Ricardo Teixeira renunciou à CBF porque sabia que os documentos da Fifa seriam divulgados

Carlos Newton

Em março, quando Ricardo Teixeira renunciou ao Comitê Executivo da Fifa e às presidências da CBF e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014 ‘em caráter irrevogável’, ainda houve quem justificasse que ele estaria doente. Mas na verdade estava apenas se adiantando aos fatos, porque sabia que mais cedo ou mais tarde a Justiça da Suíça divulgaria o suborno.

Na verdade, a gestão de Teixeira na CBF sempre foi marcada por denúncias de irregularidades. E nos últimos anos, ele passou a ser alvo de sucessivas acusações da imprensa britânica.
Em 2010, foi uma reportagem do programa de televisão Panorama, da BBC, que revelou a verdade: a Fifa impedia a divulgação de um documento que mostraria a identidade de dois dirigentes da entidade forçados a devolver dinheiro de propinas em um acordo para encerrar uma investigação criminal na Suíça, em 2010. Segundo os jornalistas ingleses, um dos dirigentes era Teixeira e o outro, Havelange.

No Brasil, houve quem não acreditasse. Eu mesmo, escrevendo no Blog da Tribuna, opinei que o segundo dirigente não seria Havelange. Teixeira é um criminoso nato, mas Havelange… era difícil acreditar. Desculpem a minha falha. Sou mesmo ingênuo e idiota.

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O ACORDO JUDICIAL

O acordo judicial encerrou uma investigação sobre propinas pagas a altos dirigentes da Fifa na década de 1990 pela ISL. Até ir à falência, em 2001 a ISL comercializava os direitos de televisão e os anúncios publicitários da Copa do Mundo para anunciantes e patrocinadores.

Em 27 de dezembro de 2011, a Justiça suíça ordenou que a Fifa abrisse em até 30 dias os documentos do caso ISL, o que não ocorreu. Também em 2011, a Polícia Federal brasileira enfim decidiu abrir investigação sobre a denúncia.

E agora a própria Fifa divulga um documento que confirma que o ex-presidente da entidade, o brasileiro João Havelange, e o ex-dirigente da CBF, Ricardo Teixeira, receberam uma soma equivalente a 45 milhões de reais em propinas.

De acordo com o documento, entre 1992 e 1997, Teixeira recebeu pelo menos 12,74 milhões de francos suíços (equivalentes a R$ 26 milhões, nos valores de conversão atual) da empresa de marketing esportivo ISL (International Sports and Leisure), que pediu falência em 2001.
O documento mostra que Havelange recebeu 1,5 milhões de francos suíços (R$ 3,1 milhões) em 1997. Pagamentos feitos entre 1992 e 2000 e atribuídos a contas relacionadas aos dois totalizam quase 22 milhões de francos suíços (R$ 45 milhões).

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FIFA E CORRUPÇÃO, TUDO A VER

Detalhe importante: a Fifa só divulgou os documentos horas depois de a Suprema Corte Suíça ter decidido que a imprensa deveria receber detalhes do caso.

Teixeira e Havelange foram os dois únicos ex-dirigentes da entidade cujas identidades foram reveladas. Certamente há muitos outros corruptos por lá. E por isso mesmo a Fifa demorou tanto tempo para divulgar o documento.

E agora, em nota divulgada nesta quarta-feira, a Fifa expressa ‘satisfação’ com a decisão da Justiça suíça e diz que ela está de acordo com o processo de reformas iniciado pela instituição no ano passado, para torná-la mais transparente. É um cinismo impressionante.

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