Renascimento do socialismo democrático nos EUA é a maior surpresa do ano

Se derrotar Hillary, o socialista Sanders pode até ser presidente

Lawrence Wittner
Commondreams

O socialismo democrático já foi força muito vibrante na vida dos EUA. Durante as primeiras duas décadas do século 20, o Socialist Party of America [Partido Socialista da América], puxado por um líder sindicalista carismático, Eugene V. Debs, cresceu rapidamente, de modo semelhante ao que acontecia então com partidos assemelhados na Europa e por toda parte: o British Labour Party [Partido Trabalhista Inglês], o Partido Socialista Francês, o Partido Social Democrático da Suécia, o Partido Trabalhista Australiano e dúzias de partidos semelhantes que eleitores escolhiam para governar seus países. Divulgando seu ideário mediante artigos, leituras e centenas de jornais do próprio partido, o Partido Socialista da América elegeu cerca de 1.200 representantes, incluindo 79 prefeitos em 340 cidades, além de numerosos deputados estaduais e dois membros do Congresso.

Chegados ao poder, os socialistas democráticos norte-americanos implementaram vasta gama de reformas sociais orientadas para pôr freio aos abusos dos empresários proprietários, democratizar a economia e melhorar a vida das classes trabalhadoras nos EUA.

INÍCIO PROMISSOR

Mesmo em nível nacional, o Partido Socialista tornou-se um dos principais atores na política norte-americana. Em 1912, quando seis milhões de votos deram a Woodrow Wilson a presidência, Debs – candidato do Partido Socialista –, arrastava multidão de seguidores apaixonados e obteve quase um milhão de votos.

Mas esse início tão promissor teria fim abrupto. O Partido Socialista fazia empenhada campanha pacifista contra a 1ª Guerra Mundial, e tornou-se alvo de ataques ferozes pelo governo de Woodrow Wilson, no campo da propaganda, mas também com ataques às sedes do Partido, censura aos jornais e prisão dos líderes socialistas, inclusive Debs.

Para complicar ainda mais o quadro, quando os revolucionários bolcheviques tomaram o poder na Rússia e estabeleceram a União Soviética, denunciaram os partidos ‘socialistas democráticos’ (…).

NADA DE COMUNISMO

Nos EUA, os socialistas democráticos rejeitaram furiosamente o modelo comunista. Mas a chegada dos comunistas ao poder dividiu fundamente a esquerda norte-americana (…). Embora o Partido Socialista da América continuasse a existir nos anos 1920s e 1930s, muitos socialistas simplesmente se mudaram para o Partido Democrata, especialmente depois que programas do New Deal pareciam estar ‘capturando’ a parte ‘menos assustadora’ dos programas socialistas.

A situação do Partido Socialista agravou-se desesperadamente durante a Guerra Fria. Com os comunistas incorporados à propaganda a favor da União Soviética (e a propaganda pró ‘ocidente’ dentro dos EUA a demonizar tudo que tivesse qualquer remoto traço de parentesco com comunistas), os norte-americanos foram induzidos a ver os comunistas como apologistas de uma ditadura ou como subversivos e traidores. E os socialistas acabaram erroneamente incluídos no mesmo ‘grupo’.

DECADÊNCIA

Nos anos 1970s, o Partido Socialista, antes tão próspero e vital, já praticamente não existia. Restavam ativistas, dos quais alguns poucos, liderados por Michael Harrington, separaram-se e criaram uma Comissão Organizadora dos Socialistas Democráticos [ing. Democratic Socialist Organizing Committee], a qual, adiante, seria convertida nos Socialistas Democráticos da América [ing. Democratic Socialists of America], grupo que criticava campanhas de outros partidos, chamava atenção para o valor dos programas ‘socialistas democráticos’ e trabalhava com os setores mais progressistas do Partido Democrata. Mas, ao logo de várias décadas, não se pode dizer que o grupo tenha feito grande diferença ou crescido muito.

Até que, notavelmente, o ‘socialismo democrático’ começou a renascer. Claro, nunca desaparecera completamente, e pesquisas ocasionais registraram várias vezes apoio ao ideário ou a candidatos ‘socialistas democráticos’.

RENASCIMENTO

Mas em dezembro de 2011, surpreendentes 31% dos norte-americanos pesquisados pelo Pew Research Center declararam reação positiva à palavra “socialismo”; e o maior entusiasmo foi registrado entre grupos de jovens, de negros e de hispânicos. Em novembro de 2012, pesquisa do Instituto Gallup descobriu que 39% dos norte-americanos reagiam positivamente a “socialismo”, inclusive 53% de Democratas.

Por que essa maré montante de apoio ao socialismo em anos recentes? Um dos fatores determinantes foi, com certeza, a reação/revide popular contra a crescente instabilidade econômica e contra a desigualdade social nos EUA, empurradas pela ganância e exploração dos trabalhadores pelos empresários e pelo controle que impõem às políticas públicas.

JOVENS CARENTES

Além disso, os jovens em idade de frequentar a universidade – vergados sob o peso de enormes dívidas para pagar os estudos, praticamente sempre condenados ao subemprego, e já sem nenhuma memória da propaganda anti-União Soviética – começaram a redescobrir a jamais contada e grande história política dos movimentos de massa nos anos do pós-guerra, e o notável sucesso da social-democracia na Europa.

Claro que Bernie Sanders desempenhou papel importante nesse renascimento público e na reavaliação do ‘socialismo democrático’.  Membro da Liga dos Jovens Socialistas [ing. Young People’s Socialist League], a ala jovem do velho Partido Socialista, Sanders forjou para si uma bem-sucedida carreira política como independente, eleito prefeito (muito popular) de Burlington, Vermont, deputado e, depois, senador dos EUA. Durante todos esses anos, Sanders sempre atacou a ganância dos ricos e suas empresas, combateu contra a desigualdade econômica e social e pôs-se na defesa dos interesses dos trabalhadores e dos norte-americanos comuns. Para muitos da esquerda dos EUA, ofereceu exemplo da ininterrupta relevância do ‘socialismo democrático’ nos EUA.

NAS PRIMÁRIAS

Mas a entrada de Sanders nas primárias dos Democratas, afinal, chamou a atenção de público muito mais amplo – e, como adiante se confirmou, de público que o recebeu com extraordinário interesse. Por mais que os veículos das grandes empresas-mídias tenham-se posto imediatamente a repetir que se tratava de candidato “socialista”, movimento que, para muitos, condenaria sua candidatura e o marginalizaria, Sanders não fugiu do rótulo.

Mais importante que isso, apresentou programa socialista democrata afinado com o pensamento de muitos norte-americanos: assistência universal à saúde (“Medicare for All”); universidade pública gratuita para todos; salário mínimo de $15/hora; ampliação dos benefícios da Previdência Social; impostos mais altos para os mais ricos; big money fora da política; e política externa menos belicista-militarista.

Tudo isso soou muito bem aos corações e mentes de números crescentes de eleitores. Em junho de 2015, pouco depois de Sanders ter lançado sua campanha eleitoral, pesquisa do Instituto Gallup mostrou que 59% dos Republicanos consideram a possibilidade de apoiar um socialista, se fosse candidato de seu partido. Aí se incluíam 69% dos norte-americanos de 18-29 anos, e 50% dos de 30-49 anos.

EM CRESCIMENTO

Para grande choque (e frequentemente para forte desagrado) dos especialistas, os números de Sanders continuaram a crescer consistentemente até rivalizarem com os números de Hillary Clinton, indicada pressuposta dos Democratas; e Sanders venceu 20% das primárias estaduais e caucuses dos Democratas realizados até agora. De fato, pesquisas mostravam que, se fosse indicado candidato pelos Democratas alcançaria vitória arrasadora na disputa final pela presidência.

Fato é que, chegue Sanders à Casa Branca, ou não, já ninguém pode duvidar de que o ‘socialismo democrático’ está de volta à vida dos norte-americanos.

(artigo enviado pelo jornalista Sérgio Caldieri)

11 thoughts on “Renascimento do socialismo democrático nos EUA é a maior surpresa do ano

  1. Esta madrugada, uma repórter da Globo News dizia que a rejeição a Hillary e a Trump era enorme, mas que o beneficiado poderia ser o Partido Libertário, que prega o estado mínimo.

  2. Na realidade é mais um socialismo humanista, algo totalmente cabível em países desenvolvidos. Agora mesmo na Suíça terá um plebiscito sobre o ” renda mínima” de U$ 2.500,00 mensais. Para quem tem é possível e saudável.
    Na própria Inglaterra todo o ensino é gratuito, menos o superior para estrangeiros. Nem a Margareth mexeu nisso.

