Rachada, diretoria do Banco Central entra em crise

DECO BANCILLON
Correio Braziliense

Os embates entre a presidente Dilma Rousseff e seus adversários, na tentativa de conseguir mais quatro anos de mandato, provocaram estragos dentro do governo. Ainda que parcialmente superada, a polêmica criada pelo PT em torno da proposta de independência do Banco Central, defendida pela candidata derrotada Marina Silva (PSB), bateu fundo na instituição responsável pelo controle da inflação, revoltou os servidores da casa e rachou o Comitê de Política Monetária (Copom).

Parte da atual diretoria já avisou ao presidente do BC, Alexandre Tombini, que não ficará no cargo caso Dilma seja reeleita em 26 de outubro próximo. Na prática, isso significa um pedido antecipado de demissão, pois, em caso de vitória de Aécio Neves (PSDB), a troca será automática, a exemplo do que ocorreu no início dos governos Fernando Henrique Cardoso, em 1994, e Lula, em 2003.

Ao longo de duas semanas, o Correio conversou com ex-diretores do BC, economistas de grandes bancos de investimentos nacionais e estrangeiros e técnicos próximos aos atuais diretores da autoridade monetária. Boa parte deles assegurou que Carlos Hamilton Araújo, o primeiro funcionário de carreira do Banco Central a assumir a Diretoria de Política Econômica, será o primeiro a deixar o cargo. “Hamilton já está com um pé fora do BC”, disse um integrante da equipe econômica. “E a saída pode ocorrer antes mesmo de 2015.”

OUTROS QUE SAEM

Também estariam fora do BC em um eventual segundo mandato de Dilma os diretores Altamir Lopes, de Administração, e Sidnei Corrêa Marques, de Organização do Sistema Financeiro, também funcionários de carreira da instituição. Procurada, a autoridade monetária assegurou que as informações são “inverídicas” e que todos os integrantes do comando do banco “estão empenhados em executar suas funções da melhor forma possível até o fim do ano”.

Apesar dos desmentidos oficiais, o clima de tensão é grande no BC. O ex-presidente Lula já deixou claro a Dilma que ela deveria mudar toda a diretoria do banco em um novo mandato. A candidata petista, no entanto, manifestou o desejo de permanecer com parte do atual time da autoridade monetária, em especial, seu presidente. Dilma construiu, ao longo dos últimos quatro anos, uma boa relação com Tombini, a quem considera competente e, sobretudo, fiel.

A divisão ocorre num momento delicado para a instituição. A despeito de o Copom ter elevado a taxa básica de juros (Selic) para 11% ao ano e de a economia estar no atoleiro, a inflação não para de aumentar. Nos 12 meses terminados em setembro, a carestia atingiu 6,75%, o maior nível em três anos. Diante desse resultado, os especialistas voltaram a cogitar a possibilidade de o BC promover um novo arrocho monetário. Visão sustentada pelas recentes declarações de Carlos Hamilton, de que o Copom agiria “tempestivamente” caso o custo de vida desse sinais de elevação.

CONSTRANGIMENTO

Tal afirmação, por sinal, provocou constrangimento entre os auxiliares de Dilma, por ter ocorrido dias antes de os brasileiros depositarem os votos nas urnas. Ao longo de toda a campanha de primeiro turno, a candidata petista havia sido acusada por seus oponentes de ter sido leniente com a inflação. A declaração de Hamilton, portanto, era um sinal claro de que o governo estava perdendo a batalha para manter a carestia dentro da meta.

Na mesma oportunidade, Hamilton disse ser favorável à autonomia técnica do Banco Central, o que forçou Dilma a se pronunciar. “Temos visões diferentes”, afirmou a presidente. No ano passado, ela e o diretor do BC também divergiram. Em viagem à África do Sul, a petista disse ser contra um aumento mais forte dos juros para controlar a inflação, por sacrificar o crescimento econômico. Dias depois, o Copom começou a elevar a Selic, que estava no menor nível da história: 7,25% ao ano.

ASSUNTO RECORRENTE

No mercado financeiro, as informações sobre o racha no BC se tornaram assunto recorrente. “Mas creio que seja tarde para abandonar o barco. Se a presidente Dilma for reeleita, todos devem ficar para corrigir os erros que levaram a inflação a ficar, insistentemente, no teto da meta”, afirmou um ex-integrante do Copom. “Ficando ou não com Dilma, a atual diretoria do BC carregará sobre os ombros o fato de ter contribuído para destruir a credibilidade da política monetária”, ressaltou outro ex-dirigente da instituição. “Não é à toa que, pelo menos até 2016, as projeções de inflação estão muito acima do centro da meta, de 4,5%. O BC perdeu a capacidade de coordenar as expectativas”, emendou.

Os defensores do time comandado por Tombini asseguram que o BC foi traído pela promessa não cumprida do Ministério da Fazenda de fazer um ajuste fiscal consistente. Ao ter encampado o discurso de redução dos gastos públicos, o Copom reduziu a taxa Selic para 7,25% ao ano, o menor nível da história, fato que provocou euforia no Planalto. Mas a façanha durou apenas seis meses, e os juros voltaram a subir, atingindo 11%, superando os 10,75% recebidos por Dilma em 2011.

“O resumo dessa história é a seguinte: haja ou não haja divergência entre os diretores do BC, o fato é que, em termos de reputação, a instituição está rachada. E levará tempo para reconstruí-la”, admite um técnico muito próximo do comando da autoridade monetária.

4 thoughts on “Rachada, diretoria do Banco Central entra em crise

  1. Na verdade o BACEN foi forçado a praticar uma política restritiva cujo corpo técnico inteiro rejeita. E isto, justamente porque o governo abandonou a austeridade da política fiscal e acelerou os gastos correntes para a manutenção dos seus miseráveis e inoperantes 39 ministérios.

    O alerta é do FMI: o gasto dos governos tem de ser aumentado como verdadeira política anticíclica, mas, não os gastos correntes (de manutenção da máquina pública), e sim, os gastos com investimentos em infraestruturas, ou seja, gastos de capitais.

    O governo do PT inundou a economia com excesso de liquidez, em gastos correntes, e forçou o Banco Central a adotar a política de aumento da selic para enxugar o excesso de liquidez da praça provocado pelo próprio governo corrupto, corruptor e desqualificado.

    É esse fato que tem gerado o descontentamento do corpo técnico do BACEN.

    • O Banco Central está sendo forçado a induzir a economia do país para a estagflação.

      E isto, diferentemente do que afirma o Mantega, é que tem restringido a economia nacional. E não fatores externos como afirma o mentiroso ministro.

      Aliás, cretino e despudorado, já que foi previamente defenestrado de seu cargo pela gerente “incompetenta”.

  2. O jornalista do Correio Braziliense, mandou bem, informando sob vários aspectos, válidos para ciência dos leitores do blog, e que mostra o racha no Banco Central, ainda bem antes do 2º turno da eleição.
    Artigo que foi bem simplificado pelo comentário do senhor Wagner Pires, com merecido cascudo no ministro Mantega…

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