Revista Veja revela bunker e complica Dirceu no STF

Pedro do Coutto

A reportagem de Daniel Pereira e Gustavo Ribeiro, revista Veja que está nas bancas, ao revelar o gabinete nas sombras do ex-ministro José Dirceu no Hotel Naoum, em Brasília, não somente cercou o bunker de influências ocultas, mas também complicou a situação do deputado cassado e reduzido seu campo de manobra para escapar do julgamento do mensalão de 2005, pelo Supremo Tribunal Federal.

José Dirceu representa, ou representava, interesses políticos e econômicos diversos. Dava audiências a senadores e deputados inclusive do PSDB. Além de dialogar com o próprio líder do governo, Cândido Vaccarezza. O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, era um dos visitantes do crepúsculo. Outros tratavam de seus interesses, escolhendo-o como evidente intermediário. Dirigentes de fundos de pensão, do sistema de telefonia, da Delta Construções, que está fazendo a reforma do Maracanã. O governo no exílio, capital Hotel Naoum, era (ou continua a ser) sustentado financeiramente – acrescenta a Veja – pelo escritório de advocacia de Hélio Madalena.

No Globo de domingo, (Veja circulou na tarde de sábado ), José Dirceu acusa os repórteres de tentarem invadir o reduto. Mas não havia necessidade. A extensa sequência fotográfica que acompanha o texto da matéria publicada foi fornecida pelo próprio Hotel Naoum. Vêm da reprodução, por fotogramas, de filmes produzidos pelas câmeras instaladas nos corredores do ministério paralelo.Metade influência de verdade, calcada em promessas, outra metade farsa, como colocou Fellini no Oito e Meio, filme notável, no momento em que Mastroiani analisa os atributos de um místico vidente.

O lobismo também é assim: metade, metade farsa. Alguém sempre tentará demonstrar um poder que possui muito além da realidade. Não quero dizer com isso que José Dirceu não fosse – daqui para a frente não é mais pistolão do mundo dos negócios – poderoso. Mas sem dúvida exagerava o seu poder. Faz parte da encenação clássica. Porém eu disse que, a partir da Veja, ele esvazia. Por quê? Para tudo na existência humana haverá sempre uma razão lógica. Simplesmente porque seu “governo” paralelo colide frontalmente com a presidente Dilma Roussef. Afinal de contas, qual o motivo que levou Sérgio Gabrielli ao Naoum e não ao Palácio do Planalto?

A história dos lobistas é sempre assim. Conheci, ao longo da vida, vários casos de aparência de falso poder. O coronel Newton Leitão, ex-chefe da Polícia Federal no governo Castelo Branco, um deles. Foi afastado do cargo antes de Costa e Silva assumir a presidência, mas cultivou com cautela e simulação a posse de instrumentos capazes de decidir problemas.Tanto assim que o jornalista Roberto Marinho o contratou para sua assessoria pessoal. Newton Leitão alardeava sua amizade pessoal, no período Geisel, com o general Golbery do Couto e Silva. Um dia o diretor de O Globo acionou Leitão para encontrar-se com o chefe da Casa Civil. Newton Leitão adiava, dizendo que o momento não era propício. Marinho era amigo do atual juiz do TRT de São Paulo, Ernesto Dória, que por sua vez era muito ligado a Guilherme Romano, que hospedava Golbery no Rio. Ernesto Dória entrou em campo e resolveu tudo em 24 horas. Foi também o tempo que Roberto Marinho levou para demitir Newton Leitão.

Passados dois anos, eis Newton Leitão de volta ao cenário. Inventou um projeto de seguro para roubos em motéis. Houve uma reunião num deles. Leitão presente.  Mas para seu azar presente também o repórter Victor Combonassis, de O Globo, um argentino que se fez passar pelo dono do Miraflores, um espanhol. Dias depois, numa edição de domingo, a reportagem foi publicada. Foi o fim de Newton Leitão como lobista.

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One thought on “Revista Veja revela bunker e complica Dirceu no STF

  1. Convivi com o coronel Newton Leitao por mais de 10 anos, e por nossa casa vi presenças de figuras ilustres da epoca, podendo citar alguns nomes: Delfin Neto, Jose Sarney, Paulo Maluf, Francisco Dornelles, Galveias, Romulo Furtado, jarbas Passarinho e tantos outros. No mesmo periodo tratava dos interesses da Klabin, construtora Rabelo, Siemens, Globo, O dia….
    E sem deixar de recordar que toda terça feira as 10 horas da manha o coronel e o general Golbery se encontravam tanto na casa civil como scs.
    E’ obvio que quando o Brasil foi entregue ao governo civil, estes personagens nao tinhao mais nescessidades do lobismo do coronel, E o mesmo reconheceu o momento de deixar Brasilia, se retirou em 1985, indo viver no Rj.

    E para Vossa informaçao, O general Golbery jamais quiz encontrar Roberto Marinho, porque nao o tolerava,

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