Reportagem da Folha dificulta o êxito da tese de Lewandowski

Pedro do Coutto
Reportagem de Severino Motta e Filipe Coutinho, Folha de São Paulo de segunda-feira 19, ao acentuar que o abrandamento da pena aplicada pelo Supremo Tribunal Federal ao ex-deputado federal Bispo Rodrigues pode se refletir em favor de  José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares (entre outros, certamente), tornou ainda mais difícil que o plenário da Corte aceita amanhã quarta-feira, a tese defendida pelo ministro Ricardo Levandowski cuja defesa fez eclodir o forte atrito entre seu autor e o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF. Motivado provavelmente por sua origem de membro do Ministério Público, Barbosa se descontrolou desnecessariamente. Possuia argumentos de sobra para colocar no debate, principalmente o fato de Levandowski ter votado pela condenação e concordado com a sentença original do Bispo Rodrigues.
Mas a questão agora, depois da matéria sobre o assunto publicada na edição da Veja que está nas bancas, e depois da reportagem da Folha de São Paulo, tornou-se ainda mais sensível, na medida em que deixa de ser um caso singular para representar um interpretação plural. Ficaria, aliás ficará, péssimo para o Supremo revelar publicamente que cometeu erros em série ao aplicar a legislação mais rígida quando caberiam penas mais brandas. A Corte Suprema perderia, em tal hipótese, muito de sua autoridade, alterando a aplicação de penas em grupo. Em tal caso, seria uma confissão de impropriedades e uma prova de falta de certeza, o que é inconcebível tratando-se da última instância judicial de um recurso. Sobretudo, como disse há pouco, porque não se trata de um caso isolado. Mas, na verdade, uma série de vários outros.
IMPROPRIEDADE
Uma impropriedade pode acontecer num ponto de um julgamento. Numa série de outros não se compreende. Inclusive a confissão de um punhado de equívocos daria margem a uma revisão de série do outro. Cada recurso abordaria um aspecto transitado em julgado transformaria a apresentação de embargos, sejam declaratórios ou infringentes, numa instância de recursos tão inexistente quanto interminável.

Se Delúbio Soares repassou recursos financeiros ilegais em troca de apoio político tanto no espaço de tempo em que a lei fixava penas mais brandas, quanto no período em que a legislação passou a ser mais severa, o maias importante, seja por qual deles for, foi a corrupção praticada. Sobretudo porque os condenados não negam a participação nesse ou naquele período, mas sim contestam o desfecho final da punição. Portanto são réus confessos. Não negam o crime imputado, contestam, siso sim, a punição. O Supremo Tribunal Federal assumirá a posição de que cometeu equívocos em série? Não acho que isso seja provável.

Analisando-se a questão sob o ângulo político, a Corte Suprema adotará a solução que melhor lhe convém, independentemente de qualquer outro ângulo. Não estou discutindo se é mais adequado e certo aplicar a pena maior ou menor, estou vendo o tema sob o prisma do STF, principalmente depois da publicação das reportagens da Revista Veja e do Jornal Folha de São Paulo. Acolher a tese de Lewandowski (ele próprio há de reconhecer) significará passar à opinião pública a imagem de uma incerteza que, existindo, deveria ter sido esclarecida ou consertada no momento certo, portanto na fase final dos julgamentos. E não agora, através de embargos que, pelo menos, se revestem de aceitação duvidosa. Na proporção, aliás, de serem iniciativas legítimas com base na  melhor interpretação legal.

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9 thoughts on “Reportagem da Folha dificulta o êxito da tese de Lewandowski

  1. Se a tese Lewandowski prosperar estrá implantada no Brasil a impunidade vergonhosa para ladrões e assassinos do PT e do Mensalão. Acontecendo isso podemos clamar para o fechamento do STJ e transformarmos o mesmo em o ambulatório de cura e gratificação para esse tipo de assaltantes.

  2. Somente um retoque da maior importância: fica mau para qualquer côrte de Justiça, sim, não reconhecer seus erros, isto pertence a arrogância e prepotência, com fundo na ignorância (da verdade preterida e não resgatada, uma vez apontado o erro), obviamente incompatíveis com república e democracia.

    A correção mostra grandeza, nobreza, a perpetuação de um erro, pelo contrário.

    Saudações libertárias

  3. Para os bandidos leis mais brandas, para os trabalhadores leis mais dura. Joaquim Barbosa exerceu o legitimo direito de Presidente do Poder Judiciário: evitar a tramóia, o assalto, a bagunça, os golpes baixos. Lewandowsik não passa de um chicaneiro-capacho-sem-vergonha do PT(Dirceu e Lula).

    Ordem no Tribunal!

    Só a canalhada anti-Brasil quer entregar o pais às mãos dos comunistas fanfarrões que tem no cardápio do palácio três línguas para o caviar e camarão, duas para o whiski, é uma para os charutos.
    Fora lacaio de mer.!!!! Volta para a cozinha da dona Marisa “cara de bolacha molhada” Letícia.
    E as prestações de conta do PT? Até a ministra Carmem Lúcia vai abrir as pernas?

  4. Colômbia: guerrilhas e grupos criminosos ainda recrutam crianças
    Internacional
    Leandra Felipe
    Correspondente da Agência Brasil/EBC

    Toríbio, Cauca (Colômbia) – Em meio ao processo de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo, o recrutamento de crianças continua em regiões em que o conflito está ativo. Em Toribio, departamento de Cauca e considerada zona vermelha, crianças são recrutadas pelas Farc. O Caminhos da Reportagem, programa da TV Brasil, conheceu alguns adolescentes que foram recrutados pelas Farc e histórias de famílias que, para fugir do recrutamento, tiveram que abandonar a região.

    O procurador da cidade, Juan Carlos Chamorro, conta que o recrutamento pode ser forçado ou espontâneo, quando a guerrilha consegue convencer o adolescente. Existem diferentes fatores: a curiosidade das crianças, a obrigatoriedade, e, fundamentalmente, por que as Farc têm presença efetiva aqui”, explica.

    A prefeitura do município calcula que só nos últimos dez anos, mais de 200 crianças de Toribio tenham sido recrutadas. Com 95% da população indígena, integrante da etnia Nasa, os garotos que comprovadamente estejam envolvidos podem responder criminalmente.

    Na Colômbia, as comunidades indígenas têm autonomia jurídica e podem julgar e condenar pessoas que façam parte de seu grupo. O governo do país acata as condenações. Jorge e German (nomes fictícios) são dois meninos nasas de 14 anos. Eles estão detidos na sede da associação indígena sob acusação de terem assassinado outro menino indígena da mesma idade.

    Eles foram condenados a 20 e dez anos de detenção e serão conduzidos ao Instituto Colombiano de Bem-Estar Social. Foram julgados pelo assassinato do adolescente John. Os três eram amigos. Segundo o inquérito, Jorge fazia parte das Farc. Ele diz que já não era da guerrilha e que participou de treinamentos por pouco tempo.

    “As Farc tinham me prometido uma moto e que eu ia trabalhar e ganhar dinheiro. Eu queria ajudar minha mãe e fui. Mas cheguei lá e vi que era mentira”, contou o garoto. Jorge disse que o amigo assassinado também tinha vínculos com a guerrilha, embora a associação indígena não comprove a informação. Jorge e John buscaram um fuzil das Farc que estava escondido perto de um rio.

    Juntos, eles foram mostrar a arma a German que não fazia parte do grupo. A ideia era convencer o amigo. German pegou a arma e sem querer disparou contra John e o matou. “Eu cometi um erro. Não queria matar ninguém e não sabia mexer no fuzil”, reconheceu visivelmente amedrontado.

    Tanto ele quanto Jorge dizem ter medo do que poderá acontecer com eles e com a família deles. “Tenho medo que me matem ou que matem minha família”. Na cidade há informações de que a guerrilha pode cobrar de volta o fuzil que foi retirado do esconderijo e o valor da “multa” poderia ser superior a US$ 7 mil.

    O coordenador jurídico dos nasas na cidade, Leonardo Escue, admite que os garotos não tinham capacidade de entender o significado de fazer parte de um grupo armado e que, depois de terem cumprido parte da pena, o “castigo” poderá ser revisado. “Segundo as normas do direito colombiano, eles são vítimas do conflito armado. Mas são vítimas que vitimam, ainda que não compreendam a ilicitude deste comportamento. Mas, como organização, como autoridade, nós temos que defender a vida sem importar quem seja, criança, adulto, militar ou guerrilheiro”, pondera Escue.

    Outra senhora, que preferiu não se identificar, teve que sair de Toribio para evitar que seus dois filhos fossem levados pelas Farc. O garoto tinha 12 anos quando ela deixou a cidade e só voltou quatro anos depois. “Os milicianos [guerrilheiros que atuam dentro da cidade, sem uniformes] ganhavam recompensas por criança levada. Eles ganhavam quase R$ 250 por uma [criança]”, conta. A camponesa diz que os milicianos tentavam conquistar os meninos dizendo que era bom estar na guerrilha. “Nessa época eu tinha dívidas e sou mãe de família. Meu filho aceitou ir porque queria me ajudar. Tive que tirá-lo de dentro do carro, quando ele já ia ser levado”, lamenta.

    A pesquisadora e analista política, Natalia Springer, estima que, nos últimos quatro anos, 18 mil crianças tenham sido recrutadas. A metade por grupos criminosos comuns, como as bacrims, e a outra parte pelas Farc e pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). “Os meninos e meninas não vão para a guerra porque querem ir e, sim, porque a dinâmica é tão poderosa que os arrasta. Há muitas variáveis que contribuem para isso, como a fome, o analfabetismo, a falta de inserção escolar”, pontua Springer.

    A pesquisadora destaca que não há punição para o recrutamento. “A impunidade é completa e observamos a falta de ação da Justiça para defender os direitos das crianças e levar os responsáveis a julgamento.

  5. Míriam Leitão – 20.8.2013 | 9h00m
    COLUNA NO GLOBO
    Questão de ordem
    O ministro Joaquim tem comprovado saber jurídico. Se não fosse isso, ele não teria construído o sólido relatório sobre a complexa Ação Penal 470 e nem teria conseguido ser acompanhado pelos seus pares. Eleitor do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, ele demonstrou o maior dos valores que um juiz precisa ter: separar suas preferências políticas do julgamento da ação.

    O ministro Joaquim Barbosa tem educação de berço, no que é o mais relevante: seus pais o ensinaram o valor da educação e da acumulação do conhecimento num país, e numa geração, que deixou pobres e negros fora da escola. Para perseguir os sonhos plantados na casa que nasceu é que ele foi tão longe. Poderia ter ficado em qualquer dos bons cargos que atingiu: gráfico do Senado, oficial de chancelaria. Mas o filho do pedreiro quis atravessar outras fronteiras, aprender várias línguas, fazer mestrado, doutorado, viver em outros países e entender o mundo.

    A admiração que tenho por sua trajetória de vida e sua obstinação; a coincidência que tenho com várias de suas avaliações sobre o Brasil não me fazem apoiar todos os seus atos e palavras. Também não gostei do conflito entre ele e o ministro Ricardo Lewandowski. “Chicana” é uma palavra que o meio jurídico abomina. Demorar-se em falas excessivamente longas que nada acrescentam de novo, e, na maioria das vezes, para acompanhar o relator, é um hábito que o ministro Lewandowski deveria abandonar. Isso protela o que já foi exaustivamente discutido. Pelo tempo dedicado ao julgamento dessa ação não se pode dizer que o Supremo Tribunal, ou seu presidente, tenha tido pressa. Tudo está sendo feito no devido processo legal. Quando era revisor, era natural que o ministro Lewandowski convocasse tanta atenção para si, seus pensamentos e votos. Agora, o alongamento não faz sentido.

