Razões do ócio

Carlos Chagas

Para a presidente Dilma, derrotas parlamentares do governo fazem parte do sistema democrático. Ela fez bem ao despedir o líder do governo no Senado, Romero Jucá, que colaborou para a rejeição de um indicado palaciano para a ANTT, mas não há explicação para que tenha protelado a votação da Lei da Copa e do Código Florestal. Se é da essência da democracia ganhar ou perder projetos, o natural teria sido a entrada dos dois textos na pauta da Câmara. O resultado é a paralisação dos trabalhos no Congresso, já que no Senado medidas provisórias estão trancando as votações.

Parte da responsabilidade cabe também a deputados e senadores, pelo jeito pouco interessados em melhorar a lamentável imagem de que dispõem junto à opinião pública. Bem que as mesas das duas casas poderiam agilizar os trabalhos, mesmo sem ofender a chefe do governo. Afinal, nenhuma evidência existe de que a sólida maioria oficial foi desfeita por uma derrota isolada no Senado. Muito menos que ruralistas e evangélicos tornaram-se de repente árbitros maiores das decisões legislativas. A venda de bebidas alcoólicas nos estádios conta com votos suficientes para calar os puritanos, assim como o ambientalismo parece sobrepor-se aos interesses dos donos de terras.

Ainda assim, o governo encolheu-se. A explicação surge clara: Dilma desconfia que por trás de evangélicos e de ruralistas esteja a chantagem de grupos integrantes dos partidos aliados exigindo ministérios, nomeações, liberação de verbas e até sinecuras. A turma do toma-lá-dá-cá é a responsável pela desestabilização nas relações entre Legislativo e Executivo. Por isso a presidente recomendou o recuo nas votações, matreiramente aceito pelas direções parlamentares. Por isso, também, sinais são dados de seu gabinete, sobre não aceitar as candidaturas de Renan Calheiros, no Senado, e Henrique Eduardo Alves, na Câmara, para o biênio 2013-14. Ambos estariam estimulando a revolta fisiológica.

Assim está o impasse entre governo e Congresso, com a presidente na Índia, logo depois nos Estados Unidos e os parlamentares gozando relativo ócio, em Brasília.

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CONSELHO ERRADO

Atribui-se ao advogado do senador Demóstenes Torres o conselho para que se mantenha à sombra, sem dar explicações para as denúncias que o atingem e, em especial, para que fuja dos jornalistas. Se verdadeira a informação, deixa mal o competente causídico, porque tanto pelas suas características quanto pela crise que o envolve, o senador Demóstenes deveria estar imitando o homônimo grego e discursando a mais não poder. Calando, deixa no mínimo a suposição de que tem algo a esconder.

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