Reflexões de Natal sobre um país magnífico chamado Brasil e sua milagrosa miscigenação, que precisa ser disseminada pelo mundo

Carlos Newton

Como todo brasileiro, sou afetado pelo chamado espírito de Natal. Afloram minhas raízes marxistas, fico meditando sobre as injustiças do mundo, para mim é mais uma tristeza do que uma alegria, embora também me deixe levar pelo maldito consumismo que impregna esta época do ano.

Não sei por quê, nunca gostei de festa de Natal. Não me lembro de ficar eufórico com a data, nem mesmo quando criança. Depois, quando adolescente, era só um motivo para tomar um grande porre e ir à Missa do Galo na Igreja do Cenáculo, em Laranjeiras, mas a finalidade era azarar alguma garota, o que nunca acontecia.

Depois, já adulto e jornalista, tomei conhecimento do lado negativo do Natal, o aumento estarrecedor do número de suicídios, os acidentes automobilísticos, a confusão total nas rodoviárias, os apagões aéreos nos aeroportos, os engarrafamentos, dá até um certo medo de sair de casa.

Em meio a esses sentimentos confusos, talvez por Cristo ser judeu, no Natal sempre me lembro de meus amigos de origem hebraica, que tenho aos montes, especialmente por ter trabalhado tanto tempo na Editora Bloch e na TV Manchete. E recordo uma bela frase de Adolpho Bloch, numa entrevista que deu à minha mulher, Jussara Martins: “Os judeus perderam Cristo por um erro de marketing”. Nada mais verdadeiro.

O lado bom do Natal é que essas reflexões me fazem observar como o Brasil é um país extraordinário, único no mundo, como diz meu amigo de infância Darc Costa. Nenhuma outra nação é formada à nossa maneira, tão democraticamente, e os Estados Unidos, que chegam mais perto de nós, ainda vão levar muito tempo para nos igualar no campo social, se é que isso vai acontecer, pois o que se vê hoje no mundo é o acirramento do racismo, com o fechamento de fronteiras e o radicalismo religioso do Islã, a religião que mais cresce no mundo.

No Brasil, graças ao Bom Deus, temos muitas mazelas, mas ainda estamos à frente dos outros países nesse particular, que é o mais importante – a tolerância. “Pretos, brancos, índios, fez-se a miscigenação”, canta Martinho da Vila, pleno de sabedoria, porque aqui é o único país onde árabes e judeus convivem, confraternizam, casam entre si e até brincam de amigo oculto ou secreto e comemoram juntos o Natal, que no Brasil já não pertence à religião alguma, é uma festa ecumênica.

Jamais esquecerei o casamento de nossa amiga judia Vivian Kelman, no Leme Tênis Clube, com o árabe Cleber Ajuz, uma festa emocionante e extraordinária, com aqueles cabelos vermelhos, louros, castanhos e negros se misturando num congraçamento maravilhoso. E lembro também do casamento do judeu Adolpho Bloch e da católica Lucy, do namoro do judeu Zevi Ghivelder e da católica Margarida Autran, do casamento do árabe Ali Kamel e da judia Patrícia Kogut…

E eis que neste Natal ressurge em minha vida o amigo Henrique Veltman, que me achou aqui no Blog, refez o contato e me enviou seu mais recente livro, “Do Beco da Mãe a Santa Teresa”, que conta sua vida desde menino numa vila pobre de São Cristovão, no Rio, até se tornar o grande jornalista que ainda é, na ativa aos 74 anos, como editor de Política do jornal DCI, em São Paulo.

O livro é um primor. Li praticamente de uma tacada só. Tive de parar na página 17, quando me emocionei muito, vieram as lágrimas. Depois consegui retomar e fui até o fim, lamentando quando fechei a última página, já de madrugada, mas tendo revigorado minha velha convicção de que não há nada melhor no mundo do que um judeu marxista, aquele que consegue se libertar de tradições atávicas para apenas fazer o bem, sem importar a quem, como Henrique Veltman, Wladimir Herzog e tantos outros.

E assim, imerso nesses pensamentos de Natal, posso repetir a frase genial de Helio Fernandes. Que maravilha viver. No Brasil, é claro.

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *