Reflexões sobre a concepção trágica da História e as semelhanças e generalizações entre as civilizações

Olcimar Costa

O antropólogo e historiador alemão Werner Muller, ao adotar o que ele chama de concepção “trágica” da História, parece argumentar, por vezes, que Bizâncio persistiu como uma grande ou relativamente grande civilização, durante centenas de anos, sem qualquer razão que o justificasse.

Em suas palavras: “O que foi que sustentou a manutenção dessa civilização estática? Por que foi preservada por uma tradição que, por outro lado, não conseguiu preservar Roma? Não vejo qualquer razão válida ou, pelo menos, nenhuma que ilustre uma satisfatória filosofia da História… Tinha uma capital fortemente murada, com uma excelente localização para fins de comércio e defesa…Tinha o segredo do ‘fogo grego’, a arma diabólica que dispersava ou destruía as esquadras inimigas que sitiavam Constantinopla… Sobretudo, teve sorte com os seus imperadores, ‘durante suas piores crises’, sendo periodicamente salva pelo aparecimento de um governante forte e capaz. Isto parece simples acaso, pois o aparecimento desse salvador não foi proporcionado por qualquer sabedoria especial de suas instituições políticas”.

Muller parece estar-se perguntando, neste trecho, tal como muitos cépticos antes dele, se a “História” tem, realmente, sentido. Contudo, a maioria dos historiadores daria, pelo menos, um passo à frente, como ele próprio o fez nessa passagem, e procuraria algum fator particular – um governante de pulso, um segredo militar, uma localização geográfica – que contribuísse para o crescimento, a preservação ou a queda de uma determinada civilização, num momento determinado. Seriam muitos os que então se deteriam aqui e considerariam inútil a busca de qualquer explicação geral da “ascensão e queda das civilizações”, porquanto as razões são singularmente diferentes em cada caso.

Num certo sentido, teriam razão. Todo e qualquer evento é, sob alguns aspectos, diferente de todos os demais eventos. Nenhuma época histórica é precisamente igual a outra, apesar da habilidade de homens como Arnold  Toynbee e Oswald Splenger de verem semelhanças entre elas. Nenhuma pessoa é exatamente igual a outra. Nenhuma pedra é, nesse sentido, idêntica a uma outra.

Mas, partindo de pedras, os cientistas têm encontrado semelhanças e formulado generalizações baseadas em certas características que os eventos ou objetos têm em comun, sem negar a singularidade de qualquer evento ou objeto determinado. Os psicólogos estão tão habituados a ouvir que não podem generalizar sobre algo tão complexo e variado quanto a natureza humana, que podem ser perdoados por imaginar que deve ser ainda mais difícil generalizar a História. Talvez se admitirmos, de início, que todos os casos de crescimento econômico ou florescimento cultural são únicos sob alguns aspectos, os cépticos poderão, então admitir, pelo menos, a possibilidade de certas características comuns a muitos ou à maioria poderem ser também identificadas.

Muitas tentativas foram feitas para descobrir tais características comuns e chegar a interpretações gerais. Quem for apenas um pouco menos céptico do que Muller em sua concepção “irônica” da História, terá muito em comum com o conceito de “difusão cultural” do antropólogo. Segundo esta concepção, a humanidade está empenhada, acima do espaço e do tempo, numa variedade de “experimentos” sociais e culturais que implicam diferentes métodos de organização econômica, política, religiosa ou social. Com bastante frequência, ocorre uma “mutação” social – uma combinação particularmente feliz de interesses ou líderes ou métodos de organização de diferentes esferas de atividades, isto é, um novo desenvolvimento que redunda em crescimento na esfera econômica ou alguma outra esfera cultural… (“A Sociedade Competitiva”, Realização e Progresso Social, McClelland, C. David).

Dessarte, o tempo não para, e a História, implacável nos tempos.

 

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