Resposta ao comentarista Mont’Alverne sobre as divergências entre Carlos Heitor Cony e Helio Fernandes

Eduardo Mont’Alverne

Aproveito este espaço para pedir ao Carlos Newton ou qualquer colaborador deste site que comentasse, no próprio website e para todos tomarem ciência, a declaração dada pelo escritor Carlos Heitor Cony no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo de domingo dia 16/09/12, na qual ele afirma, salvo engano meu, que Hélio Fernandes foi “dedo-duro” do regime militar de 64. Se não estou equivocado, Cony afirmou que HF foi um dos maiores “dedos-duros” dos militares de então. Até agora permanece em mim certo estado de choque por conta de tal assertiva.

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NUNCA OUVI FALAR NISSO

Carlos Newton

Caro Eduardo Mont’Alverne, como sou amigo do Helio Fernandes e do Carlos Heitor Cony, poderia me sentir impedido de me manifestar a respeito do desentendimento entre os esses dois excepcionais jornalistas. Mas creio que não fica bem me omitir, aliás nem sei me omitir, é um dos meus principais defeitos, e não posso fazê-lo, especialmente porque Helio Fernandes não está mais escrevendo, faz uma falta enorme aqui no Blog.

Conheço pessoalmente Helio Fernandes desde 1967, quando entrei para o Clube dos Repórteres Políticos, então presidido por Carlos Chagas e que reunia mensalmente os jornalistas de política do Rio de Janeiro. Conheci Cony depois, em 1972, quando fui trabalhar na Bloch Editores.

Não sei de onde vem esse desentendimento entre Helio e Cony. Sei que Helio também trabalhou na Manchete, foi diretor da célebre revista e se desentendeu com Adolf Bloch, mas isso aconteceu bem antes de Cony trabalhar lá.

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HF NA OPOSIÇÃO

Para entender a posição de HF em 1964, é preciso se situar no tempo e no espaço. Helio Fernandes já havia sido perseguido no governo Juscelino Kubitschek, que proibiu três pessoas de aparecerem na televisão: Carlos Lacerda, Helio e seu irmão Millôr Fernandes.

No governo João Goulart, HF seguiu na oposição e o presidente mandou prendê-lo e o processou no Supremo, pedindo que o jornalista fosse condenado a quatro anos de cadeia, por ter divulgado documento confidencial do Exército brasileiro, que lhe fora entregue pelo general Cordeiro de Farias, mas Helio de recusou a revelar a fonte. A votação foi apertada, o jornalista escapou da prisão por 5 votos a 4.

É claro que HF jamais perdoaria Jango e até apoiou a deposição dele. Mas jamais apoiou o governo militar, queria que houvesse eleições em 1965, tudo isso é público e notório. Helio enfrentou os militares de peito aberto, a Tribuna da Imprensa foi o único jornal brasileiro a ficar 10 anos (1968 a 1978) sob censura prévia. No regime militar Helio foi preso, confinado e desterrado. Os militares explodiram o prédio do jornal, meu amigo Napoleão Brasil estava tirando um cochilo na redação, quase foi pelos ares. Tudo isso, também público e notório.

Jamais ouvi ninguém dizer que HF fosse dedo-duro. Li essa declaração dele na Folha, entrevistado por três jornalistas que se omitiram (um deles, João Paulo Cuenca, começou a escrever crônicas na Tribuna da Imprensa, a convite do genial editor Antonio Caetano). Estranhei que nenhum dos entrevistadores tenha se interessado em aprofundar o assunto. Agora, Cony precisa explicar a denúncia, que é genérica e imprecisa.

Resumindo: não sei por que motivo Helio Fernandes e Carlos Heitor Cony estão brigados. Sei que recentemente HF escreveu comentários altamente desairosos a um livro de Cony sobre as mortes de Juscelino, Jango e Lacerda.

E vou ficando por aqui, porque sou amigo de Cony e Helio, gosto deles e não tenho mais idade para perder amigos.

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