Reflexões a propósito dos povos considerados primitivos

Christian Cardoso

Sem pretensão de esgotar o tema, o que os etnocentristas chamam de “atraso cultural” (chegou-se a afirmar que os povos “primitivos” não eram organizados politicamente…) deve-se a causas de diversas ordens. A título de exemplo, no campo biogeográfico (Jared Diamond), pode-se dizer que as regiões as quais, desde a Antiguidade, dispunham de espécies agrícolas a fornecer carboidratos (agricultura extensiva) e proteína (grandes mamíferos) em larga escala), puderam ensejar a constituição de formações sócio-culturais de maior porte populacional (e. g. Revolução Agrícola e Pastoril no Crescente Fértil e China Antiga).

Portanto, “saíram na frente” na construção de cidades, impérios, necessitando de maior diversificação e estratificação sociais (artesãos, pastores, agricultores, comerciantes, sacerdotes, burocratas, escribas, exércitos etc.).

Na expressão do gigante Darcy Ribeiro, no campo do subsistema ideológico, tem-se de suma importância o papel da escrita, a qual possibilitou outra dinâmica ao registro dos conhecimentos, das técnicas e de sua disseminação/comunicação “intra” e “inter” formações sócio-culturais. Para Darcy, não é o “modo de produção” (coletivista ou privatista) o fator determinante na evolução de um povo, mas o domínio tecnológico que ele possui.

Darcy Ribeiro observa que apenas as formações sócio-culturais que dominam a tecnologia podem figurar em posição de hegemonia ou autonomia ante outros povos (aceleração evolutiva), induzindo progresso e preservando sua autonomia. Para as formações sócio-culturais as quais não dispõem do domínio tecnológico, restam os processos de “atualização histórica” (depender de quem evolui), “estagnação cultural” (a sociedade permanece idêntica a si mesmo, “assistindo” ao progresso das outras), ou as funestas “regressões históricas” (desintegração dos sistemas associativo, político e mercantil, descambando-se para economia de subsistência).

Daí, para manter-se em “aceleração evolutiva” (indução de progresso com preservação de autonomia), necessário se faz afastar a população de se tornar “povo chucro” (Darcy Ribeiro), investindo-se fundamentalmente em educação e nutrição, principalmente, quanto às crianças mais pobres  (F. J. Bortolotto).

Se, no plano da técnica pode-se verificar muitos progressos desde o neolítico, no campo da ética a humanidade parece estar muito atrasada, haja vista a putrefação a assolar a política e a hecatombe ecológica que se anuncia (poluição, revolução termonuclear etc.), a qual compromete o futuro da vida no Planeta…

São apenas humildes considerações sobre o tema que tantos comentários desperta.

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