Relato de uma comentarista sobre sua experiência com estrangeiros na Amazônia

Ana Lourenço da Rosa

O Brasil está sim, correndo sérios riscos graves de mais invasões no seu território amazônico, mas isso não é só coisa do presente. A história a seguir comentada, eu não li. Vivi e sofri. Residi em Jaru (Rondônia) entre os anos de 82 a 91, na condição de Coordenadora Pedagógica das primeiras instalações e treinamentos dos Núcleos Escolares nos Pólos-Noroeste/Selvas da Amazônia Legal, etc.

Confesso: precisei de muita coragem para realizar este tipo de trabalho em prol do tão esperado desenvolvimento sustentado dos povos da floresta. A ideia era boa. Em contato naquela época com os povos ribeirinhos e de selva fechada, revelava-se a grande presença de centenas e centenas de estrangeiros em buscas das riquezas (biodiversidade, flora e fauna). Pagavam pelas informações etnomedicinais da flora e sobre venenos medicinais da fauna.

Quando eu retornava da missão expedicionária educativa, visitava as pousadas de Jaru e lá encontrava um verdadeiro exército de “turistas” nos diversos idiomas, com seus intérpretes brasileiros, naturalmente. Em tempo, é preciso, no entanto, não generalizar, nem todos eram “piratas”. Naquela época, Rondônia contava com 26 municípios; mesmo assim, se somar a quantidade de exploradores pelas pousadas/ano, até que dava um bom número de invasores.

Existiram tantas ocorrências que é preferível o silêncio, não por covardia nacional. Preferi na época lutar com a única arma que tinha: usar a inteligência na direção de uma provável competitividade na junção de parceiros, criar associações, ONGs etc. Tudo não passou de um trabalho imenso e uma mera ilusão de pesquisadora idealista. Como recompensa. me sobrou bastante conhecimento na área da flora medicinal. Não saí zerada da selva.

Lutei pelos projetos na área, mas não consegui nada de apoio de nenhum brasileiro, mesmo sabendo das invasões estrangeiras etc. Desolada, vim em 1991 para o Tocantins – começar tudo de novo com plantas diferentes de cerrado. Esta é uma outra boa e má história e bem mais picante que a primeira. Quem sabe, ainda não está terminada.

Sempre digo: o meu silêncio vale mais do que uma montanha de ouro, quase cheguei ao ápice da fama total da minha vitória, isso em 1991 até 2000, quando fui derrubada novamente. Me considero como um galho de uma enorme e antiga sequóia, que enverga até o chão mas não arrebenta. E, na primeira oportunidade, aos poucos, recompõe-se com muito mais cuidado e sabedoria.

Concordo com Carlos Newton neste comentário saudoso que ele mesmo provocou em mim ao ler o seu artigo nesta Tribuna da Internet, que a Amazônia está em perigo! Perigo este causado pela sua própria grandeza e vulnerabilidade quanto a sua extensão territorial de fronteiras abertas. Tudo isso por si só já é uma grande ameaça, com a cobiça pelas riquezas múltiplas.

Nesse sentido a Amazônia já está invadida, principalmente, na busca de matéria-prima farta na produção de medicamentos. A história relatada aqui ainda não teve o seu fim, mas já me judiou profissionalmente até a alma. Mas continuo na ativa.

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