Rigor e prudncia contra os insanos

Mauro Santayana

Como a Histria nos mostra, poder e crise so categorias companheiras. Quando as sociedades se poupam de crises, privam-se de dinamismo e se arrastam em pausas sonolentas. O confronto poltico, por mais irritante seja, necessrio vida, e evita os conflitos sangrentos.

A corrupo dos poderosos e no do poder, em sua natureza abstrata infeco quase endmica e associada ao surgimento da propriedade privada sobre os bens comuns. Ter mais ter mais, seja de que forma for. Para fazer frente a isso, os homens criaram o Estado, em sua origem e fim destinado a assegurar o mnimo de justia e encarnar a solidariedade da espcie. Mas o Estado tambm assaltado, o que exige a vigilncia e a resistncia dos cidados. E, em nome da moralidade do Estado sempre se instalam as ditaduras sangrentas (e igualmente corruptoras e corrompidas). No precisamos nacionalizar essa constatao.

Vejamos as revelaes atribudas a Marcos Valrio, um homem comum e ambicioso, que se tornou, pelas circunstncias, o eixo da Ao 470, em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal. Ele sabe que sua sorte j se encontra decidida, e nada ir evitar a pena a lhe ser imposta pelos seus julgadores. Por isso, busca mostrar-se como mero instrumento de uma conspirao com financiamento esprio, mas no foi bem assim. Atuou com inteligncia ttica, construindo um projeto de elaborada engenharia econmica e de convencimento poltico. certo, e j dissemos isso, que, movendo-se entre banqueiros que seriam os grandes beneficirios do esquema – ele agiu com iluso de classe.

O jovem de classe mdia de Curvelo, por mais xito colhesse em suas atividades comerciais, era um outsider nos encontros com os representantes das oligarquias com quem articulava os negcios hoje devassados. Tampouco era do ramo nos atos polticos. Ao que se sabe, as suas relaes no se limitaram ao PT. Os publicitrios profissionais raramente tm ideologia. Quando a tm, agem como os advogados, que quase sempre defendem causas sem que, necessariamente, com elas concordem.

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FAZENDO NEGCIOS

Valrio fazia negcios e reunia os interessados em influir sobre a administrao do Estado, como os banqueiros, – no s os que foram arrolados na ao em julgamento – e os polticos que necessitavam de recursos para a construo ou manuteno de seus espaos no parlamento e no poder executivo.

Ele tinha conscincia do que fazia, obtinha seus lucros, aplicava-os e procurava dar o melhor conforto material possvel famlia. Como tantos outros no passado brasileiro, ele esperava usufruir da impunidade dos grandes. Se os grandes se salvassem, deveria ser esse o seu raciocnio, ele estaria tambm a salvo. As declaraes de Marcos Valrio esto sendo usadas politicamente: a disputa pelo poder no uma partida de golfe. Mas se equivocam os que pensam na hiptese de desestruturar o governo atual, sem comprometer a estabilidade do Estado.

preciso ver a reao de Marcos Valrio em suas dimenses e motivos reais, como a vem os ministros do STF, e sossegar os incendirios de turno. Os cidados sensatos devem separar as coisas. O julgamento dos fatos pelo STF demonstra que as instituies esto comeando a funcionar para valer em nosso pas, e que, conhecido o veredicto do Tribunal, o Brasil continuar a existir com seus quase duzentos milhes de habitantes acrescidos, todos os dias, dos que nascem com seu direito a conhecer, criar com seu trabalho, buscar a felicidade para os seus e, o que inerente condio humana, participar dos embates polticos que do movimento Histria. At agora, ningum, de bom senso, est dando importncia s declaraes de Valrio. Elas soam como moedas de barro.

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FINANCIAMENTO PBLICO

Mas ser um desperdcio dos esforos do STF e das emoes dos democratas, apreensivos com o desalento poltico, se o episdio no servir para uma profunda reflexo dos que podem decidir, no sentido de realizar a to esperada e necessria reforma poltica, de forma a libertar o voto do poder econmico e, com isso, dar legitimidade aos governos e ao Estado. preciso insistir nesse propsito, at que a razo se imponha.

O primeiro passo deve ser o do financiamento pblico das campanhas. Por mais oneroso possa ser esse investimento, o Tesouro despender nele muito menos do que, indiretamente, despende hoje. E todos tero a mesma oportunidade de expor idias e programas, se a lei for bem elaborada.

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