDB onde, a pretexto de defender José Sarney, o partido tenta sacrificar dois de seus  senadores,  Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos. O texto estaria mais para Renan Calheiros e Eliseu Padilha, pois sugere que os representantes do Rio Grande do Sul e de Pernambuco deixem seus quadros por sustentarem  o afastamento do  presidente  do Senado. Afinal, que absurdo  é esse pregado pelo partido outrora responsável pela volta do país à democracia?

Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos foram execrados pelos caciques do PMDB quando, na realidade, a recíproca é que deveria ser verdadeira. Há muito tempo isolados na bancada do Senado, sem ser indicados para compor comissões técnicas ou CPIs, por que não teriam, ambos, o direito de discordar da maioria?

O PMDB lembra o PT de outros tempos e até dos tempos atuais, onde quem não se enquadra, se humilha e se curva,  deve ser expulso. Nos idos de 1985, três companheiros-deputados foram guilhotinados porque votaram em Tancredo Neves para presidente da República.  Não faz muito Heloísa Helena foi punida. Pois a moda pegou e agora é o partido do dr. Ulysses que veste o execrável figurino.

Vale acreditar na Justiça?

Representando “O Estado de S. Paulo”, o advogado Manoel Alceu Affonso Ferreira deu entrada esta semana com recurso junto ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal, visando acabar com a censura prévia naquele matutino, estabelecida por liminar do desembargador Dácio Vieira. O meretíssimo acatou pedido de Fernando Sarney para não ter mais publicadas as acusações a que responde, sob o pretexto de correr sob segredo de Justiça o processo contra ele, resultante de investigações da  Polícia Federal.

Além de a Constituição preceituar ampla liberdade de imprensa, acresce que Dácio Vieira deveria ter-se dado por impedido, dadas suas relações inequívocas com a família Sarney.

Trata-se de uma decisão crucial a ser tomada pelo Tribunal de Justiça da capital federal, daquelas que traçarão  o futuro da liberdade e a validade da Constituição.

Manoel Alceu tem experiência nessas questões. Nos anos de chumbo, defendeu este repórter em dois processos abertos pela ditadura, com base na Lei de Segurança Nacional.  Um por estar,  este que vos escreve,  indispondo o povo com as autoridades constituídas, em função de reportagem denunciando seqüestro e tortura de um suposto adversário do regime.  Outro por criar alarma social com  divulgação da invasão, por tropa armada, da Universidade de Brasília, com depredações e violência contra professores e alunos. Um bujão de mosquitos de febre amarela teria sido quebrado e a Procuradoria Geral da República  entendeu que multidões desesperadas corriam pela Avenida W-3,  fugindo dos insetos.        O advogado ganhou os dois, no Superior Tribunal Militar.

Aposentados garfados?

O  reinício dos trabalhos do Congresso, esta semana, faz lembrar a obrigação de deputados e senadores de apreciarem veto do presidente Lula a projeto de lei estendendo a todos os aposentados o reajuste dado àqueles que recebem o salário mínimo. Porque desde os tempos do sociólogo que se estabeleceu o execrável fator previdenciário, determinando a redução gradativa dos aumentos devidos a quem parou de trabalhar.  Derrubado o veto, restabelece-se a justiça.   Mantido, abre-se o caminho para que em poucos anos todos os aposentados estejam nivelados por baixo, recebendo apenas o salário mínimo.

O governo conta com  maioria na Câmara e no Senado para a perpetuação desse horror, mas a pergunta que se faz é se os representantes do povo, e dos aposentados, aceitarão disputar as  eleições do ano que vem com nome e imagem divulgados pela televisão, dando conta de seus votos.

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