Reformas impopulares só serão apresentadas pelo governo depois das eleições

Charge do Amorim (amorimcartoons.com.br)

Leticia Fernandes e Isabel Braga
O Globo

Reforma da Previdência, teto para gastos públicos e mudanças trabalhistas, pautas consideradas essenciais pelo governo interino de Michel Temer, só irão avançar no Congresso depois das eleições municipais. Consideradas polêmicas e com potencial para tirar votos, essas medidas estão sendo “empurradas” pelos deputados para depois de outubro.

Além de serem assuntos espinhosos, a Câmara deve ficar esvaziada, já que muitos parlamentares são candidatos ou cabos eleitorais em seus municípios. Por conta disso, será grande a dificuldade de obter quorum para as votações. Para aprovar um projeto de lei ou medida provisória na Câmara é preciso obter ao menos 257 dos 513 votos. No caso de emendas à Constituição, como a que fixa um teto de gastos, a aprovação acontece com 3/5 dos votos — 308 parlamentares.

O líder do governo, André Moura (PSC-SE), admite que o pacote ficará para depois das eleições: “ O governo quer celeridade máxima na votação da PEC do teto, mas, até por conta dos prazos, não temos como votar antes das eleições. E as reformas da Previdência e trabalhista também vão ficar para depois” — disse.

TUDO COMBINADO – Mesmo partidos da base do governo, que defendem a aprovação dessas matérias, admitem que seria “loucura” fazê-lo antes das eleições. Eles contam que o próprio Temer e seus ministros mais próximos sabem disso.

“O Michel é um homem do Parlamento e conhece a cabeça do deputado como ninguém. Obviamente, ele não vai arriscar fazer algo assim sabendo que pode não dar certo. O ministro (Eliseu) Padilha (Casa Civil) e o próprio Geddel (Vieira Lima, da Secretaria de Governo) sabem que é uma loucura fazer isso antes das eleições” — disse Nilson Leitão (PSDB-MT), vice-líder tucano na Câmara.

Leitão admite que há resistência mesmo no PSDB de votar essas matérias antes de outubro: “Não podemos arriscar votar matérias tão polêmicas e importantes num momento de fragilidade. Mesmo nos partidos decididos a votar a favor, como o PSDB, podemos encontrar dificuldade por conta da eleição, isso não dá para negar”.

AGENDA DE VOTAÇÃO -Temer tem conversado frequentemente com o novo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para construir uma agenda de votação nesse período, e há um compromisso de ambos de priorizar o projeto de renegociação das dívidas dos estados, a mudança nas regras do pré-sal e o projeto que cria regras mais duras para a indicação de diretores dos fundos de pensão. Embora saiba da dificuldade de votar a medida, o governo tinha esperança de que nesse pacote de votações no período eleitoral entrasse ao menos a proposta que limita o crescimento dos gastos públicos.

Na Câmara, pressionado por seus pares, Maia deve recuar da ideia inicial de manter um calendário mínimo de votações em setembro, quando a campanha eleitoral estará a todo vapor. Assim que foi eleito, ele disse que queria manter três dias de votações nas semanas de agosto e fazer, em setembro, um esforço concentrado de dois dias por semana. A tendência, agora, será manter as votações em agosto e apenas na primeira semana de setembro.

CONVENÇÕES – Os líderes partidários avisaram Maia de que insistir em votações em setembro não seria a melhor estratégia. Mesmo na primeira semana de agosto, quando os trabalhos pós-recesso branco serão retomados, devem ser realizadas sessões apenas na segunda e na terça-feira. As convenções partidárias para a escolha dos candidatos terminam no dia 5 de agosto.

O líder do DEM, Pauderney Avelino (AM), disse que estão descartadas votações de matérias polêmicas antes da eleição. A PEC que estabelece um teto nos gastos é uma das mais controversas. Mesmo nos partidos da base, como o DEM, que defende sua aprovação, parlamentares querem alterações no mérito. Dizem que, como está, fixar esse limite pode inviabilizar investimentos.

“Se a matéria for polêmica, os próprios deputados tenderão a não ir, para não se indispor com o eleitorado. Mesmo os que não são candidatos. Essa campanha é pé no chão. Dinheiro não vai ter, e, para ajudar os candidatos, vamos ter que gastar sola de sapato e saliva, coisa que sempre fiz” — afirmou.

PT TENTA ADIAR – Contrário às pautas do governo Temer, chamadas de “maldades”, o PT continuará a obstruir as votações na tentativa de inviabilizar a aprovação das reformas este ano. Afonso Florence (BA), líder do partido na Câmara, admitiu que, quanto mais adiar a votação de temas como a reforma da Previdência e a PEC do teto, melhor. Ele sabe, no entanto, que o governo tem maioria expressiva para aprovar os projetos de seu interesse.

— Quanto mais postergarmos, melhor. A existência do recesso já nos ajuda, porque adia as pautas, e nós empurramos para o final do ano. Assim, elas vão perdendo força e, de repente, o ano acaba. Por isso, vamos continuar obstruindo — disse Florence, ressalvando que ainda acredita na volta da presidente afastada, Dilma Rousseff, que, segundo ele, não patrocinaria essas pautas.

No entanto, o petista afirmou que, caso o impeachment se confirme, o próprio governo Temer vai jogar para depois das eleições municipais parte das pautas para evitar desgastes de seus candidatos.

23 thoughts on “Reformas impopulares só serão apresentadas pelo governo depois das eleições

  1. O PT tem votado mais com o Temer do que o centrao. Agora o higienista social está falando em regime único de aposentadoria para os setores público e privado , só não explicou o que vai fazer com o direito adquirido de quem já pagou por anos acima do teto do INSS.

  2. ABC do Direito prá PeTizada:

    http://mundovelhomundonovo.blogspot.com.br/2016/01/introducao-ao-estado-de-direito.html

    “…os doceiros escondiam as flautas com que anunciavam à petizada os quindins que levavam” (do livro “Numa e Ninfa” de Lima Barreto)

    Que Santo André, São Caetano e São Bernardo abençoem neste domingo todas as crianças desprotegidas e vulneráveis de Direito.

    E que um Diadema da luz de Deus as protejam e guardem!

  3. Há pessoas ainda com os nervos de aço ideológicos no afã de comentarem sobre os fatos concretos da política brasileira.

    Por que digo isso? Pela simples razão da matéria posta em comento. O PMDB é o Partido mestre nos engodos políticos. É preciso remontar ao engodo praticado pelo governo Sarney, que migrou da ARENA/PSD para o MDB/PMDB para ser vice de Tancredo. Alçado a presidência pela vacância do titular, Sarney implantou o Plano Cruzado e os famosos fiscais do Sarney. Quando os economistas do governo indicaram mudanças no Plano, pois começavam a faltar alimentos básicos, o PMDB proibiu as medidas impopulares antes das eleições. Portanto, assim que a urnas foram lacradas e ainda quentes vieram as medidas impopulares. Resultado: Sarney não podia sair às ruas sem que as vaias poluíssem seus ouvidos sensíveis. Até pedradas foram arremessadas sobre o ônibus presidencial no centro da cidade do Rio de Janeiro.

    Agora tencionam repetir o mesmo erro de Sarney, no mesmo PMDB agora comandado pelo vice Michel Temer. Vejam bem caros leitores, a impressionante coincidência. Será que elas existem realmente?

    O PMDB carece de analistas isentos e profissionais para alertar o governo sobre o estelionato eleitoral em gestação. Não se pode pensar apenas na próxima eleição, e os anões políticos miram em 2018. Temer desde já é o candidato dele mesmo, apesar de desmentir enfaticamente. Brizola também desmentia e era tudo que queria, ser presidente.

    Se praticarem o estelionato eleitoral, ao editarem medidas impopulares após as eleições de outubro, os próceres do PMDB poderão estar dando adeus as pretensões políticas de manutenção do PODER ao longo do final da década e nas seguintes a partir de 2020.

    Dois Partidos perderam o bonde da história por praticarem estelionato eleitoral. Em primeiro o PSDB. A cúpula tucana empreendeu as Reformas da Previdência e o amplo programa de Desestatização comandado pelo BNDES. Desempregou milhares de trabalhadores e terceirizou criminosamente a mão de obra qualificada da nação.

    Em segundo, o “Partido dos Trabalhadores” . O PT logo de cara, ainda em 2002 sinalizou para o empresariado, que nada mudaria em relação ao governo do PSDB. A histórica “Carta aos Brasileiros” assinada por Lula acalmou o mercado financeiro e os empresários de espírito animal. Lula navegou em águas calmas durante longos oito anos. Inclusive Lula e o PT implantaram uma continuação da Reforma da Previdência iniciada por FHC.

    Bem, o desastre do governo Dilma está bem fresca na memória de todos, nem precisa gastar tinta para comentar. Essa tragédia política e econômica, que vai se solidificando e a novela termina no final de agosto, esse mês fatídico de tantas mudanças políticas.

