Respeitem o Péricles

Sebastião Nery

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres onde está lá até hoje, durante 30 anos ele fez questão de se submeter, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. E foi sempre reeleito. A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem conseguiu criar em toda a sua história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo em suas mãos, de seu exemplo, de sua vida, 500 anos antes de Cristo.

Quando Péricles, o ateniense, deu aos representantes da terceira classe o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e ser executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democrática, criando a democracia, 2500 anos atrás.

***
ATENAS

Péricles, filho de Xantipo, foi na verdade o governante de Atenas no ápice de seu poderio, nas décadas de 440 e 430 a.C. Foi diretamente responsável pela reconstrução do Partenon e de outros templos, depois da guerra com a Pérsia, no ano 449. Junto com a segunda mulher, Aspásia, esteve sempre no centro da vida intelectual ateniense. É, portanto, natural que seu período de liderança seja conhecido como a era de Péricles: suas conquistas, tanto quanto o programa de construções, transformaram a cidade em um “exemplo para toda a Grécia”, segundo suas próprias palavras no discurso do período 431/30 (Tucídides, II,41).

Vinte e cinco seculos depois, a Europa, obedecendo a seus patrões e proprietarios, os banqueiros, envergonha o mundo tentando impedir que a Grecia volte a fazer o que Péricles ensinou e tantas vezes fez : um referendo para consultar a população sobre uma grave decisão nacional.

O povo grego sabe – e por isso vai para as ruas, reage e se rebela – que de todo aquele pacotaço de dinheiro que o FMI e os Bancos Centrais estão juntando, dizendo que é para “ajudar a salvar a Grécia”, não ficará um tostão lá. Irá todo para os juros dos banqueiros. E por isso continuam exigindo que o governo aumente mais impostos, demita mais funcionários e trabalhadores, corte aposentadorias, castre e impeça o pais de crescer.

O inimigo de ontem era Esparta. O de hoje são os banqueiros.

***
PAPANDREU

Pouco tempo atrás, tentei visitar ou ao menos ver a cadeia onde estão os 22 generais e coronéis gregos, condenados à prisão perpétua pelos crimes hediondos que cometeram entre 1967 e 1974 na ditadura militar. Não consegui. A Grécia quer esquecer e quer que o mundo esqueça a vergonha de sua ditadura na terra de Péricles, o pai da democracia.

E ninguém fala mais neles, estão enterrados lá nas suas prisões perpétuas, bem tratados, gordos, com todas as mordomias, livros, TV, esportes,visitas da família e das mulheres nos fins de semana.

Os gregos têm razão. Para que ver generais assassinos? Melhor rever suas ilhas encantadas.E lá fui eu mais uma vez para os paraísos gregos. É doloroso ligar a TV e ver a batalha grega nas ruas, exigindo do governo que faça o que a Argentina fez e deu a lição ao mundo: pagar 25% realmente tomados emprestados e denunciar os 75%, oj juros da especulação.

O FMI, banqueiros, especuladores, vão estrebuchar, chantagear, comprar ainda mais a grande imprensa, parir furiosos editoriais, falar em “calote”, ameaçar “sufocar a Grecia no bloqueio”. No fim, agarrados pelos focinhos,vão se dobrar e receber os 25%, como receberam na Argentina. É preciso saber se esse Papandreu é um líder como foi Kirchner, que aplicou o dinheiro no pais e a Argentina há 10 anos cresce entre 8% e 10%.

***
TUCIDIDES

Nesta semana decide-se em Atenas uma cartada que é sobretudo da humanidade. É de sangrar o coração ver os banqueiros marchando atrás da sinistra gordinha alemã e do trêfego francês tentando tomarem a Grecia de assalto. Voltam nossa infância e os livros cheios de gravuras e fotos de homens de cara redonda, cabelos e barba enrolados, heróicos nas tragédias.

Naquelas colinas escarpadas, empedradas, caídas retas sobre o mar sempre azul, naqueles desfiladeiros apertando as águas, entre o continente e as ilhas, aconteceram algumas das mais longas, sangrentas e estúpidas batalhas da história das guerras, as “Guerras do Peloponeso”.

Ali, naquele estreito do Peloponeso, Alcebíades, Arquidamos, Brasidas, Nicias, generais enlouquecidos, travaram lutas fratricidas de Atenas contra Esparta, Esparta contra Atenas, Atenas contra Corinto, Megara, Egina. E Tucidides, o maior dos historiadores, cinco séculos antes de Cristo, sóbrio, seco, lacônico, a quem o passado pouco interessava, só o presente importava, contando tudo nos oito livros de suas “Historia” (historias), também chamados “Syggraphe” (tratados). Depoimento eterno.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *