Reflexões sobre um blindex que se quebra num dia de ira

Ofelia Alvarenga

Millôr escreveu que ‘até formiga tem seu dia de ira’. Não discordo dele não. E é no dito (o que ele disse) que penso quando eu, a quilômetros de distância, soube que meu irmão havia cortado o braço e estava no hospital. Fiquei intrigada e voltei logo pra casa, pra saber que o blindex da suíte dele, instalado há vários anos, literalmente explodiu do nada em mil e um pedaços inúteis, ao contrário das utilidades apregoadas pela propaganda do BomBril.

Um desses pedaços penetrou profundamente no braço do meu irmão, causando imediata hemorragia. Nem tirou o carro da garagem. Ele e minha cunhada pegaram o primeiro táxi para o hospital; ele com o braço apertado na toalha. No hospital, levou pontos internos e externos em uma cirurgia de cerca de 35 minutos. Se o vidro ferisse o olho, ele estaria cego; se cortasse o pescoço e pegasse a carótida, ele estaria morto.

Não foi o primeiro blindex a explodir: aconteceu o mesmo com o do banheiro da minha sobrinha há alguns anos. E meu irmão prima por usar o que há de melhor, material de primeira qualidade e não similares. Só pode ter sido o dia de ira do blindex, quando tudo foge ao controle, não há outra explicação para o inanimado vidro explodir.

Um médico contou ao meu irmão que ‘cansa’ de atender gente ferida por estilhaços de blindex que se espatifam do nada. Eu mesma nunca havia ouvido falar em tal coisa. Quando o primeiro blindex da casa do meu irmão explodiu há anos, eu nem fiquei sabendo, ele não comentou, acho, estou quase certa. E após o acontecido ontem, eu me pergunto que tipo de segurança temos ao instalar um desses vidros no nosso banheiro. E por que não é possível que esse vidro, caso venha a quebrar, não seja como o do pára-brisas do carro, que fica todo grudadinho em uma película?

2011 é o ano das descobertas pra mim. Descobri que catapora em adulto é doença séria e pode matar. Que não há vacina nos postos de saúde e que gente na faixa dos 30 com certeza não tomou a vacina porque ela não existia na infância dos trintões. Melhor, ou pior: não há vacina contra catapora nos postos de saúde pra quem quiser tomar. Só em clínicas particulares.
Engraçada a vida. Engraçada?

No horário em que a ira do blindex se fazia sentir lá na Tijuca, eu, pela segunda vez em toda a minha vida (46 anos depois da primeira vez), pegava um trem da Supervia, desta vez para ir a Guilherme da Silveira visitar um parente. Como eu disse ao Helio Fernandes lá atrás, entrei em um trem, antes da Central do Brasil, uma única vez em 1964 ou 1965. Nunca mais. Quero dizer, agora novamente, quando precisei visitar esse parente que mora em casa lá em Campo Grande e com problemas cardíacos foi encaminhado pelo plano de saúde para esse hospital em Guilherme da Silveira (pelo menos em hotelaria parece bom), uma estação, aprendi ontem, depois de Padre Miguel.

Eu mal havia sentado e cumprimentado o tio quando soube do ocorrido com meu irmão. Aliás, minha cunhada apenas falou do corte no braço, não mencionou a ira do blindex. E eu, que acabara de aprender a como usar o trem da Supervia, me senti presa, tão distante estava de casa. A gente se acostuma a andar de carro e quando muda o meio de transporte sente grande diferença. E eu não sabia ir de carro a Guilherme da Silveira.

Enquanto voltava pra casa, a cabeça intrigada com a situação, por que meu irmão esquecera o nome de um tal remédio e minha cunhada me perguntava se eu sabia qual era?, eu observava que voltar pra casa era bem mais agradável, as estações ficavam mais conhecidas à medida que o trem avançava.

Não achei o fim da picada andar de trem, era um sábado e havia pouca gente, mais na ida que na volta. Mas ou o zelador do meu prédio não estava bem certo do que dizia ou eu não dei sorte: os dois trens para o ramal de Deodoro estavam sem ar condicionado ligado. E fazia muito calor.

Algo se rompeu em mim de ontem pra hoje. Será o meu blindex interior? Por que e quando nosso blindex se espatifa? Talvez pequenos-grandes estressores, como acontece com o vidro.

Meu filho e minha nora têm um blindex lindo no apê deles em São Paulo. Ontem mesmo avisei pra ele o que aconteceu na suíte do meu irmão.
Fica o aviso também para os leitores dessa Tribuna, se é que já não sabem de casos semelhantes. No meio do caminho, ao invés de uma pedra, pode haver um blindex em seu dia de ira.

 
This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *