Revelada estrutura da corrupção no país: honestidade, qualquer dia, passa a ser um defeito

Pedro do Coutto

A extensa e sensacional reportagem de Cleide Carvalho e Germano Oliveira, edição de sexta-feira de O Globo, totalmente com base nos depoimentos de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef à Justiça Federal, revelou para a sociedade brasileira a estrutura verdadeira da alta corrupção instalada na Petrobrás que, efetivamente, estarrece a opinião pública.

Ocupando as páginas 3, 6 e 7, o texto magnífico  assemelha-se ao roteiro de um filme no melhor estilo documentário. Destaca-se pela exatidão dos fatos numa sequência impressionante. Na página 7, Carlos Roberto Costa sustenta que as diretorias da Petrobrás nos governos Collor, Sarney, Fernando Henrique e Lula sempre foram ocupadas por indicações políticas. Excetuou a presidente Dilma Rousseff. Eu – destacou – fui indicado pelo deputado José Janene, em 2008, que morreu dois anos depois em 2010. Janene representava o PP.

Depois, Paulo Roberto da Costa foi incluído na relação dos indicados pelo PT e PMDB, até deixar o cargo em 2012.

ESQUEMA REVELADO

O funcionamento do esquema já está revelado, mas cabe a pergunta em que escala começou a funcionar e como se ampliou através do tempo proporcionando a realização de um depósito de 23 milhões de dólares em contas que o ex diretor mantinha em bancos suíços.

Costa e Youssef não podem estar mentindo, não apenas pelo fato de perderem direito à figura da delação premiada, mas sobretudo porque não podem ser autores de uma obra de ficção  abrangendo diretamente tantas empresas e tantos personagens. Ninguém poderia inventar uma história desse estilo. Inclusive eles terão que provar as revelações que fizeram, às quais, é claro, podem acrescentar outras, apresentando pormenores capazes de cimentá-las ainda mais.

ATÉ OS LOCAIS

Nos depoimentos  citaram até os locais em que recebiam e entregavam as vultosas quantias das contratações e propinas que intermediavam. Intermediavam sem esquecer as parcelas voltadas para os partidos políticos responsáveis, não só por sua indicação, mas também, em consequência, pela manutenção nos postos – chave.

Esta condição era fundamental à permanência num esquema múltiplo envolvendo a empresa estatal, grandes empreiteiras de obras, faturamentos, lobistas, políticos e, certamente, assessores que tinham a tarefa de servir de ponte nas estradas da corrupção.

Esta foi se ampliando no país, com a fixação de sobre processos, que parece ter se institucionalizado ao ponto de personagens desse enredo financeiro passarem à condição de figuras celebradas. Em contrapartida, a isso constitui fenômeno gravíssimo, a honestidade parecendo transformar-se em defeito. Os desonestos passam ao primeiro plano. Os honestos vistos com desconfiança e em diversas situações tendo sua presença rejeitada em várias escalas da administração pública.

Seja federal, estadual ou municipal. Claro. Porque ninguém vai se iludir que o esquema que atingiu o nível teto na Petrobrás não se repita em uma série de escalas em outros campos de atuação. A reportagem de Cleide Carvalho e Germano Oliveira, a partir de hoje, um dia depois de publicada, passa a ser uma peça importante para quem escrever a moderna história do país amanhã.

4 thoughts on “  Revelada estrutura da corrupção no país: honestidade, qualquer dia, passa a ser um defeito

  1. Já o é… Defeito que infelizmente a imprensa brasileira não o possui. Não que aprove as falcatruas em nenhuma agremiação política. Mas não se viu uma vírgula e com tanta intensidade no esquema de corrupção do metro paulista. E olhem que o furo lá ao que parece deixa os “petralhas ” (não é assim que vocês se referem aos petistas) no chinelo.

  2. Ao país, além de educação e respeito, faltam ao seu povo outras qualidades importantes como patriotismo, civilidade e disciplina… em suma, o fundamental para ser coerente com o ORDEM E PROGRESSO estampado em nossa bandeira.

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