“Quero sair, fugir para muito longe de mim”, dizia o poeta Abgard Renault

Resultado de imagem para abgar renaultPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), no poema “Balada Quase Metafísica”, implora a Deus que tenha pena dele.

BALADA QUASE METAFÍSICA
Abgard Renault

Eu estou assim
absolutamente irremediável
por dentro e por fora, acordado ou dormindo
na Duração, no Tempo e no Espaço.

Eu sou assim:
sem cômodo comigo, sem pouso, sem arranjo aqui dentro.
Quero sair, fugir para muito longe de mim.
Todas as portas e janelas estão irrevogavelmente trancadas
na Duração, no Tempo e no Espaço.

Que é que eu vou fazer?
Não fica bem, assim sem mais nem menos, falecer.
Queria rezar, mas eu sou isto, meu Deus!,
e de minha reza, se reza fosse,
não ouvirias uma só palavra.

Tem pena, uma pena bem doída de mim,
meu Deus, e ouve para sempre esta oração,
e ampara isto que sou eu
na Duração, no Tempo e no Espaço.

4 thoughts on ““Quero sair, fugir para muito longe de mim”, dizia o poeta Abgard Renault

  1. Que lindos versos:
    “Quero sair, fugir para muito longe de mim.
    Todas as portas e janelas estão irrevogavelmente trancadas” Não é possivel. Ninguém escapa de si mesmo, de seus medos . Não se pode ficar sozinho para sonhar, ´porque somos todos escravos de nossa alma. Realmente, muito bonito.

  2. Carlos Drummond e Abgar Renault

    “Abgar Renault

    “O Carlos eu conheci de uma maneira muito curiosa. Foi em frente ao cinema Odeon, que era também na rua da Bahia. Eu estava esperando a segunda sessão e o Carlos aproximou-se de mim e me disse: ‘ O senhor é o Abgar não é?. Eu disse: ‘Sou eu mesmo, por quê’. Ele falou: ‘Eu gosto muito das suas coisas’. Eu fiquei muito preso naquilo. Eu sabia que o Carlos era um nome muito importante, mas não tinha lido nada dele ainda. Ali nós fizemos uma relação muito numerosa, muito boa… Mas não gostava de alguns poemas, depois publicados em Alguma poesia, nos quais ele carregava contra a poesia antiga, clássica. Mas eu não me lembro de nenhuma desavença com ele. Uma vez eu lhe escrevi comentando um poema seu sobre Belo Horizonte – a meu ver exagerado -, e ele me respondeu de forma bastante contrariada. Ele sempre foi muito intransigente. Achava-o difícl. Mas nunca tivemos nenhuma desavença.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *