Renovação, até que enfim?

Carlos Chagas

Uma sombra ronda o Congresso, muito parecida com aquela que, na segunda metade do Século XIX, rondava a Europa. Trata-se, agora, da sombra da renovação. Fora exceções, nas últimas Legislaturas não mais do que 35% de novos deputados e senadores adentravam Câmara e Senado. Nesses números não se deve levar em conta a ascensão dos suplentes,  no Senado, pois chegam lá sem votos, pendurados na ajuda financeira que deram aos titulares, uns, ou na própria mediocridade, outros.

Falamos da renovação de verdade, aquela que faz expelir velhos ou novos representantes do povo despojados da  representatividade ou ultrapassados por candidatos mais ligados ao sentimento do eleitorado. Muitas vezes, é verdade, esses novos frustram todo mundo. Muitos revelando o que realmente eram, ou seja, apenas aspirantes às benesses e mordomias parlamentares,  ou então cidadãos  carentes  de quaisquer méritos necessários ao desempenho de suas funções.

Como regra,   porém, os que chegam alimentam esperanças. O problema é que  da redemocratização de 1985  até agora as renovações jamais alcançaram a metade das cadeiras no Congresso. Os candidatos à reeleição dispõem de seus mecanismos e de suas malandragens para permanecer, ao tempo em que os eleitores, de seu turno,   preocupam-se pouco com quem chega e com quem vai.

Desta vez, porém, tudo indica que será  diferente. A desmoralização das duas casas do Legislativo parece evidente, tanto faz se por obra e graça da imprensa ou, ao contrário,   porque a imprensa reflete o sentimento popular. De qualquer forma,  há medo entre os atuais detentores de mandatos parlamentares. Sentem não poder livrar-se da mancha que turva a imagem do Senado e da Câmara. Farão o que puderem para desligar-se dessa herança menos  maldita do que deveria ser, coisa que explica mudanças de comportamento, de uns meses para cá.  Acomodados tornam-se virulentos críticos de tudo o que se passa ao seu redor. Conservadores vestem, do dia para a noite, o paletó de reformistas e até de revolucionários. Tudo com vistas ás eleições do  ano que vem.  Grandes proprietários de terra tornam-se partidários da reforma agrária e do MST, assim como antigos defensores da extinção dos direitos sociais levantam-se em favor da permanência da CLT.

Tudo, importa reconhecer, na tentativa de permanecerem onde estão para, no mandato seguinte, passarem a se comportar como antes.

Há quem suponha que desta vez as renovações ultrapassarão índices anteriores e chegarão a mais da metade da Câmara e do Senado. Queira Deus que isso aconteça, mesmo diante da incerteza de que, na próxima Legislatura, continuará tudo na mesma.

Muitos repórteres velhos, mas não este que  vos escreve, costumam dirigir-se aos jovens com lufadas de saudosismo, afirmando que no tempo deles, sim, o Congresso era Congresso. Tinha Carlos Lacerda, Aliomar Baleeiro, Adaucto Lúcio Cardoso, Gustavo Capanema, Amaral Peixoto e tantos outros.

Pois é  bom que se acautelem, ou, ao  menos, deixem para os novos o vaticínio de que daqui a cinqüenta anos estarão repetindo a mesma cantilena: “no meu tempo, sim, é que o Legislativo era Legislativo. Tinha Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha, Mão Santa, Paulo Duque,  Ideli Salvatti,  José…  (cala-te,  boca de velho inconformado).

Exageros

Seria bom parar com os exageros decorrentes da brilhante vitória  do Rio para sede das Olimpíadas de 2016.  Razão mesmo tem Raul Solnado, o inesquecível cômico português que logo depois da festa dos cravos, que marcou o fim da ditadura em seu país, surpreendeu Portugal alertando: “há que esperar a conta do florista…”

Tem  os cariocas um mundo a construir. Duplicar o sistema de transportes, restabelecer a segurança pública, multiplicar a rede hoteleira, ampliar os  aeroportos, reduzir o tráfico de drogas e quanta coisa a mais?

O que não dá, no rol dos exageros, é ficar desde já planejando quantas medalhas de ouro nossos atletas vão receber. Chega a ser ridículo jogar sobre os ombros de meninos e meninas que hoje não passam de dez anos a responsabilidade de tornarem-se campeões olímpicos em 2016.  deve-se deixar fluir a natureza das coisas, é claro que com o máximo de apoio à prática de todos os esportes nas escolas, associações e instituições variadas. Mas cheira a paranóia começar  a  cobrar dos pimpolhos de hoje  uma responsabilidade que não sabemos se vão querer ou poder assumir, amanhã.  Melhor seria garantir para todos educação, saúde,  segurança  e emprego…

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