Racismo não tem vacina, é indefensável e (provou-se agora) também danoso à economia

Kamala Harris - EUA

Senadora Kamala Harris dá um novo colorido à  campanha

João Gabriel de Lima
Estadão

“Não existe vacina contra o racismo.” A frase marcou o discurso da senadora Kamala Harris, candidata a vice-presidente dos Estados Unidos – e foi o ponto alto da convenção do Partido Democrata.

Indianos, vietnamitas, mexicanos, etíopes, chineses, árabes. “Provavelmente, todos americanos” – comentou um amigo ao observar os passantes, depois do almoço numa cafeteria judaico-libanesa em Palo Alto, na Califórnia, no ano passado. A cafeteria, Oren’s Hummus, fica a um Uber de distância da universidade Berkeley, onde os pais de Kamala Harris – ela indiana, ele jamaicano – se conheceram. E a uma caminhada de dez minutos da universidade Stanford, onde Donald, o pai da senadora, deu aula.

As cinco empresas de tecnologia mais valiosas do mundo estão na costa oeste dos Estados Unidos. Três na Califórnia: Apple, Google e Facebook. Não é por acaso.

ÁREA DE INOVAÇÃO – A região onde Kamala Harris nasceu tem uma cultura propícia à inovação. Universidades fervilhantes. Vida cultural intensa. Acesso ao capital de risco. Competição saudável. E – o mais importante – gente do mundo inteiro, de todos os gêneros e etnias. “O racismo é ruim para a economia. As empresas prosperam quando contratam os trabalhadores mais talentosos e produtivos, sem nenhum tipo de discriminação”, diz o professor Rodrigo Soares, nosso personagem da semana.

Ele é orientador e autor de artigos, em parceria com Guilherme Hirata, sobre racismo no mundo do trabalho. Um deles mostra como a discriminação no Brasil é menor em mercados mais vibrantes e expostos à concorrência.

Soares e Hirata confirmaram a hipótese ao estudar as regiões mais afetadas pela abertura comercial no governo Collor. O racismo não tem vacina, é indefensável do ponto de vista moral – e, provou-se agora, danoso para a economia.

LUTA CONTRA A CHAGA – O trabalho para superar tal chaga, como disse Kamala Harris, é duro e constante. Para combater um problema é necessário entendê-lo. A bibliografia sobre o assunto no Brasil começa a se encorpar, com livros como Racismo Estrutural, de Sílvio Almeida, e Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

Na academia, estudos como o de Soares e Hirata ajudam a iluminar o tema. Em outro paper, Fernando Monteiro, Marcos Rangel e Ricardo Madeira mostram que a discriminação começa muito antes do mercado de trabalho, no próprio sistema educacional.

Na política, o fenômeno do populismo – que desafia as democracias liberais – propaga uma noção torta de patriotismo que estimula o racismo. A Hungria para os húngaros (e não os imigrantes), a Índia para os indianos (mas só os que professam a religião hinduísta, excluindo os muçulmanos) – e assim sucessivamente.

EXISTE ANTÍDOTO – As democracias liberais, no entanto, já estão encontrando o antídoto. É aquilo que o cientista político Yascha Mounk chama de “patriotismo inclusivo”. Em seu livro O Povo Contra a Democracia, Mounk cita o famoso discurso de campanha de Emmanuel Macron, em abril de 2017.

“Eu vejo à minha frente Marselha, uma cidade francesa. Eu vejo os armênios. Eu vejo os argelinos. Os italianos. Os marroquinos, os tunisianos, os senegaleses. Eu vejo, na verdade, os marselheses. Eu vejo os franceses!”

A live multicultural do Partido Democrata – e, em especial, o discurso de Kamala Harris – seguiu o mesmo tom de Macron. Não chega a ser uma vacina contra o racismo. Pode ser, no entanto, um caminho a seguir.

7 thoughts on “Racismo não tem vacina, é indefensável e (provou-se agora) também danoso à economia

  1. Na prática o que os Democratas pregam é o racismo do bem, criar cotas raciais, confrontar os “homens brancos”, tornar as minorias inimputáveis e claro gastar muito dinheiro do público e concentrar poder na mão do estado.

  2. PRECONCEITO: UMA LEITURA ANÔMALAS DAS EXCEÇÕES

    Em 2007, a Rede BBC divulgou uma pesquisa, assinalando que, na dúvida, a Justiça condena o feio. Depois, o mesma conclusão foi segundada aqui, no Brasil – se não me falha a cachola – pelo Conselho Nacional de Justiça, repetindo o mesmo resultado. Para não parecer feio, feio, na enquete, está implicitamente vinculado a negro. Isso nos remete ao médico italiano Cesare Lombroso, o pai da antropometria criminal; cujo estudo pretendia preconizar parâmetros, e com eles poder identificar indivíduos criminosos, confrontando-os aos traços faciais do suspeito .
    Oriundo da memória oral, diziam os mais idosos: quando aqui chegaram os franceses, loiros de olhos azuis, os índios os raptavam, a fim de que os gauleses cruzassem com as cunhantaís. Daquelas “trepadas forçadas” nasceram os sararás. Tamanho foi o arrebatamento dos indígenas, quando viram os franceses, que logo os batizaram de: Mairy ou Mairys (filhos de Mair, divindade da crendice indigena). De Mair teria originado Marabá- PA (homem de Mair); e Mairiporã-SP (água linda de Maíra).
    Se forem confirmados esses relatos, repassados por verbalismo, então, há de se convir que o racismo não seja uma segregação ensinada ou orquestrada. Aqueles selvagens tinham algum referencial biotípico, anterior, que os inspirassem a escolher os franceses para “melhorar” o pedigree da maloca? O que nos resta é cogitar que no cérebro existem arquétipos que se aprazem com determinadas impressões organolépticas: cores amenas e inspiradoras; som suave e eufônico; superfícies macias e simétricas etc. Tudo que se encaixe na leitura da estesia ou senso do belo.
    Coincidentemente, não muito distante donde nasci, há duas comunidades grandes: ambas Ponta Branca. Nelas, a maioria dos habitantes possui tez clara, olhos alaranjados, verdes ou azuis; cabelos de tom amarelado…. Meu avô materno me falou que esta safra de galegos também foi germinada pelos malditos franceses. Em 1927, eles implantaram aqui, nas cercanias, uma usina de beneficiamento de babaçu, comandada pelo engenheiro, Henry Charboneille. Isso foi o bastante para as nativas dos lugarejos circunjacentes endoidarem: com nove meses, solteiras e casadas começaram a pintar o arco-íris da região com outros matizes, frutos da nova miscigenação..
    De volta ao tema, restrito ao nosso país, para acentuar mais o conceito reinante no inconsciente coletivo, de que o negro é menos inteligente, os “esquerdopatas” inventaram um presente de grego: cotas para negros, em universidades e concursos públicos. A partir do momento que a comunidade negra aceitou essa “muleta intelectual”, ela admitiu que tem alguma desvantagem mesmo! A exemplo do jogo de bilhar, quem aceita receber uma bola na lona, está-se autoconfessando inferior. No inglês, esse tipo de “mãozinha” se chama handicap. Aliás, handicap já não pertence mais exclusivamente ao inglês; já foi adotado como holicismo.
    Por fim, a melhor maneira de sufocar as diferenças é fingir que elas não existem. Imitando o SUS: este mandou retirar dos hospitais públicos uma lista ostensiva de enfermidades, às quais os afrodescendentes são biologicamente mais vulneráveis.
    PS: como os dialetos indígenas eram ágrafos, encontrei Mair grafado de várias formas.

    • Prezado Paulo III,

      O texto teu, acima, denomino como imprescindível ao conhecimento, ao mesmo tempo que enaltece sobremaneira o blog onde foi postado, a TI.

      Brilhante, simplesmente.

      Agradeço pelo comentário tão importante que publicaste, isento política e socialmente, pois do interesse de todos quanto à miscigenação brasileira, uma sopa de etnias, que deveria ser muito mais estudada sobre a constituição do cidadão dessa terra.

      Por outro lado, aplaudo a tua conclusão porque minha também, do erro crasso do negro em aceitar as cotas raciais, COMPROVANDO, mesmo que sub-repticiamente, que se trata de um ser humano inferior aos brancos, algo tão inominável quanto absurdo.

      Mas, sabemos que esta medida teve apenas o caráter eleitoreiro do PT, menos compensar as dificuldades econômicas que os negros, ASSIM COMO AS DEMAIS ETNIAS DESSE PAÍS, se defrontam diariamente.

      Quisesse o PT melhorar as condições de ensino PARA O POVO, QUE SOMOS TODOS NÓS, deveria ter investido os bilhões que roubou na Educação, oferecendo oportunidades iguais às crianças brasileiras, e não ocasionando a segregação e enfatizando as diferenças da cor da pele.

      Parabéns pelas informações preciosas que, mediante o que afirma o célebre historiador gaúcho, Peninha, essa matéria não cai no ENEM!

      Abraço.
      Saúde e paz.
      Te cuida!

      • Nós, aqui, estávamos a cobrar apenas um lampejo da sua aura; você reentrou, em nossa atmosfera, derramando um esplendor vulcânico. Porquanto, O CASO não é de OCASO!

  3. “A cafeteria, (…), fica a um Uber de distância…

    Comparação mais ridícula. Como se um automóvel – peço desculpas de antemão, mas me parece que um Uber é isso – não pudesse percorrer quaisquer distâncias, seja só a de sair da garagem ou atravessar uma cidade ou um país de uma ponta a outra.

    Seria mais sensato dizer que estamos todos nós, cada vez mais – a não ser, é claro, gente como o articulista e seus patrões da grande mídia – a um Uber de distância do arrocho econômico, do subemprego e do precariado sem perspectivas para o futuro. E duvido muito que Joe Biden e Kamala Harris e os outros democratas de Wall Street e do Silicon Valley venham nos salvar disso.

    Tenho a impressão de que quem mais gosta do Uber é quem nunca precisou trabalhar nele. Falar sobre as maravilhas da “gig economy”, de Uber, Lift, Amazon, etc., é fácil, quando se está fora dessas coisas e se desfruta de um emprego confortável na mídia. Talvez o João Gabriel pudesse trocar o Estadão pelo volante de um Uber, para avaliar realmente as distâncias deste mundo.

  4. A última vez que me empolguei com algum candidato presidencial americano foi com Barack Obama. Mas a persistência, sob seu governo, da agenda militarista americana e dos abusos contra os direitos civis que já vinham em expansão desde a era George W. Bush, assim como a continuação e agravamento da crescente desigualdade econômica estadunidense, me desiludiram de vez. Quem esperava um segundo New Deal sob Obama teve uma decepção. Na verdade, republicanos e democratas são ruins para os americanos que não fazem parte do um por cento, e para o resto do mundo, fazendo o conteúdo de seus falatórios pouca diferença real.

    O que os democratas americanos tem a oferecer é apenas palavrório edificante. Mas a realidade não sofrerá mudanças significativas, continuarão as guerras no Oriente Médio, e os esforços para minar os governos de outros países e “libertar” povos de governos que não agradem aos americanos. Os governos que agradem não precisarão ser mudados, independente de como tratem a população. E continuarão as ameaças e pressões sobre Rússia, China, Irã, sob as mais variadas versões, de defender minorias, punir seus líderes malvados, etc. E nos EUA as minorias e migrantes seguirão levando a mesma vida dura de sempre, mas sempre poderão dirigir Uber, talvez alugando um carro. Mas para a gente bem que vai no banco de trás dos veículos de aplicativo, tudo estará ótimo.

    • Uma retificação:
      ” E continuarão as ameaças e pressões sobre Rússia, China, Irã, sob as mais variadas versões, sob argumentos de defender minorias, punir seus líderes malvados, etc.”

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