    Sei que a economia tem assuntos aos quais eu deveria dar atenção. A pauta está cheia. O dólar dispara, a confiança dos empresários cai, o fluxo de capitais se inverte. São esses os temas preferenciais deste espaço.

    Mesmo assim, me ponho a falar de Joaquim Barbosa. O detonador da escolha para o tema de hoje foi a coluna de ontem do meu colega e amigo Ricardo Noblat. Dela discordo tão profundamente que quis registrar.

    Ele disse que “falta a Joaquim grande conhecimento de assunto de Direito” e citou como fonte, “a opinião quase unânime de juristas de primeira linha que preferem não se identificar”. Neste ponto, falha o jornalista Ricardo Noblat. Acusação grave fazem estes “juristas quase unânimes”, mas sobre eles recai o manto protetor do anonimato. E estas fontes, protegidas, não explicam como pessoa sem grande conhecimento de Direito consegue o apoio, nos seus votos, de jurista do patamar de um Celso de Mello, o decano do STF. Isso para ficar apenas em um exemplo.

    Noblat sustenta que Joaquim foi escolhido por sua cor. É louvável que o ex-presidente Lula tenha procurado ver os talentos invisíveis. Fernando Henrique procurou uma mulher e isso não desmerece a jurista Ellen Gracie. Países com diversidade — e que discriminam por cor e gênero — devem buscar deliberadamente o fim da hegemonia dos homens brancos nas instâncias de poder.

    Já discordei várias vezes do presidente do STF, mas mais profundamente me divorcio das frases de Noblat: “há negros que padecem do complexo de inferioridade. Outros assumem uma postura radicalmente oposta para reagir à discriminação”. Como já escrevi várias vezes neste espaço: acho que o racismo brasileiro é o problema; e ele tem causado sofrimento demais aos negros, e apequenado o destino do Brasil.

  6. Esta questão está esclarecida na súmula nº 711: A LEI PENAL MAIS GRAVE APLICA-SE AO CRIME CONTINUADO OU AO CRIME PERMANENTE, SE A SUA VIGÊNCIA É ANTERIOR À CESSAÇÃO DA CONTINUIDADE OU DA PERMANÊNCIA.
    A polêmica é chicana, mesmo.

  7. É uma vergonha o que se vê neste país neste momento. Existe uma queda de braço muito forte entre a verdade e a maracutaia…lamentavelmente, esta corja que ai esta instalada, não tem a menor preocupação em se esconder mais, jogam aberto na nossa cara…tripudiam das leis como se fossem os senhores da verdade…é lamentável, mas a casa vai cair senhores…podem esperar…a casa vai cair!!!

  8. Revista Veja: Poder, sexo e corrupção

    Publicado em 12 de fevereiro de 2012 às 13:40 hs.

    Rodrigo Rangel e Hugo Marques

    A moça esguia de cabelos pretos levemente, desgrenhados, com uma maquiagem quase imperceptível e vestida discretamente não chega a chamar a atenção da vizinhança elegante dos Jardins, em São Paulo, onde ela trabalha. A advogada Christiane Araújo de Oliveira não é uma celebridade nem uma fugitiva, mas encarna simultaneamente as duas personagens desde que se descobriu que sua vida passada tem um lado obscuro. Em Brasília ela foi protagonista de um tipo de enredo clássico, secular. A jovem discreta, religiosa e especialmente bela seduziu políticos e encantou o coração de muitos figurões da República, que retribuíram seus favores ajudando uma organização criminosa que desviou mais de 1 bilhão de reais dos cofres públicos. Sabe-se, agora, que ela usava seus dotes, sua simpatia e a intimidade que construiu com os poderosos para servir a um grupo de corruptos que conseguiu se instalar no seio do poder petista.

    É esse passado recente que a jovem advogada quer esquecer. Foi sobre isso que Christiane contou detalhes a órgãos de investigação, mostrando como lobbies políticos prosperam graças à forca de um pouco de charme e seus corolários mais picantes. VEJA teve acesso ao teor dos dois depoimentos que Christiane prestou, no fim de 2010, á investigadores do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Ambos foram gravados, um em vídeo, outro em áudio. Christiane dá detalhes de como usou de sua intimidade com homens fortes do governo federal para traficar interesses de um grupo de corruptos de Brasília e de seu antigo chefe Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal.