    Então, não há que se falar, a meu juízo, em questões ideológicas, tanto no campo da esquerda ou da direita. O PSDB e o PT com o PMDB no meio do jogo são Partidos Conservadores na forma e no conteúdo. Não há diferenças fundamentais entre esses três protagonistas da cena política brasileira nos últimos anos. E acho que tão cedo não haverá mudanças no horizonte desse Brasil varonil.

  4. Não poderia deixar de comentar a excelente reportagem e análise das jornalistas Leticia Fernandes e Isabel Braga do jornal O Globo. São duas jovens jornalistas que despontam com inegável competência política e compreensão do Brasil atual. Tenho acompanhado tudo o que elas escrevem e sempre me impressiono positivamente.

    Parabéns a Letícia e a Isabel e também ao editor Carlos Newton por permitir que todos possam ler e comentar a exposição das matérias da lavra das jornalistas.

  5. O PT tenta adiar nada, basta ver a votação do Rodrigo Maia. O PT tem votado mais com o Temer do que o Centrão, todos estão interessados na Operação Abafa em curso, só nisso.
    Quando o Cunha disse que ‘iria entrar para a história, por ter derrubado dois presidentes’ a cúpula do PT se alvoroçou, chamando isso de ‘ golpe dentro do golpe ‘. estão no salve-se quem puder.

    ” Os “partidos de esquerda”, como se definem PT, PCdoB e PSOL, que atualmente estão de volta à oposição, tratam rivais como PMDB e PSDB com expressões de nojo, mas têm adotado um comportamento curioso nas votações de propostas do governo Michel Temer. Os chamados “esquerdistas” em geral têm votado favoravelmente ou não criam embaraços à aprovação de projetos de interesse do Planalto. A informação é da Coluna Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

    A “esquerda” apoiou integralmente um terço das 42 propostas de medidas econômicas que habitualmente classifica de “neoliberais”,

    Os “esquerdistas” alegam apoiar medidas propostas por Michel Temer para “ajudar o governo Dilma”, em cujo retorno dizem acreditar.

    Os deputados da “esquerda neoliberal” reconhecem que Dilma poderia até pretender, mas jamais teria condições de aprovar essas medidas.

    Já no PMDB não é unânime o apoio a Temer: Newton Cardoso (MG) votou 7 vezes contra o governo e o deputado Waldir Colatto (SC), 11.

  6. Enquanto isso os R$ 2,3 trilhões sonegados ficam numa boa, afinal ele é funcionário do Comando Delta, que tem como porta voz o chefete de plantão da Fiesp…
    Depois de sua posse quantas operações sérias, não mimimis, a PF já fez ?
    Chegaram ao cinismo de dizerem que a premiada do Pedro Corrêa vai atrasar, pois os dados foram perdidos no envio via internet, como se o pessoal da Lava Jato não tivesse recursos para comprar uns 3 HDs !
    E a deleção premiada do Machado e a Operação Turbulência da pai do Ministro ? Ao visto só sobrou o envenenado do motel de Olinda…

  7. Quando vão julgar as contas da CHAPA Dilma Temer ? Até a defesa foi conjunta, fato que contraria a ‘jurisprudência ‘ que estão querendo usar . O Temer foi eleito vice do próprio bolso ?

  8. Eu acredito na palavra do Temer tanto quanto na do Datafolha ! kkkaass.
    ————

    Ombudsman diz que Folha ‘errou e persistiu no erro’ ao ocultar dados de pesquisa
    Agência Brasil
    Publicado: 24/07/2016 12:29 BRT Atualizado: 1 hora atrás
    A ombusdman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa, escreveu neste domingo (24) em sua coluna que o jornal “errou e persistiu no erro” ao publicar dados incompletos sobre pesquisa Datafolha de avaliação do governo do presidente interino, Michel Temer.
    A pesquisa, divulgada no dia 16, foi alvo de críticas e acusada pelo site de notícias independente The Intercept de cometer “fraude jornalística” em relação à preferência do brasileiro sobre a permanência de Michel Temer, a volta da presidenta afastada Dilma Rousseff ou a realização de novas eleições.
    Na publicação original, a Folha informou que 50% dos entrevistados preferiam a permanência de Temer à volta de Dilma, e que, diante dessa questão, 3% disseram defender novas eleições. No entanto, quando a possibilidade de novas eleições aparece entre as respostas estimuladas, o percentual de entrevistados que optam por essa alternativa chega a 62%, o que não foi dito pelo jornal.
    A Folha só publicou a versão com esse percentual após as críticas e disse que não errou, mas que optou por não destacar cenário considerado “pouco relevante” pela direção do jornal. A ombudsman diz que sugeriu à redação “que reconhecesse seu erro editorial e destacasse os números ausentes da pesquisa em nova reportagem”.
    “A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas. Tendo a chance de reparar o erro, encastelou-se na lógica da praxe e da suposta falta de apelo noticioso. A reação pouco transparente, lenta e de quase desprezo às falhas e omissões apontadas maculou a imagem da Folha e de seu instituto de pesquisas. A Folha errou e persistiu no erro”, escreveu a Paula Cesarino Costa na edição deste domingo.
    Além da polêmica sobre o trecho da pesquisa que tratava de novas eleições, a ombudsman também critica a escolha do jornal de destacar na manchete sobre a pesquisa o otimismo com a economia, “subaproveitando temas políticos”.
    http://www.brasilpost.com.br/2016/07/24/ombudsman-folha-erro_n_11165966.html?utm_hp_ref=brazil

