Questão Palestina: um vôo de 1840 anos sobre as páginas de história.

Pedro do Coutto

No palco da ONU, cuja sessão 2011 foi aberta pela presidente Dilma Rousseff, retoma-se mais uma vez, 1840 anos depois, a questão que divide o Estado de Israel, criado em 1948, e o Estado Palestino ainda não constituído até hoje desde o conflito que explodiu nas areias do deserto pouco após a crucificação de Cristo. Banhou e continua banhando de sangue o Oriente Médio.

Por que digo 1840 anos? Porque foi no ano de 171 DC que o imperador romano Adriano conseguiu destruir a resistência e expulsar os judeus da Terra Santa. Tentativas de retorno não faltaram. Antes da criação de Israel, em 1947, quando o chanceler brasileiro Oswaldo Aranha bateu o martelo e terminou com o domínio inglês na Palestina, a mais recente ocorreu em 1912, já no século 20, quando o primeiro ministro inglês, James Balfour, propôs a entrega das terras para seu uso e ocupação.

Mas a guerra de 1914-1918 interrompeu  a investida diplomática. Destroçado o nazismo, terminada a segunda guerra mundial, em 1945, o tema voltou à ordem do dia. Foi aprovada a criação do estado de Israel, implantado no ano seguinte, 1948, e decretado o fim do protetorado britânico.

Entretanto, a decisão anunciada pelo dirigente maior da ONU, Oswaldo Aranha, não foi singular. Foi dupla. Não só o Estado de Israel renascia. Ressurgia também o Estado Palestino. Mas este não se concretizou porque as nações árabes desencadearam uma guerra contra Telaviv, então capital israelense. Israel saiu vitorioso e o tema se complicou. O dramático impasse prolongou-se até hoje, passando pelas guerras de 52, a invasão do Suez em 56 por tropas inglesas, francesas e israelenses, o conflito de 67, que durou seis dias após Gamal Abdel Nasser anunciar contra Israel, uma invasão alucinada. Os árabes, tendo o Egito à frente, foram totalmente derrotados.

Israel ocupou territórios inimigos e retomou, quase dois mil anos depois, a cidade de Jerusalém com mais de 3 mil de existência e onde se localiza o Muro das Lamentações. Na ocasião, 1967, o governo da primeira ministra Golda Meir proclamou Jerusalém capital do Estado judaico.

Brilhante reportagem de Álvaro Fagundes e Verena Fornetti, enviados da Folha de São Paulo a Nova Iorque, edição de terça-feira 20, informou ampla e detidamente todos os lances do novo esforço no sentido de transformar a Autoridade Nacional em país com assento na ONU. A tentativa, que tem o apoio do Brasil, parece entretanto impossível, pois os Estados Unidos são contra e têm poder de veto no Conselho de Segurança. China e Rússia apóiam. Inglaterra e França ainda não se definiram. Mas que adianta ganhar no voto se os vitoriosos vão perder no veto? Nada. Fica escrito, dessa forma, mais um capítulo num complicado confronto milenar.

O governo Barack Obama tem um argumento: os palestinos, hoje, dividem-se entre o governo Mahmoud Abas e o domínio do Hamas, que,  com apoio do Hesbolah, comanda a faixa de Gaza, cenário de famoso romance de Aldous Huxley. O Hamas parte para o ataque a Israel e assim escreve com sangue na fronteira do ódio mais uma etapa de sua luta que, sem dúvida, é heróica, já que enfrenta um inimigo militarmente poderosíssimo. O mar que banha a Galileia, citado no Velho e novo Testamento, através da passagem do tempo, tornou-se ainda mais vermelho.

O Hamas e o Hesbolah, armados pela indústria da morte, como também Israel, enfrentam-se entre si e o adversário histórico comum.Não parece haver solução à vista. Inclusive porque radicais não são apenas as duas facções palestinas. São também correntes israelenses que se opõem à paz e querem, como seus radicais inimigos, uma guerra de extermínio. Os diálogos efetivados  até hoje fracassaram, buscando uma falsa glória feita de sangue. Mas de sangue renasce a esperança. E política é esperança. Sempre.

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