    Ela também conta como, numa via de mão dupla, essas figuras da corte federal exploraram o canal aberto com Durval, homem-bomba que a qualquer tempo poderia como fez, implodir o governo de José Roberto Arruda, até então do opositor DEM, e facilitar a conquista da administração local pelo PT e a desmoralização do partido adversário em nível nacional. Dos relatos de Christiane, cronologicamente contextualizados, saltam dois personagens de proa do governo de Lula: José Antônio Dias Toffoli ex-advogado do PT que se tornou advogado-geral da União e depois ministro do Supremo Tribunal Federal pelas mãos do ex-presidente e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula e hoje ministro da Secretária-Geral da Presidência.

    Expoentes da nata do primeiro escalão e petistas fervorosos, Toffoli e Carvalho têm também em comum a formação religiosa. Toffoli mantém uma relação estável há anos, é católico e irmão de um padre. Carvalho é casado e foi seminarista. A jovem Christiane e suas artes não combinam com o perfil público de nenhum deles. Nascida em uma família humilde de Alagoas, Christiane, que é evangélica, se mudou para Brasília há pouco mais de dez anos com o objetivo de se formar em direito. O pai, Elói, é um pastor a quem os crédulos atribuem o dom de curar e ver o futuro. Ele se intitula “profeta”, e os políticos formam sua clientela predileta. Foi através de um deles que Christiane conseguiu emprego no Congresso Nacional. Sentiu-se à vontade no ambiente e, em pouco tempo, contava com uma enorme rede de amizades. Em 2007, aceitou o convite para trabalhar no governo do Distrito Federal com um certo Durval Barbosa, o delegado aposentado e corrupto contumaz que ficaria famoso, pouco depois, ao dar publicidade às cenas degradantes que levaram à cadeia o governador Arruda e à lona seus asseclas.

    Sob as ordens de Durval, Christiane se transformou numa ferramenta a serviço da máfia brasiliense. Durval viu nela uma rara oportunidade de estender suas falcatruas para o nível federal. Os relatos de Christiane são o testemunho desse salto. Ela contou aos promotores e policiais que mantinha encontros secretos com Toffoli. Christiane afirma que, em um dos encontros, levou a Toffoli gravações do acervo de Durval Barbosa. A amostra, que Durval queria fazer chegar ao governo do PT, era uma forma de demonstrar seu potencial de deflagrar um escândalo capaz de varrer a oposição nas eleições de 2010. Há três semanas, VEJA publicou entrevista com Durval em que ele próprio disse ter enviado as gravações a Toffoli. O ministro negou a VEJA ter recebido a encomenda. Em seus depoimentos às autoridades, Christiane reafirma ter feito a entrega do material a Toffoli. Ela pode estar mentindo? Talvez. Toffoli pode ter recebido o pacote e o jogado fora sem se interessar pelo seu conteúdo. Talvez. Mas o que se sabe com certeza é que o objetivo de Durval foi atingido.
    É especialmente perturbadora a revelação feita por Christiane sobre o local onde, segundo ela, se deram os encontros um apartamento em que Durval armazenava caixas de dinheiro usado para fazer pagamentos a deputados distritais e que serviu de estúdio para vídeos incriminatórios. Os encontros de Christiane com os poderosos podem também ter sido gravados? “Essa é uma possibilidade que deve ser considerada”, disse a VEJA, sob a condição de anonimato, um dos responsáveis pela apuração. É apavorante a hipótese de que um ministro do STF esteja refém de chantagens de mafiosos e corruptos.

    Christiane tinha acesso livre à Advocacia-Geral da União quando Toffoli comandava o órgão. “Levei uma advogada lá e ganhei apenas uma bolsa Louis Vuitton mais verdadeira”, contou. Ela disse também ter viajado a bordo de um jato oficial do governo, o que teria sido uma cortesia do atual ministro em sua passagem pela AGU.
    As inconfidências de Christiane sobre Gilberto Carvalho não contêm ingredientes picantes, mas são reveladoras de como foi exitoso o plano de Durval de infiltrar sua insinuante parceira entre petistas de alto coturno. A sucessão de histórias relatadas por ela deixa evidente um padrão, o velho estratagema de atrair, registrar e, depois, tendo em mãos elementos que possam comprometer a autoridade fisgada, apresentar as faturas. Christiane foi portadora de diversas ofertas de Durval a Gilberto Carvalho uma delas, relatou a advogada, oferecia facilidades para investir a preço de custo no aquecido mercado imobiliário de Brasília. Durval era dono de mais de 250 imóveis na capital, boa parte deles comprada com dinheiro surrupiado dos cofres públicos. O ex-secretário desviou mais de 1 bilhão de reais nas contas do do Ministério Público. Ele fazia as ofertas em troca de favores.

    VEJA mostrou em março passado que, a mando de Durval

    Christiane enviou e-mails ao “Querido Dr. Gilberto” pedindo a ele apoio à recondução do promotor Leonardo Bandarra ao cargo de chefe da promotoria de Brasília, decisão exclusiva do presidente da República. Gilberto Carvalho rechaça a insinuação de que tenha aceitado quaisquer favores de Christiane ou Durval. Diz ele: “Eu não estava nesse circuito do submundo. Estou impressionado com a criatividade dessa moça”. O certo é que Lula fez exatamente o que a dupla de corruptos pleiteava. Bandarra foi reconduzido ao posto. Semanas depois de confirmada sua volta, Gilberto Carvalho enviou uma mensagem a Christiane. “Fiquei contente em ver nomeada a pessoa, Dr. Leonardo, que você indicara”, escreveu ele. O retomo de Bandarra interessava a Durval Barbosa, que tinha com o promotor um acordo destinado a livrá-lo das investigações de envolvimento em desvios bilionários dos cofres de Brasília. O doutor Leonardo Bandarra logo se revelou mais um venal integrante da máfia. Foi afastado e hoje responde a cinco ações na Justiça. Uma delas diz respeito a propinas recebidas de Durval. Christiane relatou aos promotores que o tráfico de influência que praticava funcionava nos dois sentidos. Ela diz que foi portadora de pedidos de Gilberto Carvalho, então todo-poderoso chefe de gabinete de Lula, para que Durval topasse entregar aos órgãos de investigação os vídeos gravados por ele que revelavam o esquema de corrupção no governo do Distrito Federal entre os quais a famosa e inesquecível imagem em que o então govenador Arruda aparece recebendo propina. O escândalo derrubou Arruda e deu a vitória ao petista Agnelo Queiroz.

    A linda doutora Christiane chegou a ocupar uma função estratégica no comitê central da campanha de Dilma Rousseff. Foi encarregada da relação com as igrejas evangélicas.
    Ela conversava pelo menos duas vezes por semana com Gilberto Carvalho e com outros coordenadores da campanha. Com Dilma eleita, a advogada foi nomeada para integrar a equipe de transição de governo. Foi exonerada depois da descoberta de que ela fora processada por participação na máfia dos, sanguessugas, que desviava verba do Ministério da Saúde destinada à compra de ambulâncias. Coube a um compungido

    Gilberto Carvalho demiti-la. “Sinto muito”, disse Carvalho à amiga em lágrimas. Antes disso, ela já chegara perto do poder. No auge do escândalo do mensalão, Christiane esteve no palácio do Planalto ao lado do pai, Elói de Oliveira, fundador da igreja Tabernáculo do Deus Vivo, com sede em Maceió. O famoso profeta Elói foi ao palácio rezar por Lula e fazer previsões do que esperava o presidente. Desenhou cenários favoráveis. Desde então voltou outras vezes ao Planalto, sempre na companhia da filha. Em uma dessas visitas, em 2006, cravou que Lula não teria dificuldades em se reeleger. Também avisou que podia enxergar “uma cratera se abrindo no chão de São Paulo”, o que causaria problemas para o governo estadual, do PSDB. A frase sobre a cratera foi entendida como uma previsão acertada do desabamento do canteiro de obras do metro paulista, em janeiro de 2007, que deixou sete mortos. A fama das previsões do “profeta”, agora em tratamento médico, fez dele um sucesso entre os políticos. Quando visitava o Congresso, deputados formavam fila para ser atendidos por ele e ouvir suas profecias. É ao sucesso do pai que Christiane atribuiu sua ascensão, inclusive a financeira.

    Habituada a usar roupas, sapatos e bolsas de grife, a menina de infância pobre em Maceió gosta de mostrar que venceu na vida. No ano passado, depois de VEJA mostrar sua relação promíscua entre o petismo e Durval Barbosa, Christiane foi orientada a sumir de Brasília. Por uns dias, hospedou-se em uma fazenda nos arredores da capital. Depois, mudou-se para São Paulo. Só deu seu novo endereço a parentes e amigos muito próximos. Seu novo local de trabalho na capital paulista era um segredo guardado a sete chaves. VEJA localizou Christiane trabalhando no escritório de advocacia Lacaz Martins, nos Jardins. Tentou falar com Christiane Araújo quando ela chegava para o trabalho. Nesse momento a advogada apressou o passo e entrou num Jeep, que pertence a um sócio da banca de advocacia. Ao procurar por ela no escritório, a reportagem foi informada de que lá não trabalha nenhuma Christiane Araújo de Oliveira. Ricardo Lacaz Martins, dono do escritório e colega de turma de Toffoli no curso de direito da USP, diz que Christiane foi indicada por um advogado de Brasília e que passou “pelo processo de seleção como qualquer outro de nossos quase 100 advogados”, sem que tenha havido nenhuma intervenção política ou de outra ordem na contratação. “Encontrei-me com Toffoli uma única vez, na festa de vinte anos da nossa formatura”, diz o advogado paulista. Por escrito, o ministro Dias Toffoli nega todas as acusações feitas pela advogada: “Nunca recebi da Dra. Christiane Araújo fitas gravadas relativas ao escândalo ocorrido no governo do Distrito Federal”. O ministro garante também que nunca frequentou o prédio citado por Christiane como local de encontro entre os dois e que nunca solicitou avião oficial para ela. Diz, por fim, que quando ocupava o cargo de advogado-geral da União recebeu Christiane uma única vez em seu gabinete, em uma audiência formal. Informado de que as revelações foram feitas pela própria Christiane em depoimento gravado a autoridades, no bojo de uma investigação oficial, o ministro optou por não comentar.

    Os relatos da advogada ao Ministério Público e à polícia foram feitos em ocasiões distintas. O primeiro deles se deu em 15 de setembro de 2010. Após seu nome aparecer em outros depoimentos, um deles prestado pelo próprio Durval, Christiane foi chamada ao Ministério Público Federal. Em princípio, era para falar sobre suas ligações com a máfia. Não se sabe por que Christiane surpreendeu os policiais e promotores com suas inconfidências espontâneas sem relação direta com o objeto da investigação, citando a toda hora Toffoli e Gilberto Carvalho. O fato de ela arrolar gente tão importante de livre e espontânea vontade pode ser uma estratégia de defesa antecipada? Seria se as citações fossem desprovidas de contexto e evidências. Indagado por VEJA, o procurador encarregado de tomar o depoimento, Ronaldo Meira Albo, confirmou ter ouvido o relato de Christiane, sem entrar em detalhes sobre seu conteúdo. Disse ele. Todo material, inclusive esse, depoimento, foi encaminhado à Polícia Federal para ser anexado aos autos da Operação Caixa de Pandora. O depoimento no Ministério Público Federal foi acompanhado por policiais da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal. Dias depois, Christiane foi chamada para uma conversa informal, dessa vez na PF, que resultou em seis horas de gravação. Estranhamente, as assombrosas revelações da advogada nesse novo depoimento, segundo a própria polícia, não fazem parte de nenhuma investigação. Por que será?

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