  3. É cedo para se declarar Sanders fora do jogo, se a gente leva em consideração que o FBI ainda não encerrou as investigações a respeito do e-mail da Hillary ,que nos EUA existe uma coisa chamada super delegados e, por fim, se resolve dar uma olhada nas pesquisas eleitorais americanas.

    Na média de todas as pesquisas ralizadas no mês de Maio, Sanders derrota Trump por 10,8 pontos percentuais. O senador de Vermont é vitorioso em cada uma das 5 maiores avaliações como segue :

    1. RCP Média
    + 10,8%
    2. NBC News / Wall St.
    +15%
    3.CBS News / New York Times
    + 13%
    4. FOX News
    + 4%
    5. PPP (D)
    +11%

    Em contraste, Donald Trump , de acordo com a Real Clear Politics, agora vence Hillary Clinton por 2 pontos percentuais. Vejam alguns resultados:

    1. RCP Média
    + 0,2

    2. ABC News / Wash
    +2%

    3. NBC News / Wall St.
    -3%

    4. Rasmussen Reports
    +5%

    5. FOX News
    +3%

    6.CBS News / New York Times
    -6%

    Ou seja, Donald Trump, está na frente de Hillary Clinton em três das cinco top pesquisas nacionais. Já a do HuffPost mostra Clinton 1,6 pontos percentuais à frente do candidato republicano.

    Em 15 de abril último Hillary Clinton possuía uma vantagem de 10 pontos, e, em 24 de junho do ano passado, ela arrasava Trump por uma margem de 20 pontos percentuais .

    Tem mais. A pesquisa do HuffPost também mostra Bernie Sanders derrotando Trump por 10,2 pontos percentuais.

    O grande problema da Hillary é que a eleição será daqui a cinco meses. Se os democratas verdadeiramente temem uma presidência do Trump e se Hillary – com os federais nos calcanhares – continuar despencando nas pesquisas , ninguém se espante se os tais super delegados democratas agirem para que Bernie Sanders ganhe uma convenção democrata contestada.

    E então diante de uma presidencial Sanders X Trump, como eu já comentei por aqui , meses atrás , estaria provado que os americanos estão questionando alguns de seus paradigmas.

  4. Este artigo esta em desacordo com o que sempre pensei e vi em todos os regimes ditos “socialista”.
    Socialismo, como a própria palavra diz, é um ajuntamento de “sócios” e quem é sócio, é dono de uma ´parte de um todo.
    Por ser dono de uma parte, o sócio tem o direito de manifestar sua opinião, que obrigatoriamente tem que ser levada em conta em qualquer circunstância.
    Desta forma o socialismo tem que ser por natureza democrático, inclusive dispensando o
    adjetivo.
    Social democracia ou socialismo democrático são na verdade um regime onde existe a iniciativa privada e a liberalidade econômica é feita com extremos.
    No socialismo inexistem tanto o miserável, como o milionário, o imposto de renda é o instrumento que regula o ganho e acúmulo de riquezas.
    Não pode ser chamado de socialismo, o comunismo, este é o regime que só pode ser exercido pela força,sem a participação dos que dele deveriam se beneficiar.
    O comunismo é um mero “capitalismo de estado”
    onde o governo é dono de tudo e alguns indivíduos são donos do governo.
    Cuba é o exemplo mais notório deste experiência, sobre a terra.
    A terra de “Tio Sam”, não é por acaso o pais mais rico e mais poderoso do mundo. La o liberalismo econômico prosperou, porque nunca
    foi dada qualquer possibilidade de experiencias
    para teses que comprovadamente nunca funcionaram em qualquer parte do mundo e que agora destroem as combalidas economias da America latina, com este populismo irresponsável
    Ao meu ver, o único pecado dos americanos é o consumismo excessivo, pondo freio nos excessos, o resto esta de bom tamanho.

  5. É que o mundo é grande , caro Zé da Zica , e não é preto e branco.Tem matizes. Até escreveram um livro chamado 50 Tons de Cinza. Que ,sinceramente, eu não consegui ler para além da página 5. Prefiro O Amante de Lady Chatterley.

  6. Resumindo: muita cortesia com chapéu alheio. Sorte que possuem um espírito de nação, de direitos, mas principalmente, de deveres bem fortalecido. Obama sabe bem disso.

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