Recordando colegas de turma do Colégio 2 de Julho

Hugo Gomes de Almeida

Estudamos, a partir do chamado Exame de Admissão ao Ginásio, no Colégio 2 de Julho. Tivemos, então, o convívio de colegas de ótima têmpera e ouvimos lições de mestres inesquecíveis.

Situado na Avenida Leovigildo Filgueiras, bairro do Garcia, em Salvador-BA, o Colégio 2 de Julho foi edificado por membros da missão presbiteriana, a mesma que fundara o Colégio Presbiteriano Mackenzie na capital paulista. O diretor, o vice-diretor e a diretora do internato feminino eram oriundos dos Estados Unidos da América.

Lá estudamos até a conclusão do 1º ano científico. O colégio eliminara do currículo o curso clássico — de nosso interesse — e precisamos transferir-nos. É que já pretendíamos ingressar no curso jurídico.

No Colégio 2 de Julho, integramos turma de adolescentes notáveis. Registramos, em síntese, o perfil de alguns deles com quem tivemos mais proximidade:

Venceslau Reis Souza Silva

Já falamos sobre este vulto inesquecível no artigo em que tivemos por foco o centenário de seu venerando pai — Dr. Edgar Silva — valoroso decano dos advogados da terra de Rui Barbosa.

De Venceslau Silva fomos muito próximo. Figura extrovertida e magnânima. Nunca se deixou corroer por invejas. Admirável inteligência revelada desde aquela quadra de formação do espírito. Abraçou a carreira hipocrática, granjeando nomeada como médico-cirurgião, no campo da Urologia. É também empresário rural no município de Itapicuru, onde pós-diplomado, deu os primeiros passos no exercício do sacerdócio médico, amenizando o sofrimento daqueles sertanejos. Firmou aureolado nome na região. Tornou-se credor da benemerência de prestígio popular. Esteve tentado a viver as emoções da carreira política, mas o triunfo da razão indicou-lhe a continuidade nos caminhos da medicina.

Aqueles meninos do Colégio Dois Julho, que integrávamos aquela turma não imaginávamos estar, entre nós, dois colegas que seriam prefeito da Capital e governador do Estado.

Mário de Melo Kertész

Mário Kertész, que já evidenciava dons de argúcia e vigorosa inteligência, tornar-se-ia secretário de Estado e prefeito de Salvador em duas oportunidades. Atualmente se tornou empresário na área de Comunicação. É radialista há cerca de quinze anos. Dono da Rádio Metrópole, sediada na capital soteropolitana, mas ouvida além-fronteiras da Bahia. Campeã de audiência quer pelo valor do radialista-proprietário, quer pela atração de programas criativos, quer ainda pelo interesse despertado por comentaristas de renome.

Nilo Augusto Moraes Coelho

Nascido em Guanambi, não se deixa envaidecer pela altura a que se alçou, seja como empresário, seja na carreira política. Jamais se descura de cativante simplicidade. Foi prefeito de Guanambi e deputado federal em várias oportunidades. Sentou-se na cadeira de governador da Bahia.

Entre aqueles colegas de turma, a maioria destacou-se na seara da medicina, da engenharia e da odontologia. Somente este articulista e Saul Venâncio de Quadros Filho graduamo-nos na Faculdade de Direito e militamos em profissões jurídicas.

Saul Venâncio de Quadros Filho

Presidira, naqueles idos, o Grêmio Erasmo Braga, dos alunos do colégio. Revelou-se, à época, excelente coordenador da política estudantil secundarista. Teve um pai de alta distinção e boas posses. Era sustentáculo  de Saul Quadros Filho e de mais dois irmãos no dispendioso internato do Colégio 2 de Julho. A vida deste destacado colega de sala tem sido constante exercício de liderança no campo político ou social. Orador convincente. Bom administrador. Há pouco, coroando a trajetória profissional, foi eleito e reeleito presidente da Secção baiana da Ordem dos Advogados do Brasil.

