Reservas brasileiras batem recorde e 60% estão investidos em títulos dos Estados Unidos. Têm o lado bom e o lado ruim.

Carlos Newton

Em meio à crise no mercado financeiro mundial, é reconfortante receber a informação de que as reservas internacionais do Brasil alcançaram o patamar recorde de US$ 350,9 bilhões na quarta-feira, segundo dados do Banco Central.

Essas reservas funcionam como uma espécie de seguro contra crises, e são hoje cerca de 70% maiores que as existentes nas vésperas da quebra do banco Lehman Brothers, que desfechou  a crise mundial de setembro de 2008, causada pelo mercado imobiliário dos Estados Unidos.

Mas tudo tem seu preço. Para manter esse seguro, o país gasta por ano, segundo cálculos de economistas do mercado, cerca de R$ 50 bilhões (US$ 30 bilhões), o que supera os investimentos federais e equivale ao corte no Orçamento de 2011. Mas um estudo do BC apresentado no ano passado traz um cálculo diferente, estimando um custo menor, de R$ 68 bilhões entre 2004 e 2010, para manter as reservas, que trariam benefício da ordem de R$ 600 bilhões para a economia em momentos de crise, ao evitar uma fuga de dólares do país. Na dúvida, é melhor ficar com o cálculo do mercado, não é mesmo?

Esse aumento das reservas nos últimos anos não está ligado, no entanto, ao objetivo de ter um seguro maior, mas à necessidade de retirar do mercado parte dos dólares que entram no país, e assim evitar uma valorização maior do real, que prejudica o setor exportador. Este ano o Brasil já recebeu US$ 59,2 bilhões, 143% acima do verificado em todo o decorrer de 2010, e a tendência é de se manterem os investimentos estrangeiros. E o BC comprou outros US$ 47,5 bilhões, para enxugar o mercado do câmbio.

Grande parte desse capital investido no país, porém, é de caráter meramente especulativo, para operações de alta volatibilidade, que se beneficiam da “liberalidade tributária” do mercado brasileiro e não contribuem para o desenvolvimento nacional.

Quase 90% das reservas brasileiras estão aplicados em títulos, principalmente dos EUA. Os papéis da dívida norte-americana respondem por cerca de 60% das reservas. Há também dinheiro em depósitos fora do país, recursos no FMI e um pequeno percentual de ouro (0,5%).

O Brasil é o sexto país com o maior nível de reservas, atrás da China, Japão, Rússia, Arábia Saudita e Taiwan, segundo dados do FMI (Fundo Monetário Nacional) e dos bancos centrais desses países.

O aumento das reservas nesse ano foi de 21%, o maior percentual entre as 12 economias que possuem um volume superior a US$ 200 bilhões. A China, com US$ 3,2 trilhões, registrou o segundo maior crescimento, de 12% até junho (último dado divulgado).

Outros países também registraram aumento significativo das reservas nos últimos anos. Nessas economias, no entanto, os juros são menores, o que reduz o custo que elas têm para manter esse seguro, enquanto o Brasil insiste em praticar as mais elevadas taxas de juros reais (descontada a inflação) do mundo civilizado.

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