Recordar é viver: leia uma carta de Celso Brant a Helio Fernandes

Celso Brant foi um importante jurista, professor, escritor e político brasileiro.  Foi ministro da Educação durante o governo de Juscelino Kubitschek, eleito deputado federal em 1956 e 1962 pelo PR mineiro, foi o secretário-geral da Frente Parlamentar Nacionalista até o golpe de estado de 1964, que cassou seus direitos políticos por dez anos.

Em 1984, criou o Movimento de Mobilização Nacional, que transformou-se em partido no ano seguinte, o PMN, de quem foi presidente nacional. De volta a Minas Gerais, se elegeu vereador por Belo Horizonte, e foi Secretário do Trabalho durante o governo de Itamar Franco.

Esta carta de Brant a Helio Fernandes, nos foi enviada por Carlos Cazé e digitada por Viviane Ramos, a quem agradecemos a gentileza.

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NOSSA LUTA TEM QUE SER CONTRA O DÓLAR

Celso Brant

Quero cumprimentá-lo pelo seu excelente artigo de 15/09/99, na Tribuna da Imprensa. Lúcido, claro, objetivo. O repentino clarão de um relâmpago iluminando o universo. A sua observação sobre a inflação é perfeita. “Serve, apenas, aos donos do mundo”. Ela não é um fenômeno natural. É um instrumento econômico a serviço de um projeto político: o projeto de dominação do mundo. No caso, da hegemonia de um país que pretende colocar (e tem colocado) a seu serviço a economia mundial.

Não há tolice maior do que a ideia, corrente entre nós, de que foi Fernando Henrique Cardoso que acabou com a inflação no Brasil. Houve época em que a inflação se alastrou por todo o mundo: a Argentina chegou a ter inflação de 2.800% ao ano, a Bolívia superou esta marca, o mesmo acontecendo ao Brasil, ao México, a Israel, à Rússia… De repente, ela acabou no mundo inteiro.

Será que foi Fernando Henrique Cardoso que acabou com a inflação no mundo todo? É claro que não. Quem acabou com a inflação no mundo inteiro foi o Sistema Financeiro Internacional, que a havia criado. Durante longos anos, a inflação gerou grandes lucros para ele. Agora, com o fim da inflação, produz ganhos ainda maiores.

Até a guerra do Vietnã, os Estados Unidos usaram o poder militar para manter o seu domínio sobre o mundo. Vencidos pelo vietcongue – um grupo de homens descalços, sem armas e sem alimentos -, perceberam que a força não era o melhor instrumento para garantir a sua hegemonia, e optaram pelo projeto político, sem dúvida muito mais poderoso que o projeto militar. Foi aí que nasceu o Projeto Neoliberal.

Para termos ideia do seu poder de destruição, basta dizer que seria inconcebível a vitória do Exército dos Estados Unidos sobre a União Soviética dentro do território russo. Pois bem, o Exército russo foi destruído pelo Projeto Neoliberal sem um tiro. Hoje encontramos, pedindo esmola, em praça pública, em Moscou, soldados que pertenceram ao glorioso Exército Vermelho.

O mesmo poderíamos dizer com relação ao Exército brasileiro. Seria inadmissível imaginar que o Exército americano derrotasse o nosso Exército dentro do território brasileiro. Mas o Projeto Neoliberal está acabando, também, com o nosso Exército, que está sendo sucateado e desmotivado por precárias condições de sobrevivência.

Nada imobiliza mais uma nação do que a pobreza. O Projeto Neoliberal, em curso no Brasil, está destruindo a nossa economia, empobrecendo o nosso mercado interno e entregando o nosso sistema produtivo para empresas estrangeiras.

É um engano pensar que o desemprego, no Brasil, tem sido obra do acaso ou de erro dos governantes. Ao contrário, ele é programado. Existe desemprego porque o governo assim o quer, porque faz parte do seu compromisso de destruição da economia nacional. Não tem sentido num País, em que tudo está por ser feito, haver desemprego.

A grande riqueza de qualquer país é o seu mercado interno, que é a soma de todas as suas rendas e salários. O desemprego e o salário miserável contraem esse mercado, impossibilitando o desenvolvimento do Brasil. As privatizações fazem parte dessa mesma política de empobrecimento da nação. Enquanto pertenciam ao patrimônio nacional, as estatais serviam de lastro ao real. Privatizadas, passam a servir de lastro ao dólar.

A globalização não tem, também, outra finalidade. Em que consiste? Em todos os países do mundo abrirem mão de suas riquezas para quem melhores condições tiverem de comprá-las. E quem tem condições de comprar todas essas riquezas gastando, apenas, papel e tinta? Os Estados Unidos, que emitem a moeda internacional.

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PRIVATIZAÇÃO DA VALE

Vamos a um exemplo didático: a Companhia Vale do Rio Doce. Uma das maiores empresas do mundo, que dispõe, praticamente, de todas as riquezas do subsolo brasileiro. Em 1986, foi, de todas as empresas, públicas e privadas, a que deu maior lucro. Avaliada, para a privatização, primeiro em 25 bilhões de dólares, depois em 20 bilhões, acabou sendo vendida por 3,3 bilhões de dólares. Que representam, para os Estados Unidos, 3,3 bilhões de dólares? Apenas isto: seis latas de tinta e doze resmas de papel, que é o que gastam para imprimi-los.

