Rebanho eleitoral

Sebastião Nery

Fazia eleição como se fosse no curral. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo um a um para a urna. Na mão da boiada humana, o envelope cheio de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito:

– Coronel, fiz tudo direitinho. Só queria saber em quem votei.

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessas. O voto é secreto.

Essa é uma velha e manjada história do coronel Chico Heráclio, o rei de Limoeiro, Pernambuco, senhor daqueles latifúndios todos. Obedecia ou morria.

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USE A ABUSE

O coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 50 na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleofas, para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua região. Depois da eleição, foi ao palácio. Agamenon eufórico:

– Chico, use e abuse de meu governo.

– Muito obrigado, governador. A Secretaria da Fazenda e a de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Só peço para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso.

Um dia, voltou ao palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função. Agamenon não podia atender:

– Mas, Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil, eu não vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

O ex-presidente Lula pensa, como Chico Heráclio, que governo pode tudo e ia ser fácil eleger seus candidatos.

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ESQUECERAM KHAIR

O PT cresceu muito a acabou esquecendo seu passado. Alguns jornalistas também esqueceram. Em junho de 2008, O Globo publicou uma foto grande, em seis colunas, do ato de fundação do PT, no Colégio Sion, em São Paulo, em 10 de fevereiro de 80.

Identificou, na cabeceira da mesa, o maranhense Manoel da Conceição, o gaúcho Olívio Dutra, os paulistas Lula, Jacó Bittar, Paulo Skromov e José Cicote e não identificou (pôs como “não identificado”) um homem alto, cabelos pretos, roupa clara, bem visível ao lado de Olívio Dutra e Lula.

Era o único do Rio e o único ali que tinha mandato popular, único deputado federal do PT, que só pôde então ser registrado como partido porque aquele deputado deixou o MDB, pelo qual se elegera deputado federal no Rio, em 1978, e foi para o PT, para a legenda poder legalmente nascer.

Edson Khair foi procurador do Trabalho, duas vezes bravo deputado estadual do MDB do Rio, em 70 e 74, em plena ditadura, enfrentando Chagas Freitas e Miro Teixeira, os dois esbirros do regime militar na política do Rio na década de 70, e depois deputado federal eleito em 78.

Se O Globo não sabia nem isso, o que sabe O Globo sobre o PT?

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