  9. Caro Bortolotto:

    O programa Pontes para o Futuro, um conjunto de medidas econômicas gestado na Fundação Ulisses Guimarães sob a liderança do ex-governador Moreira Franco presidente da Fundação depois de ser demitido do cargo de Ministro pela presidente Dilma foi sem dúvida um contraponto a política econômica do PT. Tanto é, que a presidente Dilma ficou profundamente irritada com o lançamento da tal Ponte para um novo governo. O governo percebeu então, o cheiro que exalava de seu principal parceira na aliança governamental. Logo depois emergiu a criticada Carta de Temer endereçada a Dilma.

    O governo da Dilma acabou no instante em que o PMDB decidiu retirar o apoio na aliança que vem desde 2002, com a vitória de LULA. O processo de impeachment é político como foi o do presidente Collor.

    A política segue os ditames da natureza, quero dizer, uma grande tempestade começa com pingos de chuva, depois vem a avalanche. Quando Dilma demitiu Moreira Franco do governo e tirou o tapete do substituto Eliseu Padilha, praticamente colocou o vice na oposição, a qual desencadeou a queda do seu governo, o que parece irreversível.

    Não se podia ignorar a força do PMDB no comando das duas casas congressuais, Câmara e Senado, além da vice -presidência. Dilma não poderia desconhecer a relação de causa e efeito da vingança pelos seus atos. Sem ter uma ampla maioria no Congresso e brigar com o maior Partido, o PMDB além de ter um inimigo, a terceira força, o PSDB, Dilma tardiamente viu os dois maiores se unirem para apearem-na do PODER. Nada acontece por acaso em política como na vida.

    Agora, voltando ao tema inicial alerto os próceres do PMDB, que o estelionato eleitoral do Plano Cruzado, quando Dilson Funaro, o Ministro da Fazenda quis tomar medidas de ajuste na economia antes das eleições de outubro, o PMDB vetou. Teve uma das maiores vitórias de sua história, apenas dois governadores não foram eleitos pelo PMDB, mas em novembro vieram as medidas impopulares. Qual foi o resultado do estelionato: A vitória de um líder messiânico, governador de Alagoas de um Partido minúsculo, o PRN. Trata-se de Fernando Collor eleito sob o furor contra a corrupção e os marajás. Só faltou a vassoura mágica destinada a varrer os corruptos do mapa.

    Se o PMDB errar novamente pelas mesmas circunstâncias ou similares a elas, um novo Sassá Mutema com a bandeira anti-corrupção será eleito a margem do PSDB, do PT e do PMDB e poderá arrastar a nação para um vale perigoso de lágrimas e sangue. A missão dos amantes da liberdade e da democracia é o de evitar a repetição do drama que vive o povo turco.

    A sorte está lançada.

  10. Obrigado por ter lido com atenção Ofélia.
    Ficaria muito feliz com seu comentário. Quando escrevemos, nada mais instigante do que o contraditório, as críticas e porque não a concordância, que nos envaidece e estimula a escrever muito mais vezes.

    Um abraço.

    • Prezado Flávio Bortolotto

      Nesse fim de noite dominical, suas palavras me remontam ao poeta Fernando Pessoa, de quem tomo emprestado uma famosa sentença : “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Por você ter gostado, então valeu a pena ter escrito.
      Muitíssimo obrigado e boa noite. .

  11. Ficou difícil pra eu comentar, Roberto, porque não sou simpática ao Moreira Franco, sogro do Rodrigo Maia (com o qual, sabe-se lá por que motivo, eu simpatizo).

    Ser contra o Moreira Franco parece defesa de Dilma, o que não é, absolutamente,verdade.

    Mas política é assim. Ou você envereda total para um lado ou corre o risco de ser apontada como defensora de quem você não defende.

    Por isto não me alonguei, Roberto.
    Seu texto está muito bom, é o que posso dizer.

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