Reflexões sobre a insanidade do trem-bala à brasíleira

Wilson Baptista Junior

Os (poucos) países do mundo que têm trem-bala unem, todos eles, a tradição de transporte ferroviário e uma malha ferroviária tradicional que cobre os países e tem boa qualidade a uma extensão territorial relativamente pequena. O trem-bala entra aí como um suplemento para um transporte ferroviário muito bem consolidado, e em pelo menos dois deles (França e Japão) como um produto de uma indústria nacional altamente desenvolvida no setor ferroviário. Além disso, todos eles possuem estruturas de transporte urbano muito melhores do que a do Brasil, notadamente no que toca aos metrôs.
Os Estados Unidos, potência industrial e dotados de uma malha ferroviária razoavelmente boa e operante, recusam-se a implantar o trem-bala, como o articulista observou, preferindo investir no transporte aéreo e numa rede rodoviária incomparavelmente superior à nossa em qualidade.
Não faz o menor sentido, em termos de logística, investir em trem-bala para fazer uma ligação Rio-São Paulo, onde o transporte ferroviário tradicional entre estas cidades, que já foi razoável, hoje é praticamente inexistente.
O nosso sistema ferroviário de transporte de passageiros está inteiramente sucateado. A rede metroviária em nossas cidades está muito longe de se comparar à dos países desenvolvidos, mesmo nas duas únicas cidades (Rio e São Paulo) onde ela é menos pior. A rede rodoviária brasileira, tirando uma pequena parte concessionada principalmente no estado de São Paulo, é uma tragédia nacional que custa milhares de vidas anualmente, para não falar dos custos adicionais que impõe ao transporte de cargas.
É um absurdo criminoso (e criminoso com letras maíusculas) a insistência do governo federal em implantar, com o volume previsto de aporte (fora o aporte adicional que todos sabemos que virá, não previsto mas perfeitamente previsível) de recursos públicos um serviço caro que atenderá a uma parcela relativamente pequena da população e não trará resultados relevantes ao desenvolvimento do país, enquanto a nossa população continua à míngua de transporte interestadual, intermunicipal e muniocipal decente e seguro. Para nem falar das carências nos outros setores.

 
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