Everton Almeida Souza

Ao recordarmos os colegas de sala, não podemos calar um preito de reconhecimento a Everton Almeida. Graduado em Odontologia, elegeu-se deputado estadual em várias legislaturas. Foi eleito, ainda jovem, presidente do Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau. Everton Almeida, destemido, soube repelir, naqueles dias remotos, as invectivas a ele irrogadas por Antônio Carlos Magalhães, governador nomeado. Pelo tirocínio na vida pública, pelo caráter adamantino, pelo espírito solidário, pela fibra intimorata nas lutas políticas, pela prodigiosa memória, pela polivalência na prática de esportes, Everton Almeida merece a reputação de Colega-Símbolo do tradicional colégio do bairro do Garcia.

Maria Conceição de Castro Nunes

A colega mais bonita do colégio integrava a turma: a famosa Conceição Nunes. Poetisa e escritora. Filha de pais fazendeiros de cacau e pecuária.. Foi o andar feminino mais cadenciado e encantador que pudemos ver. A leveza com que se movimentava transmitia-nos a impressão de ter um corpo cinzelado de plumas. Dava-nos, quase que diariamente, o prazer de, no intervalo das aulas, sentar-se a nosso lado para repassarmos os pontos recém-explicados. Além de formosíssima, seu carisma dava-lhe prestígio ímpar em meio de colegas de outras turmas. Quando dos concursos de beleza, Conceição Nunes não tinha competidora capaz de vencê-la.

No Palácio de Ondina

Aqueles dias de convivência, nos primores disciplinares do Colégio Dois de Julho, ainda gerido em moldes americanos, marcaram deveras o adolescente Nilo Augusto Moraes Coelho. Anos decorridos, no desempenho das prerrogativas de governador, não se esqueceu daquelas relações primaveris, ao promover meios de realizar, no Palácio de Ondina, um encontro dos antigos confrades, que, juntos, concluímos o curso ginasial. Nilo Coelho escolheu coordenadora do contato com os colegas a inesquecível Maria Conceição de Castro Nunes, que, residindo no Rio de Janeiro, contou com o suporte de bem estruturado escritório governamental. Ao evento tão caro a corações de companheiros de fase longínqua, em dia natalício do governador, compareceram velhos mestres e quase todos os colegas, inclusive alguns residentes no exterior. O governador Nilo Coelho e sua bem estruturada família requintaram-se na arte de bem receber. Propiciaram a todos — mestres e condiscípulos — dia inesquecível de marcantes emoções.

O Colégio 2 de Julho nunca será esquecido por quantos lá estudaram na minha geração. A cada encontro com os contemporâneos, aflora a reconstituição de um mundo de saudosas reminiscências!

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2 thoughts on “Recordando colegas de turma do Colégio 2 de Julho

  1. Mas, esse antigo coleguinha do articulista chamado Nilo Augusto Moraes Coelho, vulgo Nilo Boi, já é manjado em matéria de improbidade administrativa. É desses caras cheios do dinheiro que ainda usam o do público para suas farras, quando ocupam cargos públicos. No fim do ano de 1991, utilizou-se de verba pública do governo da Bahia para uma festa particular no hotel Transamérica, na ilha de Comandatuba. Na época, dividia território de roubalheira das verbas públicas na Bahia com seu rival ACM, ambos com influência entre então notórios corruptos e nepotistas magistrados do STJ. Assim, perdeu Nilo numa Turma e ganhou em outra. Não ressarciu o cofre da Bahia.

  2. Meu caro Hugo Gomes de Almeida, mais uma vez somos brindados com um artigo de sua lavra que para mim não é surpresa, parabéns mais uma vez. Não sei se estará no dia 20 do corrente no aniversário de 100 anos do Decano dos Advogados da Bahia, Dr. Edgar Silva, pai de um dos citados por você neste artigo, nosso amigo Wenceslau. Não se apoquente com certos comentários, lembre-se do famoso provérbio árabe, que o também famoso colunista social Imbrahim Sued, na saudosa revista “O Cruzeiro” escrevia, mas isso deixa pra lá, quem viveu aquela época sabe como é o provérbio. Um abraço fraterno.

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