Será que se poderia encontrar neste século (ou em qualquer outro) um débil mental como o nosso presidente, capaz de trocar uma das maiores empresas do mundo por seis latas de tinta e doze resmas de papel?

Sabe-se que o maior problema da economia, hoje, é que ela deixou de ter uma base física, um lastro. O mundo passou a ser um enorme cassino no qual são jogados, diariamente, 13 trilhões de dólares. E uma imensa bolha, sem nenhuma consistência, que pode estourar a qualquer momento.

O que deveríamos fazer é torcer para que essa bolha estoure logo para, aí sim, pensarmos em criar uma nova ordem para a economia mundial. Por estupidez do nosso governo, o que estamos fazendo é jogar fora todas as nossas riquezas na tentativa de salvar um sistema financeiro que está nos destruindo.

Não tem outro sentido o tal “risco sistêmico” que levou o governo a gastar mais de 47 bilhões de dólares para salvar o nosso sistema bancário. A ideia era que a sua bancarrota poderia levar à falência o próprio sistema financeiro internacional, dada a sua fragilidade e falta de sustentação.

Como você diz, a discussão que se trava no governo entre monetarismo e desenvolvimentismo é simples cortina de fumaça que tenta esconder do povo a triste realidade de que tem um presidente que traiu a causa do povo e se empenha na realização de um projeto de destruição do Estado brasileiro. Para se entender o que está acontecendo no Brasil, é preciso lembrar o que disse Henry Kissinger: “Os Estados Unidos não permitirão o aparecimento de um novo Japão abaixo da linha do Equador”. Que eles pensem isto, tudo bem. O inadmissível é que o aceitemos.

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DERROCADA DO DÓLAR

Quando os Estados Unidos impuseram a sua moeda como moeda internacional, tinham o monopólio da bomba atômica, detinham 52% do Produto Mundial Bruto e possuíam o maior Exército do mundo. Hoje, muitos países têm a bomba atômica, o Exército americano foi derrotado por um grupo de homens descalços, sem armas e sem alimentos, e a sua participação no Produto Mundial Bruto não vai além de uns 18%.

O dólar só continua como moeda internacional por efeito da inércia, porque os outros países seguem aceitando, passivamente essa imensa chantagem, com certeza a maior de toda a história humana. E nenhuma nação está em melhores condições de dar um basta a essa situação que o Brasil, uma das suas maiores vítimas.

Sem sequer ter consciência disso, o Brasil é o líder natural do Terceiro Mundo, por ser o que conta com a melhor tecnologia de ponta, o que tem o parque industrial mais desenvolvido e a melhor liderança política disponível (não a que está no campo, jogando, mas a que se encontra no banco de reservas). Dos 197 países existentes, 170 pertencem ao Terceiro Mundo. Quem tem 170 votos numa assembleia de 197 e não assume o seu comando político é por absoluta incompetência. Além disso, os países do Primeiro Mundo estão na dependência dos do Terceiro Mundo. Basta lembrar o caso do petróleo: todas as nações do Primeiro Mundo dependem do petróleo do Terceiro Mundo. A diferença do Primeiro para o Terceiro Mundo é que ele tem um projeto político, e o Terceiro Mundo, não.

Cabe ao Brasil oferecer esse projeto político ao Terceiro Mundo, o que tornará possível criar uma nova ordem econômica para o mundo, baseada na justiça social e na igualdade de oportunidade para todos. Uma das suas primeiras e mais importantes medidas será acabar com a chantagem do dólar como moeda internacional e a criação de uma moeda internacional neutra, que tornará possível a ampliação do comércio mundial: cada país produzirá o máximo do que puder produzir melhor e permitirá trocar em seus excedentes pelos excedentes dos outros países. A contabilização dessas trocas será feita através de uma Câmara Internacional de Compensação. Hoje, existem cinco dólares fora dos Estados Unidos para cada dólar no país.

No dia em que o dólar deixar de ser a moeda internacional, esses dólares que estão no exterior refluirão para os Estados Unidos, que terão uma inflação maior que a da Alemanha do final da Primeira Guerra Mundial. Nessa ocasião, estará resolvido o problema do pagamento da dívida externa do Terceiro Mundo: cada país devedor trocará um carrinho de mão de sua moeda nacional por um caminhão de lixo de dólares.

E como você diz, Hélio: “A luta deverá ser contra o dólar, que controla e domina o mundo todo”. É nesse sentido que temos de unir os nossos esforços. Tudo o mais é secundário. Cortina de fumaça. Vamos continuar arando no mar.

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RESPOSTA DE HELIO FERNANDES

P.S. Não tenho que agradecer os elogios, Celso Brant, nem me constranger com eles. E  não posso deixar de publicar as tuas lúcidas palavras sobre dólar, inflação, soberania. A nossa solidariedade é a solidariedade dos guerreiros, é a compreensão pela importância da luta, é o grito e o brado das trincheiras. Enquanto na nossa História e no nosso País não existir um outro 7 de Setembro, o da Independência Econômica, não deixaremos de lutar. Eu, você e todos que acreditam na luta.

(Fonte: Tribuna da Imprensa)

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